sexta-feira, 23 de julho de 2010

Definições definitivas...


O tempo no céu demora uma eternidade para passar.

ESTOU DE ACORDO...

..O Cérebro é uma coisa magnífica... todos deveriam ter um (anónimo).

...Dzi Croquettes...



Vá ao cinema...

"Dzi Croquettes" e Lennie Dale...em cartaz...

O filme mostra a trajetória do irreverente grupo carioca...
...Dzi Croquettes...
O grupo marcou o cenário artístico brasileiro nos anos 70...
O conjunto contestava a ditadura por meio do deboche e da ironia e defendia a quebra de tabus sociais e sexuais...O governo radicalizou...
e o grupo revolucionou...
O Lennie Dale era um gênio...e custou a censura se tocar...e quando se tocou...
os Dzi Croquettes conquistaram o mundo...

Vá ao cinema...conhecer um pouco a história do Brasil...
Eu fui...e voltei repleta de inspiração...

Beijos...
Inspirados...
Leca

ONDE ESTÁ ELIZA ?

Eliza morreu ?
Eu me pergunto se Elisa Samudio morreu. Pode ser que não. Afinal, não se esconde tão facilmente um cadáver nos dias de hoje. Até antigamente era difícil, pois o corpo aparecia boiando num rio, ou era farejado por um cão, ou indicado por uma testemunha. O fato concreto do caso Bruno é que, até agora, ninguém acha o corpo de Elisa. Morto. Talvez encontrem o corpo vivo da moça, quem sabe na Suíça, no interior da França, nos confins da Manchúria. Porque nada é impossível. Uma teoria, por exemplo, seria a de que Bruno, assediado pela amante que conhecera durante uma orgia, e que o pressionava a reconhecer a paternidade de um filho nascido daquela noite, teria combinado o seguinte: - “Olha, tu te manda daqui, não me enche o saco e eu pago as tuas despesas. Te envio uma mesada básica por um doleiro amigo meu, e estamos combinados. ” Eliza, que não era flor que se cheirasse, e que porventura não ligaria para um filho gerado em tais circunstâncias, aceitou o negócio e estamos explicados. Aparecem os protagonistas: Macarrão, amigo do peito de Bruno, aliás, das costas, pois nelas carrega tatuada uma declaração amorosa dirigida ao goleiro. Este Macarrão, provável cúmplice do negócio – e não do assassínio – pois que nada fala; um sobrinho de Bruno, que já apresentou umas cinco versões desconexas sobre o crime, confundindo as investigações que já duram um mês, e nas quais se acham aqui e ali apenas o sangue de Elisa, o cabelo de Eliza e nada mais, coisas que poderiam ser forjadas sem nenhuma dor. E o criador de cães ferozes que comem carne humana. É uma teoria possível. Enquanto isso, o Flamengo demite o goleiro sem justa causa, volta atrás e fica à mercê de um processo milionário que, após vencido pelos advogados de Bruno, rende a este uma indenização milionária enquanto Bruno, tornado herói de uma nação condoída e arrependida de julgá-lo a priori por um crime que não cometeu, vende o próprio passe para um outro time, quem sabe da Europa, ou da Manchúria, onde reencontra Eliza e passam a viver juntos para sempre. Por que não ?

Traz um amigo também

O tempo que aí vem traz o gosto e o conforto das coisas construídas por nós, com as nossas mãos, com todo o nosso açúcar, com todo o nosso sal. Subimos por dias os degraus das escadas que projectamos há anos atrás e que nos parecem agora altas e perfeitas. Pelo meio delas, ficaram beijos roubados, discussões em cozinhas cheias de vento, noites de euforia e de gestos, amores e desamores, filhos feitos por alguns, filhos a crescerem já feitos por outros. Ás vezes, chamo-lhe caminho, outras vezes escadas. Gosto da altura que me proporcionam. Gosto de me sentar no último degrau e pensar que estamos já a construir outro e que um dia, chegaremos ao céu. O tempo que aí vem, traz o gosto e o conforto das coisas cimentadas e ainda assim não certas. Há sempre terramotos. Há sempre incêndios. Aquilo que o homem constrói, Deus pode desfazer num instante. Ainda assim, mesmo assim, sendo assim, quando nestas noites, me deito no último degrau, de olhos esbarrados no céu, penso que nem Deus, se atreveria, a destruir esta obra tão perfeita, a que se um nome tivesse e um dia terminada fosse, se chamaria amizade.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

EU-MULHER

EU-MULHER
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes - agora - o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
Conceição Evaristo

Em baixa voz,
 Sílvia

PERO VAZ DE CAMINHA

Regularmente compro livros num alfarrabista, mais precisamente na Livraria Fumaça, propriedade do senhor Fumaça.
Sempre que recebo uma das preciosidades que encomendei, assaltam-me vários tipos de sensação. Em primeiro lugar, vem o aspecto de amarelo velho das páginas, depois aquele cheiro levemente a mofo, que só as relíquias têm.
De seguida vem a perplexidade, por imaginar que há gente, que se desfaz de coisas tão intimas como os livros, por vezes de bibliotecas inteiras.
Antecipo o gozo que me vai dar, mandar encaderná-lo cuidadosamente, num encadernador amigo. Depois finalmente retorna às minhas mãos, com o aspecto que irá ter na minha prateleira.
Leio-o com todo o cuidado e depois arrumo-o. Um ritual antigo, que me dá uma enorme alegria.

Hoje chegou-me às mãos um exemplar da carta de Pêro Vaz de Caminha
Começa assim:

E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de Abril, estando da dita ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chama botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo de asno.
E, quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves a que chamam fura-buchos.
Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao monte alto o capitão pôs nome – o MONTE PASCOAL e à terra – a TERRA DE VERA CRUZ.

GED



Definições definitivas...


Sua Alteza escreveu um livro nas suas horas vagas, que, como se sabe, são todas.

O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

Meu Poeta, não resisto... Para meus amores do Mínimo Ajuste.
O TEMPO
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará. Mário Quintana
Que lindo aprendizado!
Sílvia

O Artista Inconfessável



Fazer o que seja é inútil.

Não fazer nada é inútil.

Mas entre fazer e não fazer

mais vale o inútil do fazer.

Mas não, fazer para esquecer

que é inútil: nunca esquecer.

Mas fazer o inútil sabendo

que ele é inútil, e bem sabendo

que é inútil e que seu sentido

não será sequer pressentido,

fazer: porque ele é mais difícil

do que não fazer, e difícil-

mente se poderá dizer

com mais desdém, ou então dizer

mais direto ao leitor Ninguém,

que o feito o foi para ninguém.



João Cabral de Melo Neto, Recife (1920-1999)

Possibilidades




O HOMEM TEM...

...DIANTE DE SI...

...UM HORIZONTE ABERTO...

...DE POSSIBILIDADES

A Mercearia Paraopebas

Curta nacional



Roteiro e Direção: Peter Pires Kogl

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O PORTUGUÊS QUE NOS PARIU

Quem visita o meu blog sabe que este é um dos meus livros favoritos. A história vista ao contrário, por uma brasileira. Terá imprecisões históricas, mas é uma visão como uma lufada de ar fresco sobre a nossa história comum. E nem sequer roça a vulgaridade. Angela Dutra de Menezes - "O português que nos pariu".

Receita de português

Coloque uma vasilha dentro de água. A massa só alcançará o ponto exacto se os ingredientes forem misturados em recipiente mergulhado na água salgada. Senão, a receita desanda.
Ingredientes:
• Homens pré-históricos do vale do Tejo e do Sado.
• Um punhado de povos indígenas, principalmente lusitanos. Se possível, da tribo liderada por Viriato.
• Celtas - apenas para polvilhar.
• Romanos.
• Bárbaros: alanos caucasianos, vândalos germânicos e escandinavos, suevos e visigodos germânicos – estes últimos dissolvidos na civilização romana.
• Mouros: tribos islamizadas do Marrocos e da Mauritânia.
• Uma pitada de árabes.
• Judeus sefarditas (ibéricos) – coloque um punhado entre um ingrediente e outro. Reserve a porção maior para o final da receita.
• Cristãos a gosto.Modo de fazer:Coloque na vasilha os pré-históricos.
Dê preferência aos que apresentarem características físicas do português contemporâneo: estatura mediana e dolicocéfalos. A arqueologia prova que os pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos - ora, pois.Tampe a vasilha com um pano húmido. Espere fermentar até se transformarem em tribos pacíficas e receptivas a ondas migratórias oriundas de vários pontos europeus. Não se preocupe se alguns, sorrateiramente, fugirem pela borda da vasilha. O ancestral do português já cultivava vocação viajeira, muitos chegaram à Inglaterra e à Normandia. Apenas oriente os neofujões para não tomarem o rumo de Brasília. Nunca se sabe o que lhes pode acontecer.Polvilhe um pouco de celtas. Além do charme, você vai introduzir o domínio da metalurgia e a vocação para o esoterismo. Afinal, quem não gosta de druidas? Além de estarem em moda, eles acrescentarão o toque exótico ao paladar do prato.Lentamente despeje os romanos. Atenção: vai sair pancadaria. Maneje com calma a colher de pau para driblar Viriato e outros caudilhos que não apreciarão o novo ingrediente. Cuidadosamente misture os revoltosos, os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana. No fim dará certo. É questão de paciência.Bata levemente durante 500 anos. A massa crescerá e revelará um povo urbano, meio escravo/meio livre, que falava latim vulgar e sofisticou o comércio e a agricultura. Enfim, quase um luxo.Introduza os bárbaros. Primeiro os alanos, vândalos e suevos. Capriche nos suevos pois eles chegam para marcar presença: adoram trabalhar com enxadas e logo escolherão terras para cultivar. Por favor, convença-os a abandonar os instrumentos agrícolas às margens da vasilha. Alguém pode quebrar o dente quando o português for servido.Descanse a colher de pau. Os romanos embolaram tanto o meio de campo que a turma abriu os braços para os novos conquistadores. Deixe a natureza agir. Você verá que, infiltrados na massa, estes bárbaros inaugurarão a era dos portugueses de olhos claros - um charme.Adicione os visigodos romanizados - ou federados, como os romanos chamavam os povos conquistados que, de rabo entre as pernas, lutavam para defendê-los. Espertamente, o Império de Roma utilizava a estratégia de lançar bárbaros contra bárbaros. Mais ou menos como os norte-americanos de hoje, que engrossam seu exército com negros e latinos da periferia – alguém ainda duvida que a História se repete?Misture cuidadosamente. Este momento é delicado: o sucesso do português dependerá, exclusivamente, de sua competência culinária. O gosto dos visigodos deve sobrepor-se ao dos vândalos e dos alanos. Apenas suavemente os bárbaros vencidos perfumam o prato – quase uma especiaria, o toque de classe.Quando vândalos e alanos se dissolverem, bata vigorosamente pois visigodos e suevos tenderão a encaroçar por 150 anos. Mantenha-se atento à receita. Não pare de bater nem mesmo quando os visigodos argumentarem serem os inventores do status quo da sociedade medieval portuguesa: clero, nobreza e povo – grande novidade. Faça-se de surdo e, até o último visigodo desmanchar, capriche em revolver a massa. Afinal, visigodos são guerreiros: podem armar uma falseta e solar o português.Espere inúteis três séculos – visigodo é um chuchu histórico, só faz volume, não larga gosto – e jogue os árabes e mouros. A massa ficará mais encorpada, adquirirá novos contornos, novas falas, novas técnicas, uma nova arquitectura. O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, autor de Casa - Grande & Senzala, assinala que é neste momento que surge o português típico, além de um original subgrupo característico do Norte, emblemático da milenar cruza de raças: homens morenos, cabelos castanhos, escuros olhos mouros, com barba e bigode louros ou ruivos.O Brasil que – final do século XIX, início do XX – recebeu maciça imigração de lusitanos do Norte, tem incontáveis homens morenos de barba clara. A maioria não sabe, mas eles são os representantes tropicais da malemolência lusa, useira e vezeira em misturar o próprio sangue ao sangue dos visitantes – eta povo hospitaleiro este que nos descobriu.Amasse, delicadamente, os islâmicos e os judeus sefarditas que, aos punhados, você veio introduzindo entre um e outro ingrediente. Deixe descansar. Eles se aglutinarão naturalmente. Naquele tempo, estes dois povos, amigos, interagiam sem culpas.Nesta altura, o português estará quase pronto. Agora, basta levar ao forno bem quente - eles são passionais, não assam em banho-maria.Com o açúcar, faça uma calda em ponto de bala. Adicione cristãos a gosto, de todos os matizes e origens.
Está pronto o português.
Desenforme e sirva-os ao Novo Mundo.

Cuevas VII, de Paulo Amaral

 
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