domingo, 9 de maio de 2010

O ELEVADOR DE DEUS (história em poucos capítulos)

Jeremias Chicuamanga, 48 anos, um metro e oitenta, cuanhama. Vocês não o devem conhecer, e eu só por acaso me cruzei com ele. Tem uma história interessante, que ouvi durante um serão, dificil de acreditar, mas vive em função dela, por isso deve ser verdade.
A infância foi passada bem no interior do território cuanhama. Os pais eram pastores de gado seu, e a sua vida passou-se entre o pastoreio e as brincadeiras próprias da idade.
Veio o tempo escolar, e os seus pais decidiram enviá-lo para a escola da missão, onde teve bom aproveitamento, pelo que continuou os estudos.
A guerra colonial, fê-lo colocar-se do lado do seu povo, e durante bastantes anos foi guerrilheiro, tendo atingido alguma notoriedade no comando de uma zona militar. Depois veio a indepêndencia, e continuou como membro do partido em Luanda.
Quando o conheci, tinha liceu completo, do tempo colonial, não é um curso qualquer de “macau”, bem instalado na vida, era executivo de um banco em Luanda, sempre vestido com fatos Armani, perfume da Boss e um relógio Camel Trophy, que comprou na última viagem aos States, apresentando como justificativo dessa despesa, um recibo de um almoço dito de representação.

Porra, já são oito horas. Tenho que me levantar. Se não estou a tempo no escritório, aqueles gajos e gajas, não fazem nada de jeito. Para onde vai este país, com estes mangonheiros, que só cumprem na base do chicote?
Depois querem, ter um nível de vida como nós. Eu não sou doutor, mas é como se fosse. Sou um quadro importante deste país, e com toda a certeza imprescindível. Nem o meu superior se atreve a criticar-me. Também tem menos estudos que eu, o que lhe vale é ser membro do comitê central do partido. Um dia faço-lhe a cama.
A minha mulher é porreira, já tem o pequeno almoço pronto. Também desde o início lhe mostrei, qual é o lugar dela, e quem manda aqui. Sou eu que ganho, ela só tem é que aproveitar o estatuto que o casamento lhe deu. É verdade que é bonita de morrer, e ainda por cima formada. Quadra bem com o meu estatuto, e posso levá-la a qualquer lado que não me envergonha. Além do mais desperta olhares cobiçosos nos dirigentes do partido, o que pode ser uma mais valia para mim. Mas se começar a questionar o lugar dela cá em casa, pode fazer-se à vida .
Oxalá o meu BMW, não falhe hoje. Também com o preço que me custou ontem a bateria é bom que não falhe.
Mutamba, aqui vou eu. Olha aquele malandro a tentar meter-se.
Aguenta aí, que eu sou um quadro importante, agora vou mudar de faixa, para aproveitar um lugar. Aquele sacana da frente está a dormir. Como é que este país pode andar para a frente, com esta malta indolente. Olha, aquele gajo quer estacionar, no único lugar vago, já o lixo. Passei-lhe à frente, o lugar é meu. O mundo tem que ser dos espertos, esta malta há-de ocupar o lugar deles. Vão para o interior, para a agricultura, que bem precisamos de comer.
Dez minutos de casa aqui, um novo record, e o elevador está por minha conta. Sou o primeiro a chegar, e hoje quem chegar atrasado, está feito comigo.
Ok. Oitavo andar.
Este elevador é lento, parece feito com os meus subalternos. Tenho que falar com os directores. Um elevador mais rápido, diminui as esperas e aumenta o tempo de produção. Quem sabe, se com todas estas ideias que tenho, não sou promovido mais depressa que os outros paspalhos que querem competir comigo. Já não era a primeira vez; cheguei onde cheguei, porque os outros não têm a capacidade que eu tenho. Dizem que fui deixando cadáveres pelo caminho, mas eu estou-me a lixar, os gajos é que não tinham pedalada. Para mandar é preciso sacrificar quem se põe à nossa frente. Qualquer dia tenho que escrever um manual de liderança.
Olha, está a acelerar, porreiro. Deve ser coisa nova. Não parou no oitavo e continua, deve estar avariado como tudo nesta terra. Também não parou no décimo quinto, que é o último e continua a acelerar. Que é que se passa? Vou furar o telhado e matar-me lá em baixo. Estes cabrões não fazem nada de jeito, nem sequer conseguem arranjar um elevador em condições, e por culpa deles Angola vai ficar mais pobre. Depois dizem que têm falta de quadros.
Já devo ter passado o telhado há muito, afinal isto não se estatelou lá em baixo mas a verdade é que não pára e cada vez acelera mais. Deixa-me abrir a porta, que tudo isto é muito estranho. Porra que só vejo céu escuro, e a terra lá muito ao longe. Que é que está a acontecer?
Já é quase uma da tarde, estou cheio de fome, e isto continua a andar. Desta vez, alguém passou dos limites, mas quando eu souber, faço-lhe a folha.
Olha, finalmente está a parar. Ok, vou já tirar isto a limpo, e o responsável está desgraçado, vai já para o olho da rua.

A porta do elevador abriu-se, e Jeremias viu-se dentro de um escritório, decorado com moveis estilo Luis XIV, uma enorme secretária ao fundo, e atrás dela recostado na cadeira e com os pés em cima do tampo, um velho com ar de hippie, óculos Ray-ban na testa, cabelos brancos compridos amarrados atrás, uma barba de vários dias, e um sorriso trocista nos lábios. No braço esquerdo, uma tatuagem dizendo: “vinde a Mim”.
- Que brincadeira... ?
- Calado, que aqui quem manda sou Eu. Então Jeremias, hoje calhou-te a ti seres testado? Os meus funcionários, ultimamente, têm-me mandado cada gajo mais esquisito, que já começo a perder a paciência, mas enfim, vou explicar-te o que tens a fazer.
- Eu, como já deves ter percebido sou uma pessoa importante, e tenho por hábito, tentar remediar o que está mal. Tu és um cancro da sociedade em que vives, não respeitas o teu semelhante, achas-te imprescindível. Nem sequer conseguiste perceber, que só atingiste a posição que ocupas, porque o teu país ficou completamente espoliado de quadros médios e superiores. Em condições normais serias um reles escriturário. Além do mais serves-te da tua posição no partido, para conseguires a tua duvidosa ascenção. Pois bem. Vais ser testado, com uma série de tarefas, e o resultado, ser-te-à comunicado no fim. Boa sorte.
- Como...?
Jeremias viu-se de novo colocado no elevador, apenas por um ligeiro sopro do velho. As portas fecharam-se, e estupefacto viu o elevador pôr-se de novo em movimento, e começar a acelerar.
Sacana do velho, pensou. Quem é que ele pensa que é? A dar ordens, parece que manda em tudo. Isto deve ser obra dos grandes do partido. Devem estar a fazer estes testes secretos, para ver quem está em condições de ser promovido. Não me vou dar por achado, e vou fazer o meu melhor. Quem sabe, por este andar ainda posso chegar a Presidente. Os gajos pensam que me enganam, mas vou fazer o jogo deles. Comigo ninguém brinca.
E esta porra que não para de acelerar. Tenho que reconhecer, que isto envolve tecnologia avançada. Os russos devem estar metidos nisto. A fome também me aperta, mas o velho nem quis saber, e agora me lembro, deu-me uma sopradela e meteu-me dentro do elevador.. Hum, aqui há mistério, e dos grandes, mas vou dar a volta a estes gajos. Não sabem com quem se meteram, e quando chegar lá, mando tudo para o olho da rua. No partido, só gajos da minha confiança.

Finalmente, o elevador parou. Abrem-se as portas e Jeremias deparou-se com um apartamento moderno, acolhedor, e para aumentar o seu espanto, tinha a recebê-lo uma mulher mais ou menos da sua idade, loura, muito bronzeada e com um corpo admirável.


GED

2 comentários:

  1. Hoje ofereci as cores da minha paleta
    A um amiga na sua dor
    Ouvi seu choro ao meu ouvido
    No fatalismo do desamor

    Hoje o sono acordou-me
    A nostalgia agitou suas asas cinzentas
    Esqueci no acordar o ultimo abraço
    E contei as nuvens que eram tantas


    Bom fim de semana


    Doce beijo

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