quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Volta na quadra

Na volta na quadra com meus quadrúpedes, converso com um operário da obra que começou aqui ao lado. Ele me diz que vão derrubar de vez o sobrado antigo. Pergunto sobre o número de andares do prédio. Três, talvez façam um quarto. Abro o sorrisão. O horizonte seguirá na minha janela. Sigo em frente, paro na casa da Tita, a chamo, e ela não vem. Nem sinal de novo. Faz dias que ela não vem... Ligo o botão do otimismo e digo para Bono e Fifinho que ela deve ter saído de férias. Sigo mais um pouco e vem subindo a lomba duas moças de salto agulha alto, tão alto, mas tão alto que chega a dar vertigem. Paro para observar. A única vez em que tentei calçar algo parecido, balancei para frente, para trás e quase gritei "madeiraaaa". Elas não perdem o rebolado. Conversando como se nem tivessem pés, param em frente a um carro, a motorista abre a porta, entra e senta. Eu espicho o pescoço. Ela vai trocar os sapatos por um baixinho. Vai trocar. Tem de trocar. Que nada! O carro faz ram rom ram e eu fico, na calçada, com a minha bipedice, realmente, abismada...

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O CORVO

Vivia eu
Dia solitário
Dia triste
Cabeça vazia
Pensamento oco
Quando me chegou
Um corvo
(Não sei se lúgubre
Não sei se aziago
Não sei se ogro)
A pedir-me pouso

Explicou:
Vinha de um tempo
Já prescrito
Fora despejado
De uma cripta
Da qual
Tinha documentação
Legalizada
(Firma reconhecida)
Compreendi
(Sei o que é burocracia)
Aquiesci
(Precisava
Mesmo
De companhia)
E lá se foi a ave
Agradecida
Buscar esposa
Buscar concubina

Instalaram-se
Os três
Na minha referida
Caixa craniana
Criaram descendência
(Eu criei dependência)
Ali viveram
(Melhor dizendo:
Ali vivemos)
Até o momento
Em que o espaço
Ficou parco:
Bateram asas
Bateram em retirada

Levando apêndice



domingo, 1 de novembro de 2015

Ficções das pequenas incertezas I



      É bem provável que ela diga daqui pra frente narro a vida sem você. Diga quase levemente, assim como quem não quer nada, parecendo menina, deixando as palavras derreterem-se pelo corpo inteiro, de cima abaixo, maculando o vestido, a pele, os pés. É bem provável que ela prenda os cabelos em um coque e ajeite a pilha de livros sobre o criado-mudo, colorida como as fotografias tiradas no mercado de flores, antes de abrir as portas do armário e ordenar a ele que feche as da rotina. Ele, a sua bagagem de retorno e de ida, o seu silêncio de afagos e a sua metade agora mordida. 

Postado por Helena Terra (Bípede falante)

domingo, 7 de junho de 2015

Mãe de gente

Junho é o mês em que conto os anos da morte da mãe. Este ano, dia 23, serão dezoito. No início, pensei que com o tempo o seu desaparecimento precoce se acomodaria em algum esconderijo da minha mente. 
Mas não dizer mais a palavra mãe escancarou a sua falta logo na primeira semana. Até então eu não tinha entendido o quanto essa palavra nos  ampara.
Nos domingos, invariavelmente, ela me ligava estivesse onde estivesse. Se não me encontrava em casa, deixava na secretária eletrônica sempre a mesma mensagem:
- Milha filha, sou eu, a mãe. Me telefona quando puder.
Guardei a fita cassete com a gravação. Está em uma gaveta do móvel que era do meu pai dentro de uma caixinha de madeira. Dá para se perceber que sou sentimental. No entanto, não tenho como ouvi-la. O gravador compatível que eu tinha, dos tempos ainda de faculdade, se perdeu. Talvez tenha ficado na casa antiga.
Muitas coisas se perderam.
De muitas coisas me perdi. 
De algumas outras fui perdida.
A vida é também uma dinâmica de subtrações embora a gente passe o tempo acumulando de tudo um pouco, inclusive novos laços e alegrias.
Três anos depois que a mãe morreu, tornei-me uma. 
Gordo, grande, saudável nasceu o meu filho. E a cada mãe, mamãe, que ele disse e diz sinto falta da minha.
A minha mãe, além de cuidar da família e da casa, lecionava, pintava e administrava um pomar de maçãs.  Não se encaixava no modelo  materno primário de que ser mãe é viver só de dar e receber amor. Não se encaixava em vários modelos femininos propagados por essa nossa cultura despudoradamente autoritária e machista. 
Entretanto, se encaixava no que entendo por ser, de verdade, a pessoa responsável pela educação de uma outra. Educação afetiva, social, política, pessoal. Educação muito além dos manuais de etiqueta e dos bancos escolares.
Assim como eu, minha mãe adorava cães. 
Assim como eu, não se sentia mãe de nenhum.
Me perdoem as mães de gatos e cachorros. A ideia não é diminuí-las. Mas ser mãe de gente é outra história. Exige trabalho árduo e constante. 
Mãe de gente não sai e bate a porta e diz até a noite.
Mãe de gente está sempre de olho na agenda e nas emoções, suas e de sua cria.
Mãe de gente ensina sem parar, aprende sem parar.
Mãe de gente testemunha acertos e erros, testemunha frustrações,  evoluções, participa. Mãe de gente se modifica, cresce, faz aniversário duas vezes por ano, três, quatro, quantas forem as crianças.
Mãe de gente passa noites em claro porque o filho está doente, porque o filho está lépido e faceiro em uma festa, porque está viajando com a escola, porque foi mal na prova, porque foi bem na prova, porque se acha bonito, feio, bonito, inteligente, tonto, inteligente, porque comeu demais, de menos, porque levou um fora ou deu.
Mãe de gente se envolve mais que mãe de bichinhos. 
E mãe de gente renuncia ao que for.
Mãe de gente, se precisar, nem precisa pedirem, dá logo a vida. 
Mãe de gente morre com a morte de um filho.
Mãe de gente renasce para honrar a memória desse filho.
Mãe de gente se torna mãe de muitas gentes.
Da própria mãe quando chega a velhice.
De si própria e dos irmãos quando não há mais uma mãe para chamar.
Mãe de gente conta os anos pra trás e pra frente, pra trás e pra frente, eternamente. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cesta do piquenique

Amizade é tesouro raro. Em meio a muitos tesouros diferentes, cada um encontra um jeito de ser raridade. Como me faz bem pensar nos amigos que encontrei/encontro pela vida! Como me faz bem saber que continuo aberto e sentindo prazer em encontrá-los. Como sou grato por cada um que tenho, por cada um que tive. Amizade, amor... para mim não passam. Transformamos a maneira de lidar com o outro, a vida vai trazendo diferentes abordagens para o mesmo tema. Uns se mantém cada vez mais próximos e sabem o que temos comido, a festa que temos ido, a doença que atrapalhou a reunião, o riso com a besteira da televisão ou o choro com o resultado de exames. Alguns não sabem de detalhes, mas entendem o conjunto da obra e se fazem presentes em pequeninas-grandes coisas. Outros não fazem mais questão de nada mesmo, mas não deixam de deixarem rastros. Olho com cuidado para cada um que me toca, afeta... sinto muito pelas vezes que não pude corresponder ao que desejaram de mim, mas busco sempre ser inteiro, verdadeiro, até mesmo nas pequenas mentiras, aquelas que se forem verdades o outro não entende, como por exemplo não querer falar ao telefone e mandar dizer que está dormindo. Eu não me importo quando me dizem que não querem falar, mas tenho amigos que se zangam, então prefiro mentir para não zangá-los. Depois, quando estou de bom humor e se ele continua querendo falar, gargalhamos juntos. Gosto quando não se ofendem com minha necessidade de ficar sozinho, quando dou aquela morrida necessária. Também compreendo, não sem tristeza, que há os que não voltam mais, os que foram. Aqueles em que se rompe a tênue linha que tecemos juntos até um certo tempo e depois se parte. Aí, chegam momentos de coração partido, doído e lembranças. Aí, chegam os amigos que continuam e te enchem de alegria porque basta tê-los para isso acontecer.


Estou em tempos de saber o que sobrou na cesta do piquenique.

foto e texto Edu O.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

"O Timbre e o Silêncio" em Crowdfunding



E finalmente o "passo de gigante" para que " O Timbre e O Silêncio" seja uma realidade muito em breve, ou não: 




através deste link de que deixo para a plataforma de crowdfunding, o apoio dos amigos, dos amigos dos amigos, de todos os que acharem por bem, este livro "vai acontecer"... porque há quem acredite desde o primeiro instante, porque há quem continua a acreditar que "a poesia é possível"! 

Tão grato por todo o apoio até agora, 
e mais que nunca, a todos os que possam apoiar e divulgar este, 

a que junto texto de apresentação de O Timbre e o Silêncio na PPL Crowdfunding: 

"Este meu primeiro livro, “O Timbre e o Silêncio”, com lançamento previsto para Abril de 2015, “acontece” com a mesma espontaneidade com que há cerca de cinco anos, iniciei a partilha dos meus textos poéticos no blog A Barca dos Amantes, lugar onde desde então publico com a regularidade possível, sendo que uma parte substancial se encontra neste primeiro volume que compreende os períodos de Outubro de 2009 a Outubro de 2010. 

Vim dizer-lhes o que sei sobre o trabalho dele, mas achei de maior valia alertá-los sobre a poesia que ele exerce. Saibam desde já que ele vem do horizonte, vestido nu, com as mãos limpas, o peito como janela, a janela em seus olhos, em pleno voo sobre o mar da palavra, tal qual desbravador de nossas emoções mais íntimas e chama-se Breve Leonardo, porém o nome não importa.”, escreve Betina Moraes no texto de contracapa do livro; e do que poderei sublinhar, do que importa, são as palavras, “reflexo”, contemplação e diálogo, o não temer “acontecer” palavra… neste caso em livro, primeiro livro, sendo que os próximos volumes muito dependerão do êxito deste “O Timbre e o Silêncio”, desse arriscar, desse acreditar que cada um de vós também escreverá nesta “luz de livro”, apoiando-o!"

Tão Imensamente Grato, a todos, a cada um de todos os "meus" que me tornaram possível chegar aqui, já tão perto...

Tão Grato!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Tisanas





75.

Era uma vez uma idade. Sentada à porta de casa apascentava os seus mortos. Quando eles se aproximavam demasiado separava-os com uma varinha. Sim porque o peso dos mortos para onde vai perguntava a idade. E nesses momentos envelhecia. Recolhia a casa e os mortos deitavam-se debaixo das árvores. Quando os ramos envelheciam os mortos perguntavam a idade para onde irá. E erguiam-se de sob as árvores.

80.

Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue.


137.


Sentado à porta de casa um filólogo meditava a evolução das palavras. Em frente havia um precipício. De tantos em tantos anos caía lá uma palavra. Então o filólogo retirava a rede e colhia a palavra caída. não sei se isso se devia à extrema dificuldade da recolha se á extrema solidão do seu trabalho.


Ana Hatherly, em  A idade da escrita e outros poemas

sábado, 5 de julho de 2014

Em memória de Ivan Junqueira (1934-2014)




 
A mão que escreve



A mão que escreve é aquela
que não pôde, inepta,
agarrar o que lhe era
devido nesta gleba:
glória, insígnias, troféus
e algo enfim que soubesse
àquilo a que, incrédulos,
chamamos vida eterna.

A mão que escreve é aquela
cujas linhas, babélicas,
descumpriram o périplo
que lhes previa a esfera
de um trismegístico Hermes,
e que, por dolo e inércia,
deixou rolar a pérola
que arrancara do pélago.

A mão que escreve é aquela
que foi, além de réproba
e amiúde analfabeta,
muitas vezes canhestra:
enfiou por ínvias vielas,
urdiu frases sem nexo,
bateu-se em tolos duelos
e excedeu-se, sem rédeas.

A mão que escreve é aquela
que compôs alguns versos,
odes, canções de gesta
e elegias sem metro,
às quais ninguém deu crédito
nem ouvidos.
 Aquela que ergueu um brinde
 aos féretros
de uma insepulta Grécia.


Antes que o sol se ponha

   
Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.



Epitáfio


    De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres:
entre uma e outra data,
a fábula de seres
nunca o tangível ,mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
— e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.

quarta-feira, 2 de julho de 2014