segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Rosa dos Ventos - Chico Buarque


Rosa-dos-ventos
Chico Buarque/1969

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

Dicionários





domingo, 3 de outubro de 2010

Marina Silva


No momento em que escrevo, e contados 95% dos votos, Marina Silva alcançou 20% dos votos; fica pelo caminho, mas ajudou a impedir a vitória imediata de Dilma Rousseff. Sempre apreciei em mim mesmo uma certa queda para os improváveis, de que esta mulher, com a sua história, é um excelente exemplo.
[O meu comentário não é político: é uma manifestação de admiração pelo percurso de vida desta mulher.]

Definições definitivas...


Sou realista, por isso não enfrento a realidade.

Fé e esperança

«Mas as noites claras de Persépolis eram leves. Eram noites claras, nem sempre iluminadas pela via láctea ou pelo luar, que se espalhava como um rio sobre a planície adormecida, mas sempre entrecortadas por conversas tristes, ligeiras e claras, e pela embriaguez leve e clara de vodca. E depois também as madrugadas lentas, que observávamos do terraço, e as rajadas mansas de vento nas nossas têmporas febris. Estendidos nas camas de campanha, sonhávamos com os caminhos do futuro, caminhos que serpenteavam por planícies desconhecidas e que escalavam arduamente as montanhas da esperança. Tínhamos fé, animava-nos uma esperança, esguia como as colunas brancas lá fora, que descrevia um movimento ascendente, para lá em cima se encontrar com a alegria e com a tristeza. Eram noites que tolerávamos com um sorriso.»
Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia. Lisboa: Tinta-da-China, 2010

DOIS POEMAS

ARBÍTRIO

Enquanto me abandono a uma sorte,
Filha do meu próprio esforço,
Meu artefato
(embora finja não criá-la, é certo),
Ludibrio o que não quero, e permaneço
Enquanto parto.

Viver é isso, então, tudo o que se adia;
O que se inaugura e não se sabia
Conspirado.
Aquilo que despenca das margens
E segue entre a pergunta e a escolha
Situado.

Por si mesmo conduzido, autárquico,
O movimento da vida atinge certeiro
O alvo.
Não é por auto-indulgência, decerto,
Que do afogamento, mesmo sem querer,
Me salvo.


TAÇAS COMUNICANTES

É perigosa a ausência
de vazios externos,
de desaguadouros,
ou reservatórios.
Se viver é transbordar,
que seja como o champanhe
sobre taças empilhadas,
em torre cristalina,
supostamente infinita.


Outros poemas AQUI ou ALI

A primeira vez que avistei o Brasil...

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Muitos, comuns eus e nós, pensam que há ciência para contar a primeira vez, a última vez, a vez intermédia, mas não tem aplicação geométrica que possa valer o tamanho que toma uma voz quando quase pisa uma terra distante pela primeira vez; pode dar vontade de beijar o terreiro, a terra terrena que se pisa a primeira vez, mas há um mal muito maior para quem a memória falha e não se coordena com a aflita realidade dos acontecimentos sucedidos: em que oportuno momento, é segunda vez, só para afirmar que houve a primeira?

Eu, sozinho, com essas dúvidas que me assaltam a todo o instante, quais criminosas de guerra, as dúvidas, que nunca haverão de ser punidas, tenho por certo que a primeira vez que avistei o Brasil, estava um dia carregado no mundo com o peso das nuvens parecidas com esponjas de anjo, com o céu contorcido por cinzentos cristais de chuva ambulante, e cá dentro, a ameaça, o alerta laranja de vendaval crescia em cada instante meu. Da primeira vez que avistei o Brasil, asseguro que não foi com sorriso de Pedro Cabral, nem com lamúria de tesoureiro do Rei; aterrei em Minas Gerais, com uma rodela preta de ananás fininho e com cheiro a vinil, que coloquei no meu velho Elac Miracord, batido com o tempo, batido com as tempestades de areias e poeiras, e todas as intempéries do homem que nele se gasta: o gira-discos e o seu meio mundo. 

Tomei de leve o braço que tornei tangencial com recurso a uma moeda de vinte e cinco tostões, e do velho aparelho, deixei a agulha no seu cantilever sulcar como a um rio invisível, negro tamanho, o primeiro som, o arranhar suave da máquina que procura um cais onde aportar, que toca a primeira espiral com dor, mas ao final do primeiro contorno, vinil e agulha, rio e barco, se encontram como o par desajeitado de Romeu e Julieta; o primeiro som, a primeira aterragem, a primeira passagem à velocidade do som, é marco grande como o padrão que os meus antigos soltaram nas praias do mundo, por aí a fora… este não! Este é evocação, é trinado de pássaro em viagem por aquém, por ali, por sobre as copas de todas as árvores do mundo: da primeira vez que avistei as terras da verdadeira cruz, fiz na companhia de um anjo… e que melhor passageiro de bordo? Um poema sonoro se solta no ar, neste ar comprimido que me envolve como uma cápsula do tempo, de tempo, avivado pelas notas que sopram tempestades neste cubículo de planeta à deriva, que sobem paredes meias e meias vontades e evocação o muito para lá do que se viu… cheguei ao Brasil!

Qual teia de vida, qual vida soprada, qual viagem “nessa procura toda de me lapidar nesse momento agora, de me reciar, de me gratificar de custo alma, eu sei”, qual poesia que se encosta nas paredes do mundo, qual ar que rareia no ar que ondeia porque “alma vai além de tudo que o nosso mundo ousa conceber, casa cheia de coragem, vida tira a mancha que há no meu ser, te quero ver, te quero ser”, te quero ver Sapucaí e Rios Verde de Três Pontas, te quero ver no Três de Julho em Três Pontas, que o Capitão Milton me espera na Avenida Ipiranga, sem saber, e voz de trovão, esse delicado paramento de anjo, traz-me até ao invólucro de corpo, deitado neste lugar, neste quarto com a persianas encerradas e porta na companhia de sua chave, onde adormecendo quase, num sono justo de sonho e lugar, de momento irrepetível, a leitura em alta voz da harmonia de Aladino que me concede um desejo, nesta manhã mal amanhada pelo mundo: da primeira vez que avistei o Brasil, adormeci no meu quarto, lençol e almofada fazendo as vezes de avião, de tapete voador para coração simples e amador, em Minas aterrei, minha terra primeira do Brasil: vinil e capa de menino pegando na estrada de vida a um canto e Capitão Milton sorriam, na primeira vez que toquei nas terras do Brasil, sem nunca ter saído do meu quarto.




Ainda hoje, tantos anos passados, recordo essa viagem, quando separo os meus vinis, só para escutar um, ao acaso, e está sempre esse na primeira fila: Anima do Seu Milton Nascimento.

Colmeal Velho, 27 de Outubro de 2009


[aparte breve: este texto, com quase um ano de escrita, rascunhei este texto para uma revista online a qual nunca me deu uma resposta, breve que fosse, de interesse ou não; como tal, não vejo mais vinculo de ordem alguma para não o editar… até porque a haver, já foi cumprido com a minha paciência de aguardar uma resposta: paciência!]

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Entrando pelo Cano


Do sempre genial Angeli.


O palhaço Tiririca, alegria do povo, sem seu fardamento oficial, possível deputado federal por São Paulo, está a exercer seu dever cívico.

sábado, 2 de outubro de 2010

Definições definitivas...


O importante é o principal. O resto é secundário.

A História Da Música Flor De Lis - Djavan -


Djavan teve uma mulher chamada Maria, os dois teriam uma filha que se chamaria Margarida, mas sua mulher teve um problema na hora do parto e ele teria que optar por sua mulher ou por sua filha...Ele pediu ao médico que fizesse tudo que pudesse para salvar as duas,mas o destino foi duro e a mulher e a filha faleceram no parto.Agora é possível 'sentir' a letra da música. Conhecendo esta breve história passamos a ouvir a música sob novo contexto, entendendo como a dor pode ser transformada em poema e arte.

FLOR DE LIS


'Valei-me, Deus! É o fim do nosso amor
Perdoa, por favor, eu sei que o erro aconteceu.
Mas não sei o que fez, tudo mudar de vez.
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei.

Será talvez que a minha ilusão, foi dar meu coração,
com toda força, pra essa moça me fazer feliz,
e o destino não quis, me ver como raiz de uma flor de liz.
E foi assim que eu vi nosso amor na poeira, poeira.
Morto na beleza fria de Maria.

E o meu jardim da vida ressecou, morreu.
Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu.
E o meu jardim da vida ressecou, morreu.
Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu...


Djavan


Será?

                           " Em todo caso é certo que por pior que estejamos não estamos acabados. E que se não estamos acabados podemos reinventar-nos, fazer-nos de novo, fazer-nos de outra maneira. Para que o mundo seja a casa de todos e não um campo de concentração para a maioria de seus habitantes. E para que sejamos capazes de recuperar a visão do outro, do próximo. Desse que passa pela rua. Desse homem ou mulher desconhecidos, que andam por aí, e deixar de vê-los como uma ameaça para começar a vê-los como uma promessa." Eduardo Galeano
E amanhã eu vou votar ou vou fazer unidunitê salame mingue um sorvete colore escolhi você?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Drummond

"Nega Maluca"

Eis uma legítima "Nega Maluca"


Não sou de contar piada e, muito menos, de postar piadas. Juro, nunca imaginei postar uma piada e, sobretudo, em um Blog Coletivo. Mas hoje recebi no meu e-mail a piada - que reproduzo abaixo.
Um pequeno parênteses: aqui no Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, estado povoado por imigrantes italianos e alemães, chamamos a torta de chocolate de "Nega Maluca" (acho que no Brasil inteiro se chama assim)  e o brigadeiro de "Negrinho" (esse sim é uma denominação bem gaúcha).  Isso faz parte de uma tradição de muito tempo.

Pois a piada que recebi foi a seguinte:

Uma senhora entra numa confeitaria e pede ao balconista uma fatia de bolo ''Nega Maluca''. O balconista diz à cliente que usar o nome "nega maluca", hoje em dia, pode dar cadeia,

Devido a:



- Lei Affonso Arinos;
- Lei Eusébio de Queiroz;
- Artigo Quinto da Constituição;
- Código Penal;
- Código Civil;
- Código do Consumidor;
- Código Comercial;
- Código de Ética;
- Moral e Bons Costumes,
- Além da Lei 'Maria da Penha'...


- Então, meu filho, como peço essa p... de torta?
- Torta afro-descendente com distúrbio neuropsiquiátrico...

Definições definitivas...


Por que é que todo o bêbado quer saber a todo instante que horas são?

Louis Armstrong - Adiós Muchachos (I Get Ideas)



Vaya este video como compañía al hermoso que posteó Silc días atrás.