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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

IDAS E VINDAS

Eu deveria ter deixado você ir embora. Deve mesmo ser amor. Porque impedi. Porque imaginei que, no fundo, você queria ficar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

FERIMENTOS

Ah, você já foi ferido. Eu também. Que bom, não é mesmo? Uma vida inteira e sair ileso? Não quero. Dor passa, e daí se ela virar cicatriz? Cicatrizes não doem, quem sabe vez ou outra, quando o tempo estiver úmido. E daí se a dor não ensinar nada? Vivemos para continuar errando, inclusive. Viva a liberdade de fazer tudo errado. Por opção, e não por desconhecimento. Crescer é conhecer, nunca foi sinônimo de entender. Eu ainda não entendo uma porção de coisas, sabe? E também não fico tentando prever reações e acontecimentos. Regras limitam muito. Prefiro não acreditar nelas. Que venha a dor, que doa quando - e enquanto - tiver que doer. Aflição é esperar por algo que pode nem acontecer. Ah, você já foi ferido. Eu também, querido. E não sinto pena de nós dois. Nem raiva de quem nos feriu. A quantos ferimos também? Quem está na vida é pra se ferir, inclusive. Você quer a notícia boa? Não é porque alguém te machucou que todos vão te machucar. A ruim? Podem fazer pior do que isso. Podem tentar te matar. Podem conseguir. E você pode escolher. Se quer continuar acreditando nas pessoas e sorrindo para as antigas cicatrizes das decepções, ou se quer se proteger da dor em troca de uma pele intacta.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

OLHOS DE QUEM NUNCA VIU

Não sou mais criança. Ainda sou uma criança. Já vi muito. Não vi nada ainda. Acredite em mim, embora eu mesma duvide, às vezes. Eu ainda preciso de abraços, chances e olhares de aprovação. Um "não foi nada" de vez em quando. Uma bronca. Estou aprendendo. Não. Ainda cometo os mesmos erros. Mas me perdoo todo dia, sabe? O que muda quando a gente cresce? Espero que pouco. Espero que quase nada. Posso te fazer um pedido? Não endureça seu coração, não deixe de lado esse olhar curioso, essa coragem, essa vontade. Não esqueça daquilo que você queria ser quando crescesse. Não se perca de você mesmo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ERA UMA VEZ UMA ESCOLHA


Era uma vez uma jovem cheia de vida. Leve, feliz. Apreciava a liberdade. Pensava no dia de hoje. Era uma apaixonada. Por pessoas, lugares, momentos. Ela era a primavera, era o sol, era um pássaro. O tipo de pessoa que todos gostavam de ter por perto. Era agradável, e se importava verdadeiramente com os outros. Via-se muito pouca tristeza em seu olhar. Um dia encontraram-se, eram opostos. Apaixonaram-se. Os anos passaram, e as diferenças foram perdendo o encanto. Tanta segurança a sufocou. Aquele ar sério, antes charmoso, passou a irritá-la. Seu olhar, que antes era protetor, agora a condenava. Ainda o amava, mas o deixou porque sentia que a vida estava acontecendo longe dali. Ele, centrado, fez questão de esquecer as mágoas, de reconstruir sua vida da forma mais normal possível. E mais uma vez o tempo passou. E ela viu-se sozinha, porque perdida por vontade própria em seus sonhos, esqueceu de construir. Não tinha ninguém para compartilhar sua história, pois sua trajetória até agora fora feita de começos, e finais dispersos. Sentiu medo. E lembrou-se do amor que teve. Que teria até hoje se tivesse aprendido a voar, e voltar. Somente agora ela conseguia perceber que não vivera aqueles anos em uma gaiola, mas em um ninho. Mas era tarde, muito tarde. E sabe, amor inacabado, com final apenas pressuposto, dura muito tempo. Às vezes uma vida inteira. Aquela sua escolha de anos atrás, na época um grito de liberdade, passou a ser a culpada por todo o vazio que agora experimentava. A impossibilidade de ter novamente o amor daquele homem imperfeito e que tinha os pés tão no chão a paralisou. Ela já não existia mais. Ela era apenas uma lembrança do que havia sido naqueles anos. Uma lembrança, tão remota e esmaecida, quando posta ao lado do arrependimento que sentia. Era uma vez uma senhora no fim da vida. Que tinha sido feliz apenas uma vez. A liberdade agora era inútil. Pensava demais no passado. A paixão exauriu-se de sua alma. Ela era o outono, era o sol fraco de um dia frio, era um pássaro que não mais cantava, e voava somente ao redor de um lugar conhecido. Naquele dia, viu-se muito pouca tristeza em seu olhar. Viu-se apenas um bilhete “Eu sempre vou te amar.” Banhado em sangue.

sábado, 11 de setembro de 2010

EFEITO DOMINÓ


E se Maria tivesse desistido de ir naquela reunião dançante em 1968, hoje eu não estaria aqui.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O QUE QUERO DE VOCÊ

Quero você inteiro. Nem que você esteja em pedaços. Dê-me eles. Dê-me tudo. Nem que seja nada.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PROMESSA


Tudo o que ela mais acreditou foi dito por seus olhos, através de mensagens mudas que lhe prometeram, sem saber, o que ela mais desejava. Quem ama não precisa de palavras para se iludir. Amar já é esperar. Amar já é prometer.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DIÁLOGO

- Eu te amo.
- Você sabe o que isso significa?
- Sim. Que eu te amo. Você é a minha vida.
- Cuidado. Não invista tudo em uma só pessoa.
- Agora é tarde. Não sei como não fazer isso.
- As coisas mudam.
- Para melhor. Só depende de nós dois.
- E você acha fácil?
- Podemos tentar. Eu quero ser feliz contigo.
- É. Acho que eu também quero.
- Eu quero acordar contigo todos os dias.
- Ai.
- O que foi?
- Falando assim, até parece bom.
- Não é bom. É perfeito. Qual o problema, então?
- Te amo tanto que chega a doer. E tenho medo da dor.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O QUE MUDA, O QUE FICA


E depois do vendaval, ela olhou ao redor e gostou do que viu. Havia uma certa paz naquele caos instaurado. Experimentou, além da paz, liberdade. Tudo havia mudado de lugar. Algumas coisas, ela deixou no local onde o vento as pôs. Outras, pouco a pouco, voltariam aos seus antigos lugares. Para que os próximos ventos tivessem novamente o que desordenar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

EM SILÊNCIO


Por que não tenho vindo aqui? Porque escrever é confissão. E meus pecados têm sido tantos que não sei por onde começar.

Leia também O Passar dos Dias

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ENTORPECENTE


O que seria de mim e de ti, se não tivéssemos o ópio das palavras? Nossa companhia nos dias comuns, nas noites vazias, na vida de escassos sonhos? O que seria de mim, se não estivesse aqui, nessa agonia silenciosa, bradada nesse teclar cadenciado, exaurindo minha dor nessas linhas perdidas? Me esvazio em vãs palavras, pois lágrimas não existem mais. E agora, em uma única vez, meus olhos secos releem essas linhas mortas, que mostram a ti o que nem eu saberia dizer.

Leia também... O Passar dos Dias

domingo, 8 de agosto de 2010

SEM CONSEGUIR RESPIRAR


Já entendi que essas minhas palavras engasgadas precisam de medo que as expulse e de uma ansiedade que já não cabe no peito e de uma espera que torna os minutos séculos. O que me faz derramar as palavras no papel sem poder nem respirar é essa agonia causada por um amor que nunca existiu em minha vida e agora existe e agora me mostra que era tudo verdade as bobagens românticas que eu lia e duvidava que existisse um sentimento que só fizesse bem e mostrasse o melhor da gente e fizesse com que a gente quisesse ter o poder de fazer nascer asas no lugar dos braços para poder voar somente para ver um rosto sorrindo ou chorando. Que o amor é desejar sofrer e poupar do sofrimento uma pessoa que não entendemos porque amamos tanto e que não temos a mínima vontade de entender. Porque a vida era outra vida quando essa pessoa não existia. E agora tudo dói de humana que sou de longe que estou de medo que tenho de não ver teus olhos. De medo de nunca poder dizer que te amo olhando no fundo desses teus olhos que são a centelha que ateia fogo nas lenhas secas da minha vida.

Texto já publicado em O Passar dos Dias

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Se você perguntar, eu digo...















- O que houve?
- Comigo nada. Por quê?
- Você está estranha.
- Impressão.
- Não éramos amigas?
- Nunca fomos. A diferença é que agora não preciso mais fingir que te tolero.

sábado, 31 de julho de 2010

POESIA JAZIDA


E na lápide: "Cansou de tanto pensar." Incrivelmente exausto por ter passado a vida inteira analisando, questionando, enxergando, desvendando, reinventando. E sem nunca ter conseguido esgotar-se. Um anormal que pensava ser normal demais. Alguém que não aceitava somente sim ou não, que chegava a irritar-se com um talvez. Ele já não cabia mais dentro de si, porque à medida que os anos passavam, tornava-se mais ilimitado, dentro de uma cápsula protetora de limites definidos. Só agora percebe que nasceu inspirando a poesia do mundo, e seu primeiro choro foi seu primeiro verso. As brincadeiras da infância eram poesia. Seus desenhos e seus sonhos eram poesia. Só não era poesia a sua percepção do tempo. Mas agora é. Alegra-se com sua própria imprevisibilidade, qualidade sua, mas não tolera a imprevisibilidade daquilo que escorre de suas mãos, sendo que disto, vez ou outra, não consegue fazer poesia. Sabe que tem coisas que não cabem em seus poemas. Sabe que nem tudo pode ser traduzido em palavras. E esse ínfimo perdido em seus pensamentos é sua tristeza - que ele transforma em revolta, porque diz-se ser nem alegre nem triste. Esta é sua própria porção inatingível e inexplicável. Vivendo, ele passeia no comum e vê o que poucos veem: a beleza do horror e a tristeza da perfeição. Sabe que começou a vida sozinho e a terminará da mesma forma. Mas isto não lhe causa medo: ele tem a poesia, e ela é a sua redenção. A melhor companhia. A eterna companheira. A única coisa certa. Inexata, incontrolável, mas criação sua. A continuação. E na lápide, melhor dizendo: "Cansou de tanto pensar, desistiu de fazer caber no mundo sua poesia." Aqui jaz, poeta.

(Texto já publicado em O Passar dos Dias)

PARECE SIMPLES


Se sentires muito medo, ou uma coragem estranha, me chama. Se deixares, posso tentar te salvar até dos perigos reais. Sou boa nisso, eu mesma vivo me resgatando. Eu te encontro, e te levo para qualquer lugar: vamos fugir. Te faço rir. A gente se abraça. E a vida, simples assim, vai parecer boa, e tu vais parecer leve. Vai dar até para enxergar um futuro. E nos sentiremos quase felizes, eu com minha solidão sem remédio, e tu com esse teu querer intransitivo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

(...)


Outra noite. Dele, restou apenas o perfume nos lençóis. Ela fecha os olhos e repousa em imagens e sentimentos inexatos. Então vem aquele rosto cujos traços ela ainda não decorou. Preciso, apenas o azul esverdeado daquele olhar em que deixou-se perder. E conhecida, somente a pele decifrada até na mais profunda escuridão. Existia algo além do sentir? Além do agora? Seus lábios febris e inquietos foram calados antes mesmo da primeira palavra. E mesmo depois, úmidos e libertos, seguiram em permissivo silêncio sussurrado.

sábado, 24 de julho de 2010

OS DIAS


Talvez bastasse para ele acender um cigarro para lhe fazer companhia e pensar sobre a sua vida de forma simples. Como se ele não fosse tão só, tão triste, tão fechado. Talvez ele não fume. Talvez hoje ele prefira não pensar. Talvez ele prefira continuar achando que é melhor ser assim, um solitário. Que pessoas vêm e vão, e que isso sempre vai doer. E que ele vai continuar escolhendo a sua própria dor - quase dissimulada - que de certa forma o protege e não o expõe. Talvez ele acredite mesmo que a tristeza é mais segura do que a felicidade. Mas talvez um dia, bem distante de hoje, ele entenda que viver assim só faz a vida correr, deixando dia após dia, um vazio ainda maior.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

1000º POST

Parabéns a todos nós, que andamos juntos. Que trazemos para cá sentimentos, palavras, imagens, experiências. Viemos de tantos lugares, somos tão diferentes, e ao mesmo tempo, tão iguais. Na ânsia de captar momentos e transformá-los em prosa e poesia. De viver nossos dias na tentativa de nos ajustarmos, à vida, uns aos outros, a nós mesmos. É ótimo fazer parte deste Mínimo Ajuste.

terça-feira, 20 de julho de 2010

DIA DO AMIGO



Te dou meu silêncio, e te dou minhas palavras. Te dou muito menos do que gostaria e teria para dar, mas estou contigo porque te entendo. Através de tuas linhas, conheço tua alma. Leio nelas o que tu és e aquilo que gostarias de ser. Tua força e tuas fraquezas. O amor que celebras e a dor que te invade. Teus dias, tuas noites, teus sorrisos, tuas esperanças, tuas lágrimas. Chego a te amar, sabe? Mesmo sem nunca ter te visto. Tu, meu amigo, que agora pousa esses teus olhos tão sensíveis nessas minhas linhas tão singelas. Obrigada. Por embelezar meus dias, por trazer cores e significados às minhas horas. Obrigada por tua presença tão intensa por trás desta tela tão fria.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A DESELEGÂNCIA DO INVERNO


Moro em um apartamento. Tenho chuveiro quente e roupas de inverno. Tenho comida em casa. Uma estufa a gás, tapetes, muitas cobertas na cama. Mesmo assim, essa noite custei a dormir por causa do frio. Sair da cama agora foi igualmente difícil, pois mesmo dentro de casa, é muito frio. Acordei reclamando do inverno e liguei a televisão. Uma pessoa encontrada morta dentro de sua casa. Provavelmente entrou em hipotermia. O cubículo não tinha portas e janelas, faltava parte do telhado. Na cama, somente um estrado de madeira. Ele não tinha o que comer. Uma chaleira velha sobre um extinto fogo de chão. Vendo aquilo, senti vergonha de mim mesma. Por não conhecer nada da vida. Por estar aqui fechadinha nesse meu mundo morno.