quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A escrevente



Sérgio Godinho - O primeiro dia - ao vivo no CCB


Sento-me, acendo a luz da secretária e viro-a para a parede. Necessito da sensação de escuro. Talvez o ambiente seja essencial, não sei... Quase como criar um espaço onde possa estar em sossego, só eu e o que estiver para vir. Geralmente não penso muito sobre o assunto. As palavras, as ideias, as imagens passeiam comigo, ou em mim enquanto vou escrevendo, como se dialogassem comigo. Tal e qual como quando vi a imagem. Foi como se me perguntassem: Porque é que escreves?



" Porque é que escrevo" (sorriu) não sei. Eis a resposta mais sincera que já dei a mim mesma. Sinceramente não sei.


A música toca baixinho, lá mais atrás, num qualquer posto regional e nem sequer consigo definir muito bem qual é a canção. Fará sentindo? Escrever sem saber porquê. Toda a gente escreve, qualquer coisa pelo menos e isso não faz dela uma escritora. Talvez uma escrevente... sim provavelmente será isso que sou, uma escrevente, dependente desta necessidade de me encontrar comigo e formar palavras que façam sentido para outros ou não... não sei sequer se me farão sentido um dia. Não gosto de me encontrar com as minhas palavras. Por isso calo muitas vezes a voz para me encontrar de novo com as mesmas ideias em silêncio. É mais fácil assim, não fazem barulho. O que no fundo é uma incongruência já que existe sempre demasiado barulho nos locais onde se sencontra a minha voz. De tantas e tantas coisas escritas que se perderam, e a que dei asas e que hoje já não são realmente minhas, é assim neste formato que elas mais me satisfazem. Porque não tenho verdadeiramente que me confrontar com o que já foi feito, se não quiser. Porque aqui tudo é de todos e não sou obrigada a reclamar algo que não sei sequer se realmente me pertence.


Renasço em cada história, em cada devaneio que me escorre dos lábios quietos, sem um único movimento ou som que não seja a bater do teclado, toma corpo algo que no momento em que é escrito deixa imediatamente de ser meu. Quase como um parto, em que a mãe se esforça para no fundo lançar ao mundo algo que a cada instante que passa se torna mais e mais distante de si, que o gerou e lhe deu vida.


Não necessito de muita coisa para escrever, mas necessito da escrita para me sentir viva, até para sentir. Como se cada palavra fosse um sopro de vida, um novo fôlego, uma nova esperança de realizar algo que não sei o que é. Mas é, ou sou. Escrevo porque me sinto viva. E vive um pouco mais de mim , longe de mim em cada coisa que escrevo. Assim tento reinventar-me todos os dias. E a cada nova história um novo eu toma forma e cor e dou um pouco de mim para cada um que se encontre nas minhas palavras...

 
Originalmente aqui

4 comentários:

  1. [...] ousar escrever é reconhecer, sem frustração, nossa incapacidade de comunicarmos certas idéias e sentimentos – e, sobretudo, perceber haja beleza nisto...

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  2. A Clarice se debatia com isso. Escrever como respirar... Digo-me escrevedora, para definir esse impulso de traduzir pensamentos em eltras.
    Beijos

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  3. Quando escrevemos temos de saber que haverá um LEQUE de interpretações. Muito inteligente esse Texto Lou, parabéns. Fico horas a procurar a palavra certa, passar o que está lá na alma, bem no fundão da mente e coração... Mas fica a expectativa! Como o Texto diz: "Porque aqui tudo é de todos e não sou obrigada a reclamar algo que não sei sequer se realmente me pertence...."
    Com carinho,
    Sílvia
    http://www.silviacostardi.com/

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  4. Eu acho que o meu resumo da ópera é escrevo porque leio. Porque gosto de escrever, mas ainda muito mais de ler.

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