Imagina a melhor coisa que já aconteceu na tua vida, a melhor fase até agora. Ou a pior. A mais dolorida. Algo forte e intenso. Ou o próprio agora, se preferires. Tu não tens vontade de escrever essa história, inclusive pelo medo de algum dia a esqueceres? Esqueceres dos detalhes, das mudanças graduais, do surgimento e da ordem dos acontecimentos? Não seria bom dares um “tempo de gaveta” à tua própria vida... Não te entusiasmas com isso? Fazeres uma releitura crítica de ti mesmo? Se este teu livro, este manuscrito, em horas boas ou ruins, pudesse dizer: ei, olha pros teus dias! Viu, isso aconteceu contigo! Nunca sentiste um apego emocional pela tua própria vida? Pelo que foste, pelo que te tornaste? Seriam como fotografias descritas. Testemunhos. A mente falha, esquece, apaga. O tempo torna menor o que era grande, e maior o que não tinha tanta importância. Quando a vida já não cabe mais em blogs, é preciso escrever um livro. Como naquele tempo dos diários. Mas com um olhar mais aguçado. E não venham me dizer que escritor de verdade não escreve diários. Todos nós os escrevemos, com mais ou com menos imparcialidade, com mais ou com menos disfarces e estratégias, mas todos querem mostrar-se através das palavras. A diferença entre ser amador ou profissional (ou bom ou ruim) está na maneira de como se faz isso. E não importa usar a primeira, a segunda ou a terceira pessoa. A alma de quem escreve está sempre lá, pairando entre os pronomes, entre os tempos verbais, nas entrelinhas.
Hoje estava ouvindo essa música do Elton John (que por sinal eu adoro) e fiquei pensando na importância deste questionamento.
Muitas pessoas buscam encontrar um amor, o amor verdadeiro, o amor eterno, o amor perfeito, o amor ideal... Enfim, buscam encontrar alguém com quem possam dividir idéias, sentimentos, experiências, as dúvidas, os medos, as necessidades sejam elas afetivas, sexuais, intelectuais e/ou financeiras.
Sabemos que amar é condição essencial ao ser humano. O ser humano precisa amar e precisa ser amado em múltiplos sentidos. O sentir-se querido, estimado, admirado pelos outros, e principalmente desejado pelo sexo oposto, revela-se como a grande mola propulsora de individuos bem resolvidos consigo mesmo e com o mundo em que vivem.
Mas na prática toda essa teoria nem sempre é tão fácil de se concretizar ou de ser assimilada. Por que? Porque muitas dessas mesmas pessoas que buscam incansavelmente encontrar o amor e o alguem que irá complementar suas vidas, não conhecem verdadeiramente a própria essência. Buscam nos outros aquilo que ainda não encontraram nelas próprias.
É comum ouvirmos alguém dizer que o par ideal precisa ser assim ou assado, precisa ter isto e aquilo, etc ... E se esqueçem que relacionamentos entre pessoas são trocas e aprendizados que resultam em um grande somatório de experiências de vida, de carinhos e sentimentos, de conhecimentos, e assim por diante.
O relacionar-se com o outro precisa ser dialético: ambos precisam dar e receber, para que a relação seja produtiva. E o que acontece muitas e muitas vezes é que aquelas pessoas que mais exigem e esperam de uma relação, normalmente são as que menos têm pra dar, pois ou estão tão cheias de si que não conseguem receber nada ou estão tão vazias que são incapazes de oferecer algo ao outro. Estipulam padrões e normas muitas vezes inatingíveis e acabam se frustrando por nunca conseguirem viver as situações idealizadas. Uma vez que o par perfeito definitivamente não existe.
Vejo tantas pessoas sozinhas, outras decepcionadas com os relacionamentos e outras ainda com situações mal resolvidas e me pergunto o por que disto? Identifico aqui e ali os possíveis fatos que promovem tais situações e chego a conclusão de que a grande verdade desta história toda é que nem todos estão prontos para o amor.
Poema sem margens Transbordando alucinações Pirilampos indecisos Boiando na noite Silêncio das pedras ainda quentes Vapores, flutuando madrugadas. Lágrimas de chuva Na pele nua Olhos azuis brilhando desejos Em cada estrela do céu Ritmo frenético do louvadeus Sismando passos firmes Encharco-me de tardes Malmequeres só de bem querer Rios deslizando bagres De cor púrpura Virgens parindo ternuras Pairam no ar borboletas azuis Chão estremecido de calores Loucos cultivando sonhos Olhares distantes da demência Raios de luar Cravados no chão adiante Crianças felizes abraçando confortos Sem margens
De que tamanho são as estrelas Que flutuam no azul profundo? Muitas, a maior parte, são pequeninas Retenho-as no concavo da mão Outras, poucas, são imensas Apenas me cabem na alma Memórias de ternura e acalanto Acompanham o meu caminho Algumas não as vejo para lá do horizonte Estão lá, pressinto-as Brilhando em céus antigos Ensaiando rumos meridiões Aquecem-me o coração, aceleram o meu pulsar Todas, todas, me cabem na íris O tamanho varia cá dentro.
Ao singrar os mares, Portugal espalhou pelo Globo a sua língua, a nossa língua portuguesa. Pois muito que bem, está mais do que na hora de reunirmo-nos todos, os dantes espalhados, sob o mesmo teto. O Mínimo Ajuste está ai para o que der e vier e esta parece ser uma causa nobre merecedora da existência deste Blog. Precisamos de gente que nos fale de Goa (Índia), que nos fale de Dili (Timor Leste). Precisamos de mais representantes africanos, acreanos e também de Macau. Precisamos unir o Globo português no Mínimo Ajuste. Aonde houver um gajo, uma figura, um cara, que estejamos todos nós: Mãos à obra!!
Foto: Olhares
PS: nossa querida amiga Bípede fez uma sugestão (que poderá ser conferida por todos nos comentários) de que cada um dos colaboradores do Blog informe sua data de aniversário e a cidade em que reside. Assim, além de podermos fazer um belo mapa com aqueles alfinetinhos coloridos para vermos aonde estamos, vamos também poder dar os parabéns a cada aniversariante. Afinal, como disse Bípede, é maravilhosos celebrar a vida. Já que somos uma comunidade e que pretende crescer e mapear o mundo, também podemos ser cordatos e amigos celebrando uns aos outros.
Eu apoio, Bípede apoia, Alma apoia. Mãos à obra!!! Façamos a lista!
Waldo Jeffers alcançara seu limite. Era meio de agosto, o que significa que ele estava separado de Marsha por mais de dois meses. Dois meses, e tudo o que ele tinha pra mostrar eram três cartas com orelhas e duas ligações de longa distância extremamente caras.
Verdade, quando ela terminou o colegial e voltou para Wisconsin, e ele pra Locust, Pennsylvania, ela teve que jurar que manteria uma fidelidade incorruptível. Ela marcará encontros ocasionais, mas só por mera distração. Ela permanecerá fiel.
Mas, ultimamente, Waldo começou a se preocupar. Teve problemas para dormir à noite e quando conseguiu, teve sonhos horríveis. Ele fica acordado na cama à noite rodando e virando embaixo de sua colcha-protetora dobrada, lágrimas jorrando em seus olhos conforme ele imaginava Marsha, seu juramento entregue à bebida e ao afago tranqüilizador de algum retardado, finalmente submetendo-se aos carinhos finais de um sexo entorpecedor. Era mais do que a mente humana poderia suportar.
Visões da traição de Marsha assombrando-o. Fantasiando nas horas do dia, o abandono sexual permeando seus pensamentos. Não entenderiam como ela realmente é. Ele, Waldo, entendia isso sozinho. Ele intuitivamente captava cada canto e fenda de sua psique. Ele a fez sorrir. Ela precisava dele, e ele não estava lá (Ahwww...).
A idéia veio-lhe na quinta-feira antes do Desfile de Máscaras ser agendado para acontecer. Ele tinha acabado de aparar a grama dos Edelsons por um dólar e cinqüênta e tinha verificado a caixa postal para ver se havia ao menos uma palavra de Marsha. Não havia nada a não ser uma carta-circular da Companhia de Alumínio Fundido Da América inquirindo a respeito de suas causas. Ao menos importaram-se o bastante para escrever.
Era uma Companhia de Nova York. Pode-se chegar à qualquer lugar por correspondência. Então isso o fez perceber. Ele não tinha dinheiro suficiente para ir a Wisconsin numa roupa aceitável, é verdade, mas porque não enviar-se pelo correio? Seria incrivelmente simples. Se enviaria num embrulho pelo correio, entrega especial.
No dia seguinte Waldo foi ao supermercado para comprar o equipamento necessário. Comprou fita adesiva, uma pistola de grampo e uma caixa-cartão de tamanho médio apropriado para uma pessoa de seu porte. Ele descobriu que com o mínimo de bagagem poderia viajar perfeitamente confortável. Algumas aberturas, um pouco de água, talvez algum aperitivo pra de noite, e seria, provavelmente, tão bom quanto um passeio de turista.
Sexta-feira pela tarde, Waldo estava pronto. Estava perfeitamente empacotado e o carteiro concordou em apanhá-lo às três horas. Ele marcou o pacote como "Frágil" e enquanto ele estava lá dentro sentado enroscado descansando no forro de espuma de borracha, ele tinha tudo bem planejado, tentou visualizar o olhar espantado e feliz no rosto de Marsha quando ela abrise a porta, e visse o pacote, daria gorjeta ao entregador e então abriria e finalmente veria Waldo em pessoa. Ela o beijaria e então talvez eles pudessem assistir um filme. Se ele tivese pensado nisso antes. De repente mãos brutas seguraram seu pacote e ele sentiu ser carregado pra cima. Desembarcou com uma pancada num caminhão e foi.
Marsha Bronson tinha acabado de arrumar o cabelo. O final de semana tinha sido muito difícil. Ela teve que se lembrar pra não beber daquele jeito. Bill tinha sido gentil de qualquer forma. Depois que terminou ele teve que dizer que ainda a respeitava e, depois de tudo, era certamente a maneira natural, e mesmo assim, não, ele não a amava, sentiu uma afeição por ela. E depois, eles eram adultos crescidos. Ah, o que Bill poderia ensinar à Waldo - mas isso parecia muitos anos atrás.
Sheila Klein, sua melhor, melhor amiga, andou através da porta de tela da varanda e foi pra cozinha. _"Meu Deus, lá fora está incrivelmente sentimental." _"Sei o que quer dizer, me sinto repulsiva!" Marsha apertou o cinto em seu robe de algodão com a borda exterior de seda. Sheila ficcionou o dedo sobre alguns grãos de sal na mesa da cozinha, lambeu o dedo e fez uma careta. _"Creio que eu deveria pegar esses grãos de sal mas," ela enrrugou o nariz, "Eles me dão a sensação de um arremesso pra cima." Marsha começou a dar tapinhas embaixo do queixo, uma prática que ela viu na televisão. _"Deus, nem fale nisso." Ela se levantou da mesa e foi até a pia onde pegou um frasco de vitaminas rosa e azul. _"Quer um? Era pra ser melhor que bife," Então tentou tocar seus joelhos. _"Acho que eu nunca mais vou tocar num daiquiri outra vez"
Ela levantou e sentou, dessa vez mais próxima da pequena mesa onde estava o telefone. _"Talvez Bill ligue," ela disse para o olhar que Sheila deu. Sheila mordiscou uma cutícula. _"Depois da noite passada, eu pensei que talvez você seria sincera com ele." _"Sei o que quer dizer. Meu Deus, ele parecia um polvo. Mãos por toda parte." Ela gesticulou, levantando os braços para cima em defesa. _"A coisa é que, depois de um tempo, você se cansa de lutar com ele, entende, e depois de tudo, eu realmente não fiz nada sexta e sábado, então eu meio que devia isso à ele. Você sabe o que quero dizer.." Ela começou a se coçar. Sheila estava rindo com a mão tampando a boca. _"Vou te dizer, eu senti a mesma coisa e mesmo depois de um tempo.." Aqui ela se curvou num sussuro, _"Eu queria isso!" Agora ela estava rindo bem alto.
Foi aí que o Sr. Jameson do Escritório Postal de Clarence Darrow tocou a campainha da ampla casa estruturada em estuque colorido. Quando Marsha Bronson abriu a porta ele a ajudou a carregar o pacote para dentro. Ele tinha esse papel-cupom amarelo e outro verde assinado e saiu com quinze centavos de gorjeta que Marsha havia conseguido na pequena carteira bege de sua mãe que estava num esconderijo. _"O que você acha que é?" perguntou Sheila. Marsha ficou de pé com os braços cruzados atrás das costas. Olhou fixamente para o cartão marrom que estava no meio do quarto. _"Eu não sei."
Dentro do pacote, Waldo virava de exitação em ouvir as vozes abafadas. Sheila arranhou sua unha na fita adesiva que percorreu até o centro da caixa. _"Porque você não olha o endereço do destinatário e vê de quem é?" Waldo sentiu seu coração batendo. Ele podia sentir a vibração dos passos. Seria em breve.
Marsha andou em volta da caixa e leu a etiqueta com a tinta borrada. _"Ah Deus, é de Waldo!" _"Que babaca!" disse Sheila. Waldo tremia com a expectativa. _"Bem, talvez você deva abrir," disse Sheila. Ambas tentaram erguer a aba do grampo. _"Ah merda," disse Marsha, grunhindo, _"Ele deve ter lacrado com pregos." Elas puxaram o grampo de novo. _"Meu Deus, precisa de uma broca pra abrir essa coisa!" Elas puxaram de novo. _"Não se pode apertar tanto." As duas continuaram de pé, respirando pesadamente.
_"Porque você não pega uma tesoura?" disse Sheila. Marsha correu pra cozinha, mas tudo o que conseguiu encontar foi uma pequena tesoura de costura. Então se lembrou que seu pai mantinha uma coleção de ferramentas no porão. Ela correu escada abaixo, e quando voltou carregava um enorme cortador com lâmina de metal na mão. _"Isso foi o melhor que eu consegui encontrar." Estava bastante ofegante. _"Aqui, você corta. Eu vou morrer" Ela afundou num grande sofá macio e expirou ruidosamente. Sheila tentou fazer uma brecha entre a fita adesiva e a extremidade do grampo do cartão, mas a lâmina era muito grande e não havia espaço suficiente no quarto. _"Deus amaldiçoou essa coisa!" ela disse sentindo-de bastante irritada. Depois sorrindo: _"Tive uma idéia." _"O que?" disse Marsha. _"Apenas olhe," disse Sheila, tocando seu dedo em sua cabeça.
Dentro do pacote, Waldo estava tão transtornado com a excitação que mal conseguia respirar. Sua pele pinicava com o calor, e ele podia sentir seu coração batendo na garganta. Seria em breve. Sheila manteve-se completamente reta e deu a volta até o outro lado do pacote. Então dobrou os joelhos para baixo, agarrou o cortador por ambos os punhos, respirou profundamente, e mergulhou a longa lâmina através do meio do pacote, através da fita adesiva, através do cartão, através do forro e (thud!) bem no meio da cabeça de Waldo Jeffers, que rompeu rapidamente causando pequenos arcos harmoniosos em vermelho a pulsar gentilmente no sol da manhã.
O que é a chuva para ti? O que ela te diz? O que te traz ou aonde te leva? Agora, aqui chove. Adoro chuva. De todos os tipos, da mais suave ao pior temporal. Chuva sempre me faz bem. Quando estou triste, é meu espelho. E quando estou feliz, como hoje, é um aviso. De que nada deixa de existir, que tudo divide o mesmo espaço dentro de nós. Mesmo quando feliz, a tristeza e o sofrimento estão dentro de mim. São meus e os aceito. Porque sentir é viver, e ignorar não nos faz mais livres. A tristeza é o aviso de que tudo muda, de que tudo passa, de que nenhum dia é igual ao outro. Então, aproveitemos cada segundo dessa eterna metamorfose que é a vida, com tudo o que ela tem para nos mostrar. E que venha a chuva, lavar nossas existências empoeiradas.
Capitão Nemo,
das minhas próprias loucuras,
não temo,
profundezas ou agruras.
Sigo as metas,
setas dos meus caminhos sem fissuras,
mata-burros ou censuras.
Minha fachada brilha sorrisos
e minhas janelas classificam indecisos
em pilhas, montes imprecisos,
no lombo da tormenta... noite e dia
diviso o sol na tempestade,
meu liquidifica-horror, minha poesia,
nossa Majestade.
Comemorou seus quarenta anos almoçando com os colegas de trabalho, alheio às brincadeiras e às conversas inflamadas, cabeça longe, absorto em lembranças do último encontro com a morena de olhos de jaboticaba.
De volta ao escritório recebeu das mãos da recepcionista o presente que deixaram para ele ("foi uma mulher bonita, senhor, disse a moça. não quis deixar o nome...") Em seu gabinete desfez o elegante embrulho. Era a coletânea de crônicas "O óbvio ululante", de Nélson Rodrigues - autor que ele adorava. Na segunda página, leu a dedicatória feita em letra bem talhada:
"Sabe qual é o óbvio?
É que eu sou sua amiga de e para sempre.
Beijos"
Ali estava tudo.
Fechou o livro, colocou-o em cima da mesa e, através do painel envidraçado do 29º andar, fitou com o olhar perdido a paisagem urbana: inútil e sem significado.
Hoje, mais um começo. Aqui, no Mínimo Ajuste. É uma grande honra poder contribuir com um blog que imita nossa própria existência: pessoas, sentimentos e palavras entrelaçadas. Caminhos que se cruzam. Trocas. Olhares. Percepções diferentes que, convergindo ou divergindo, voltam-se para o mesmo objeto: a vida nossa de cada dia. Adoro começos! Nada faz eu me sentir mais viva do que eles. E já nem uso mais o termo recomeço. Tornar a começar é começar de novo, do zero. Mudanças, para que nos façam crescer, devem desapegar-se do que passou. A vida é um eterno começar, de seu primeiro ao seu último dia. E sempre valerá a pena. Obrigada por permitirem, hoje, mais este passo inicial.
Depois de ultrapassar a escuridão E de cruzar o grande oceano Lá, onde a longa onda se quebra na praia E onde o sol amanhece as planícies douradas Aí fica o lugar a que posso chamar casa.
Dentro da minha cabeça Tenho uma caixa de lápis de cor Com que pinto os sonhos. Neste Pego no lápis castanho escuro E pinto duas muanhas altivas Que passavam perto de mim. Dou-lhes mais um pequeno toque Para que se veja o andar Que só as gentes do sul têm E que nós tão bem conhecemos E para podermos ouvir Os chocalhos amarrados na canela. Peguei nos verdes, ah os verdes E tive que usar todos os tons Para pintar as matas densas Passei levemente por cima O lápis cinzento Como esquecer-me dos cacimbos Que tantas vezes me arrepiaram a pele? Lá ao longe dois morros de basalto Cortam o horizonte da savana Pinto-os com o lápis preto. Com o lápis amarelo dourado Pinto a imensa anhara Onde tantas vezes me perdi E me encontrei. No meu sonho tinha chovido Uma chuva bravia, poderosa Desenhando alinhavos no pano da tarde E cheirava intensamente Aquele cheiro da terra depois da chuva Não o pintei, não consegui Afinal De que cor se pinta o cio da terra? Com o lápis vermelho Pintei o sol enorme de fim de tarde E vi no mar Aquele imenso rasto de sangue Por fim, com o lápis azul Sempre o lápis azul Coloquei no canto direito A minha assinatura Esperando, ansiando Que gostem deste sonho. Não o vendo, apenas o ofereço Afinal, Que preço pode ter um país?