segunda-feira, 29 de março de 2010

Débitos Maniqueístas

foto de Bina Fonyat

Eis um poema do polêmico poeta português, Fernando Correia Pina. Eu lhes digo -- desde já --  que não concordo com essa forma de alimentar ressentimentos, antagonismos, amarguras e rancores. Acho que este poema peca pelo excesso de maniqueísmo. Ele simplesmente generaliza no sentimento de injustiça.  O poeta joga e manipula com as palavras tentando dar a elas um sentido de revolta ideológica. E como diz o meu guru, Luc Ferry, as religiões e ideologias fizeram as sociedades e os indivíduos sacrificar-se por ideais inúteis.

Mas publico aqui o poema de Fernando Correia Pina. Por que publico? Ora, caramba, para causar impacto. E os impactos são importantes -- porque fazem refletir.


Saldo Negativo

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.


É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.


É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.


É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.


É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.


É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.
Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês

e isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do Ocidente.

6 comentários:

  1. Não gosto de maniqueísmo, mas vou fazer o contrário. Os países desenvolvidos se preocupam muito mais com o seu povo do que os países pobres. Um japonês é decoberto roubando, ele se mata, um político brasileiro, vai para a tv, chora, dia que não sabia, ou que o dinheiro que os milhões de dólares em sua conta não são dele, que ele não sabe como foram para em uma conta em seu nome, e os brasileiros o reelegem. Até mesmo em SP que é o estado mais rico da federação. Vide Maluf e a turma do mensalão.

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  2. É muito forte mesmo mas com sabor a realidade, demasiada realidade.

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  3. Estou mais para o lado Maia da situação.

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  4. A gente leva mesmo uma vida bastante boa.

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