sexta-feira, 12 de maio de 2017

A cidade amanhece sempre igual

Um sol ou nuvens
ruídos intrusos
na marcha horizontal
dos horários e agendas.

Aqui e ali um impropério
um tropeço na calçada mal feita
um aceno
um encontro inesperado.

A cidade promete o mesmo
roteiro de um dia normal
céu nublado ou chuva forte
um frio na tarde cômoda.

Os que passam por ela
(os mesmos de ontem)
tem perguntas novas
mas talvez não queiram respostas.

A cidade é um deserto e um abrigo
uma cápsula de comprimido
um copo cheio e também vazio
alto da montanha e planalto a perder de vista
roda viva e da fortuna
e num jogo de dados
(todo dia outro alvo)
a cidade mata,
a cidade abençoa
a cidade berra
silencia, violenta, cobra caro
e faz milagres.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Volta na quadra

Na volta na quadra com meus quadrúpedes, converso com um operário da obra que começou aqui ao lado. Ele me diz que vão derrubar de vez o sobrado antigo. Pergunto sobre o número de andares do prédio. Três, talvez façam um quarto. Abro o sorrisão. O horizonte seguirá na minha janela. Sigo em frente, paro na casa da Tita, a chamo, e ela não vem. Nem sinal de novo. Faz dias que ela não vem... Ligo o botão do otimismo e digo para Bono e Fifinho que ela deve ter saído de férias. Sigo mais um pouco e vem subindo a lomba duas moças de salto agulha alto, tão alto, mas tão alto que chega a dar vertigem. Paro para observar. A única vez em que tentei calçar algo parecido, balancei para frente, para trás e quase gritei "madeiraaaa". Elas não perdem o rebolado. Conversando como se nem tivessem pés, param em frente a um carro, a motorista abre a porta, entra e senta. Eu espicho o pescoço. Ela vai trocar os sapatos por um baixinho. Vai trocar. Tem de trocar. Que nada! O carro faz ram rom ram e eu fico, na calçada, com a minha bipedice, realmente, abismada...