quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Artista Inconfessável



Fazer o que seja é inútil.

Não fazer nada é inútil.

Mas entre fazer e não fazer

mais vale o inútil do fazer.

Mas não, fazer para esquecer

que é inútil: nunca esquecer.

Mas fazer o inútil sabendo

que ele é inútil, e bem sabendo

que é inútil e que seu sentido

não será sequer pressentido,

fazer: porque ele é mais difícil

do que não fazer, e difícil-

mente se poderá dizer

com mais desdém, ou então dizer

mais direto ao leitor Ninguém,

que o feito o foi para ninguém.



João Cabral de Melo Neto, Recife (1920-1999)

16 comentários:

  1. Reflexivo..
    Abraços!

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  2. Obrigada pela visita, "Corvo".
    Seja bem-vindo!

    Abraços!

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  3. Amei a brincadeira do J.C.Melo Neto sobre a relação poesia/niilismo.
    Ótimo post!

    Abraço!

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  4. Não fazer é fácil, fingir indiferença é fácil...difícil é se expressar...e ser compreendido.

    Adorei...

    Bjs

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  5. Parabéns pelo ótimo blog...
    Beijooo

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  6. Olá Andreia, obrigada pelo seu comentário.
    J.C. de Melo Neto, sabia brincar de uma maneira
    profundamente séria! Os grandes poetas nos fazem refletir "brincando"!

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  7. Oi Alex, como dizia Noel, esse é que é "o X do
    problema."!

    Bjs

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  8. Luíza, fico contente que tenha gostado do blog.
    Espero que volte mais vezes, será sempre bem-vinda

    Bjs

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  9. João Cabral: Parabéns! Amei...Útil, fútil, inconsútil, sutil, consútil, desútil, mutonútil
    "E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,/ eu nem olhava o relógio/ seguia sempre em frente.../ e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas." Mário Quintana
    Com carinho,
    Sílvia

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  10. Fazer o que seja inútil sabendo que assim o é, exige um desprendimento e um coração que só quem o tem, compreende.
    Adorei o poema.
    Alias, adoro O JCMN.

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  11. Pois é, Sílvia, talvez o Quintana visse "o inútil das horas" de uma forma mais "suave" que
    o João Cabral. A vida é mesmo multifacetada!!
    Como diz Helena, é preciso "um desprendimento e um coração que só quem o tem compreende". Os
    bons poetas têm essa capacidade. Os dois poetas
    sabiam o que diziam...

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  12. Excepcional. Para mim, a arte é inútil, a poesia é inútil. A palavra que não sirva para as operações de compra e venda é inútil.
    Mas o inútil é o mais nobre, porque atende a si mesmo, faz-se integralmente para nada, já que não atende a nenhuma necessidade. Ainda bem que inúteis são o artístico e o lúdico.

    Abraço.

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  13. Muito bom teu comentário, Marcantonio. Mas creio que a arte atende sim a uma nescessidade
    maior do ser humano, que não tem valor mercadológico, não tem preço. Desde o tempo das cavernas que o Homem vem produzindo Arte, não apenas para comunicar-se, mas também para
    transceder a si mesmo e à sua realidade. E ainda bem que existem o artístico e o lúdico.
    Se estiver equivocada ou não tiver entendido o
    que quiseste dizer, por favor, me explica um pouco mais. Acho importantíssimo esse tema, além de muito instigante...

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  14. Bem, Cirandeira, eu me referi à necessidade prática. A arte é uma necessidade espiritual totalmente excêntrica em relação aos valores práticos e funcionais. Não tem função, e daí a sua grandeza e seu mistério. Isso não quer dizer que ela não seja emprestada para outras funções, algumas vezes até de maneira pouco nobre.
    Eu costumo dar um exemplo justamente recorrendo à pré-história. O homem, digamos, criou uma faca com a função de cortar. Mas quando entalhou o cabo da faca foi por um impulso inexplicável, apenas para gerar beleza ou outra necessidade espiritual qualquer. Mas o entalhe em nada melhorava a função da faca. Era inútil, nobre e belamente inútil. Se você quizer saber mais sobre o que penso dessa questão, vá até o endereço abaixo e leia o texto Arte e Autonomia 2:
    http://cadernosdearte.wordpress.com/arte-e-filosofia/

    Abraço!

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  15. Cirandeira...
    adorei o poema...
    principalmente esse trecho...

    "ou então dizer...mais direto ao leitor Ninguém...que o feito o foi para ninguém."

    Beijos
    Leca

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  16. Eu também, não sendo poeta nem nada, muitas vezes tenho essa nítida sensação: faço nadas
    para ninguém...

    brigadinha, Leca.
    Um beijo

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