sexta-feira, 30 de março de 2012

Viagem até a Noite





Como uma mãe sustentada por galhos fluviais
de espanto e de luz de origem
Como um cavalo esquelético,
radiante de luz crepuscular
Atrás a ramagem densa de árvores
e árvores de angústia
Cheio de sol o caminho de estrelas marinhas
o estoque fulgurante de dados perdidos
na noite cabal do passado
Como um ofegar eterno se sai à noite
Ao vento tranquilo passam os javalis,
as hienas fartas de rapina
Rompido ao largo o espetáculo mostra
faces sangrentas de eclipse lunar
O corpo em labareda oscila pelo tempo
sem espaço cambiante pois o eterno
é o imóvel e todas as pedras arrojadas
ao vendaval aos quatro pontos cardeais
voltam como pássaros solitários
devorando lagoas de anos derruídos
Insondáveis teias de aranha de tempo
caído e lenhoso
Vacuidades enferrujadas no silêncio piramidal
Morticínio pestanejante esplendor
para dizer-me que ainda vivo
respondendo por cada poro de meu corpo
ao poderio de teu nome, oh poesia !

César Moro, pseudônimo de Alfredo Quispez Asin, poeta e pintor peruano, nascido em Lima. Participou ao lado de André Breton do movimento surrealista em Paris e é considerado um dos principais representantes do surrealismo hispano-americano (1903-1956)

3 comentários:

  1. Cirandeira,


    Esse cara é um pintor. A trasnpôs sua paleta [palheta, tanto faz] de cores para o texto. Na verdade, quando o cara empresta ferrugem ao vácuo e geometriza o silêncio qual pirâmide, não há como "fazer resenha" a respeito. É contemplar, e ponto.






    Um beijo, amiga.

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    1. É verdade, Marcelo.
      Contemplemos, então!

      beijo

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