quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Uma palavra


 
 
Há uma palavra que pulsa nas omoplatas,
catedral, aqueduto, estrela,
ou um diadema branco, um vaso de sombra.
Há uma cabeça (eu sei) há uma cabeça
 delicada e vulnerável sobre um céu deserto.
E outras palavras ardem como vísceras verdes
ou vitrais perfeitos. A língua sabe as águas
inúmeras, as forças da sombra, o extremo olvido.
Onde a saciedade? Onde a água na água?
Vejo o verde translúcido das árvores, vejo os arroios
que percorrem as terras ásperas e nuas, vejo a boca
da chuva sobre recintos azuis.
Como extenuados cavalos os versos estacam
e a fênix de sílex tresmalha-se nos redemoínhos de sangue.
 
Antonio Ramos Rosa, em Animal olhar


6 comentários:

  1. esse cara é uma das mais deliciosas descobertas da palavra portuguesa.

    antónio ramos rosa foi escolhido, cirandeira.

    sou fã. mil vezes fã.

    abração do
    r.

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  2. "o poema não é feito de palavras mas de uma pulsação que as subverte e consagra".
    Extraído do livro Duas águas, um rio, p. 91 (A palavra caminha para o silêncio).
    Trata-se de um livro escrito a quatro mãos, ou seja, por Antonio Ramos Rosa e Casimiro de Brito. Publicações Dom Quixote, 1989.
    "Durante um ano, Ramos Rosa e Brito, entreteceram, poema a poema um diálogo fecundo e original". Vale a pena conferir.
    Também sou leitor de Ramos Rosa. E do Casimiro de Brito, que esteve algumas vezes em Salvador. Mantinha laços estreitos com o saudoso Ildásio Tavares.

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    1. Ainda não conheço, José Carlos, mas vou procurar por aqui.
      Obrigadíssima pela dica :)

      beijos

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  3. Ci,
    Um poeminha (modo de dizer) de Ramos Rosa.

    ONDE OS DEUSES SE ENCONTRAM

    Não busque não esperes

    Como procurar a nudez do simples?
    Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado

    O círculo dilata-se e dilata-nos
    O lugar revela-se no esplendor da luz

    O mar levanta as suas lâmpadas brancas

    Diz de novo a fascinante simplicidade

    Diz agora as minúcias
    deslumbrantes
    arcos na areia insectos frutos

    Tanta luz tanta sombra iluminada!

    In: ROSA, Antonio Ramos. Gravitações. Lisboa: Litexa Portugal, 1983.

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    1. Esse Rosa é de uma "simplicidade", que ofusca!!!

      beijos

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