segunda-feira, 19 de julho de 2010

Estação de caminho de ferro de Mós do Douro - Freixo de Numão

Não sei de onde chega o comboio que sai do pôr-do-sol e abre o rio como o fecho de um vestido ainda por estrear. Não sei quem traz lá dentro e no que se afogam esses olhos. Mas sei que há o rio, e há o comboio e há verdes vinhas pelos socalcos. Sei que há um por de sol que se repete e um silvo que ecoa pelo vale às oito horas de todas as noites, que neste tempo são tardes de finais sumarentos. Sei que o esperei sem nada esperar e olhei os olhos agarrados às janelas. Mas sei mais. Sei da casa que se ajoelha perante o rio, onde já ninguém vive, mas onde ainda se espera. Dizem-nos as coisas: uma mesa posta coberta de pó, que alguém na partida se esqueceu de arrumar. Dizem. Mas eu sei mais, sem que ninguém mo diga. Sei que a mesa espera, e o pó aguarda, porque também eles sabem. Sei que um dia, o comboio há-de deixar os pés de alguém que suba as escadas e se sente. Sei que um dia, se hão-de fazer noites de amor. Sei, não me perguntem quando, nem como. Mas sei. Sei também que é preciso lá estar para se saber.

6 comentários:

  1. Muito bom, Simone. Excelente, mesmo.

    ResponderExcluir
  2. Simone lindo seu Texto. Eu sempre morei perto de linha de trem. Toda minha Infância. Por isso quando ouço um trem acho seu som agradável, e fico a imaginar que muitos podem estar indo para conhecer o novo, outros estão chegando para ousar também o novo. ainda outros para rever os seus entes queridos, seu lugar, bairro, cidade, enfim há tantos leques da imaginação ao ouvir um trem... Hoje por tre vezes seguidas ouço, mas bem lá longe. Mas não é mais Trem de passageiros. A imaginação foi-se e agora lendo seu Texto tudo vem novamente e sinto o cheirinho gostoso, saudades apertada da infância, pais, irmãos, vizinhos, gente chegando, gente indo...Me emocionei!
    Com carinho,
    Sílvia

    ResponderExcluir
  3. Pulha (que tanto me custa tratar-te assim:), obrigada.

    Sílvia, comovi-me agora eu com as suas palavras.

    ResponderExcluir
  4. Simone, esse texto seu é daqueles textos que a gente gostaria de ter escrito, de uma beleza otimista, amorosa, vitoriosa!

    ResponderExcluir
  5. Texto belíssimo! Cheio de imagens que nos transportam para bem longe e nos trazem de volta para o "agora", para um desejo de transformar o pó que restou em algo concreto.
    Essa "casa que se ajoelha perante o rio...", que imagem!, como diz Helena, é um texto que a gente gostaria de ter escrito.

    ResponderExcluir
  6. Bípede, Cirandeira
    que bom quando as nossas palavras fazem sentido também na vida dos outros.

    ResponderExcluir