segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Poema





I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta

e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme


II

Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
intensa

de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira

ou apodrece o poema
ou se alteia

ou se despedaça
a mão ateia

ou cinco seis astros
se percorre

antes que o deserto
mate a fome


Luíza Neto Jorge, Lisboa, 1939-1989.

10 comentários:

  1. Respostas
    1. Grata pela visita, Milton e volte sempre!

      um abraço

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  2. um dedo
    agudíssimo claro
    apontado ao coração do homem...

    É o que é, de fato. E é esse um poema e tanto!
    Beijos,

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    Respostas
    1. Ela tem poemas fortíssimos, sensualíssimos
      e "mete o dedo" lá no fundo, Tânia :)

      beijos

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  3. Ci, criatura de alma afiada e afinada é você, talento e doçura ambulante entre posts e comentários, criatura tão rara e única.
    beijossssssssssssssss

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  4. Magnífico, minha querida Cirandeira!
    Direto no alvo: a alma...
    Beijos, querida

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  5. Zélia, obrigada pelo carinho, és sempre tão amável!!!

    beijosss

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  6. Estás querendo encabular-me, Lê? Sou tão comum que fiquei vermelha e cheia de dedos :)

    beijossssssss

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