quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Estante




Às vezes fecho o livro que estou lendo
para expurgar fantasmas
que me invadem.

Os livros têm licença de mentir
ou sufocar de verdades quem se arrisca.
Explicam nossas culpas
ou tocam sem cortesia na alma de quem lê
e atingem irreverentes os sentidos.

Às vezes me percebo nas palavras
outras, sofro
quando sem compaixão nem saída
a vida escrita esmaga um personagem.

Palavras que se atraem mutuamente
escritos e leitores dão-se as mãos
a evocar instâncias
e bifurcar-se num jardim de Borges
multiplicados enfim
outras histórias
sobre segredos memórias
sons e sonhos.

Perseverantes
inertes nas estantes
estão vivos
habitados de razões inesperadas
canais de lágrimas e motes para o riso.

Em sua música secreta
encapada
uns são baladas
outros sinfonias
outros ainda notas dissonantes
mutantes harmonias em palavras.

Em defesa dos gays


E se tivessem proibido de nascer o francês Marcel Proust, gênio da literatura, por ser gay?
E se tivessem proibido de nascer o norte-americano Leonard Bernstein, gênio da música, por ser gay?
E se tivessem proibido de nascer o russo  Nureyev, mago da dança, por ser gay?
O mundo ficaria mais pobre.
O mundo ficaria mais feio.
O mundo ficaria mais triste.
E, principalmente,  o mundo ficaria mais injusto e se aproximaria do ideal genético sonhado por  Hitler e os nazistas alemães.
Já não basta discriminar os gays pobres e anônimos, já que os gays ricos e famosos são aceitos?
Já não bastar criar uma espécie de prisão, feita com as grades da discriminação e do preconceito, contra os gays de modo geral?
Já não basta essa espécie de novo racismo contra o gay?
Já não basta?
O que o geneticista norte-americano James Watson propõe (dar à mãe o direito de abortar quando descobrir que o filho que vai nascer será um gay) é tão monstruoso, é tão brutal, é tão criminoso, que é difícil de acreditar.
É tão brutal, tão monstruoso, tão criminoso e tão ofensivo ao que a humanidade tem de honesto, que recorda Hitler e as experiências do sinistro dr. Joseph Mengele fazia com os judeus e outros prisioneiros dos campos de concentração nazista.
Como deram o prêmio Nobel de Medicina a um cientista como o dr. James Watson?
É preciso, é urgente, entender de uma vez para sempre (e quem escreve é alguém que fez uma opção sexual e existencial diferente dos gays), é preciso entender, repito e insisto, que os gays fazem parte, desde sempre, da cultura humanística da civilização.
Há uma contribuição gay em todos os setores da vida moderna.
O mundo não seria o mesmo sem os gays.
A literatura não seria a mesma.
A música popular e erudita não seria a mesma.
A moda feminina não seria a mesma sem os costureiros gays.
A elegância não seria a mesma.
O rádio, a televisão e o cinema não seriam os mesmos.
O mundo (sabia o dr. James Watson e todos os que pensam como ele) tem uma grande dívida com os gays. porque os gays embelezaram o mundo, tal qual fizeram outros segmentos discriminados.
Assim como o mundo tem uma dívida com os judeus.
Assim como o mundo tem uma dívida com os negros.
Assim como o mundo tem uma dívida com os latino-americanos.
Assim também o mundo tem uma dívida com os gays.
Mas se não houvesse uma dívida. Se não houvesse uma gratidão. Se houvesse apenas o direito que cada um tem de fazer suas escolhas, em todos os sentidos. Se fosse apenas isso, teríamos que protestar contra esse nazismo fantasiado de ciência defendido pelo dr. James Watson.
Os gays do mundo foram ofendidos.
As mães do mundo e os pais do mundo foram ofendidos.
Mas todos nós, que cultivamos o humanismo, todos nós que recusamos qualquer espécie, simulada ou não, de nazismo e de fascismo, temos de gritar.
Que os gays do mundo gritem.
Gritem os gays de todo o planeta.
Abaixo todo o tipo de preconceito.
Qualquer pessoa que nasce, seja o que for, é uma criatura divina, merece respeito - rica ou pobre, famosa ou desconhecida, talentosa ou não.
A condição humana foi ofendida pelo dr. James Watson!
Recebam os gays do mundo esta crônica como uma flor.

Roberto Drummond.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

(Dos sonhos VI): Prometo ser fiel a mim mesma, na alegria e na tristeza

O vestido era feminino e delicado. Uma sobressaia de um tecido que parecia tule e uma bela guirlanda de flores silvestres no tornozelo direito. Eu estava feliz porque estava me preparando para casar comigo mesma. Não havia noivo, havia eu mesma a esperar a hora da cerimônia que me tornaria unida a mim mesma. Esta foi a única vez na minha vida que sonhei com casamento.

Que espécie de sentimento isso despertou? Perguntaria naturalmente o analista. Mas eu já falei da felicidade que era ir ao meu próprio encontro. Um freudiano mais ortodoxo suporia que aí estaria um traço homossexual dissimulado ou qualquer coisa dessas que são ditas de forma superficial por quem não procura conhecer o universo do sonhador, seu território original, seus símbolos pessoais, sua natureza íntima.

Essencialmente sou um ser que anseia por compreender a origem de tudo. Não por acaso tantas vezes preciso descer ao mundo de trevas, percorrer terrenos pantanosos, fazer contato com o meu mundo primitivo. Necessito entender a existência a partir do passado, do começo. E há em mim um incurável anseio cósmico. Eu sempre acreditei que as experiências humanas são reflexos distorcidos de uma realidade superior, cósmica.

No fundo, sempre intuí que a busca pelo outro é uma metáfora para a busca pela completude. Muito cedo, eu via as pessoas, todas elas, como “metades” e entendia a paixão, o amor romântico como uma espécie de ensaio para um amor maior.Cósmico.

Convicções enraizadas na minha alma, não sei como foram formadas, nem onde, mas nasci com um olhar insólito sobre o mundo. De algum modo, eu sempre soube que a procura pelo outro, pelo parceiro, pela cara-metade era apenas um exercício humano que, em algum dia, de algum tempo, nos levaria de volta à inteireza.

Casar comigo mesma era um sonho, um íntimo desejo da alma. Era preciso estar unida a mim mesma para poder realizar minha jornada. A psicologia analítica de Jung esclarece muito sobre as nossas projeções, fala do animus e da anima, arquétipos que representam a parte masculina da mulher e a feminina do homem. Amar, olhado assim, é uma simples projeção. Algumas projeções de animus levaram-me a conhecer muito mais de mim mesma. O homem e a mulher que escolhemos refletem nossa história, nossas doenças, nossas fraquezas, e também força e beleza. Atraímos aquilo que somos.

Mas que tem tudo isso a ver com o meu casamento comigo mesma? Fernando Pessoa traduz isso muito bem no poema Eros e Psique.

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Talvez eu tenha descoberto muito cedo que eu era o meu príncipe que viria. Eu queria a inteireza dentro de mim. Compreendo que faz parte da evolução humana alcançar esse entendimento um dia, de que nosso maior anseio seja um anseio cósmico. Procuramos pela inteireza. O Outro é uma ponte, a oportunidade de aprendermos a entrega, a importância das duas energias – yin e yang – para a criação. Acredito mesmo que as possibilidades de encontrarmos o parceiro ideal tornam-se mais reais quando realizamos essa cerimônia íntima, o casamento conosco mesmo, a junção dos fragmentos que somos. Para amar é necessário, antes de tudo, amar a si próprio.

“Sim, eu prometo ser fiel a mim mesma em todos os momentos da minha vida. Prometo cuidar de mim nas horas tristes e nas horas alegres. Até que a morte possa então, fazer-me, definitivamente, inteira”. Eu teria feito o juramento se o sonho prosseguisse. Mas acordei quando, em êxtase, eu ainda me vestia para o grande evento.
Mais sonhos no:

Tempos



 
Yelena Isinbayeva está na tela agora. Olha firme para pular 4,75 metros, mas não consegue. Cai bela sobre a lona. Ela chora o amargo  tempo da derrota. Arthur Zanetti rodopia com seus bíceps turbinados  sobre a barra e leva o ouro. Ele vive o tempo da vitória.
 
 


 

Posta restante



esconde os olhos
sob um céu em prosa
espera a entrega
mesmo que não se abram 
os envelopes.

Para roer



Para roer as letras
arranque dos sons
a dicção da alma
em ponto de espera.

domingo, 5 de agosto de 2012

Satélite


Ambos satélite do outro
sem órbita ou planeta
na surpresa do encontro
da tinta com a caneta
falamos a língua louca
na qual toda tinta acaba
pouca, pouca, muito pouca.
como chapéu sem aba,
como uma voz rouca...
Ambos satélites da outra,
da outra vida redesenhada,
onde temos que ser contra
a travessia acabada
no espaço siderado.




















De Fábio Daflon. Livro Gesso & Caliça

sábado, 4 de agosto de 2012

«Beatriz», por Maria João & Mário Laginha


Há uns tempos, lendo um crítico musical brasileiro, assisti a uma discussão sobre quem teria interpretado a mais bela versão de Beatriz (Edu Lobo/ Chico Buarque). Nomes em cima da mesa: Milton Nascimento, Zizi Possi, Gal Costa, Mônica Salmaso e Virgínia Rodrigues, se a memória não me falha. Apesar de quase todos terem interpretado versões nada menos do que deslumbrantes (pessoalmente, não aprecio a muito a versão de Gal Costa, apesar de amar a cantora), devo dizer que gostaria de ter lido o nome de Maria João & Mário Laginha. Porquê? Escutai.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

(Dos sonhos VI): pari versos em contrações ritmadas



Eu sou sua mãe, mas ela não sabe. A mulher que a acompanha passa por ser a mãe que eu não pude ser. Havia, sim, uma certa felicidade no rosto da menina, de modo que eu não me sentia culpada por tê-la posto em outros braços, um dia, quando ainda era um bebê.

Quando ela entrou sorrindo, uma ternura sedosa envolveu meu coração e uma voz sussurrou a mim que aquela era minha filha. Que era preciso oferecer-lhe o melhor de mim, ofertar o presente mais bonito do mundo, ainda que ela não soubesse exatamente por que o ganhara.

Estranhamente, nunca parei para pensar o que era, de fato, o melhor de mim, onde se encontrava. Mas no rosto da menina um olhar iluminou meus sentidos e reconheci a riqueza que iria deixar para minha filha: a poesia! Era mesmo estranho que eu soubesse, de repente, que o meu legado e a minha riqueza fossem a poesia.

Encorajei-me a chegar perto da criança e perguntei, sem jeito: “Você quer aprender poesia uma vez por semana?”. A resposta veio rápida e enfática: sim! E combinamos que nos veríamos na primeira aula, semana seguinte.


A criança do sonho era eu própria. O meu dom de criadora negado. A dimensão dos sonhos sedenta de vida. Começo de reconciliação entre a velha senhora saturnina que modelava minha face mundana e a criança asfixiada que buscava transformar estrelas em coroas douradas, metamorfoseando o mundo.

Era preciso criar sem medo, apelando para a espontaneidade infantil, imune aos julgamentos alheios.

E pari versos em contrações ritmadas.

Na poesia dormem filhos que não pude ter.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

(Dos sonhos IV): amar é morrer!

 
 
Não, amar não, que amor exige entrega e entregar-se é morrer.  Não é? Engano seu. Na entrega do amor – profunda, verdadeira – você deixa de existir enquanto ego, desata o laço que o prende com segurança e cai em vertigem interminável. Morre.

Quando ele me falou que sonhou com seu próprio velório e ressaltou que eu estava presente junto ao seu corpo, sorri por dentro, porque compreendi. Amar era o seu maior medo. Ele não sabia, porque esse quase terror estava mergulhado nas águas escuras do seu inconsciente e as feridas que o fizeram temer o amor vinham de muito tempo, da infância sofrida, quando lhe ensinaram a rimar amor com dor.

O corpo, ele entregava em êxtase. O coração jazia sob os escombros do passado. Um dia, desprevenido, afrouxou o laço que o mantinha seguro e sentiu um arrebatamento íntimo, como se lhe faltasse o chão, como se seu próprio corpo se fundisse com o outro corpo, e a respiração denunciou um algo desconhecido. À noite sonhou que morrera, e eu estava lá, acompanhando o corpo sereno, descansando na mesa, entre flores e lamentos.

Sim, amar e morrer são verbos que se irmanam. A metáfora do sonho escondia o começo de uma entrega, incipiente, a algo que parecia ser amor. Temeu, no entanto. Não à morte, mas ao amor. E recuou.

Um dia – assim desejo e espero – haverá de morrer sem medo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

(Dos sonhos III): o céu caiu e uma bailarina desceu



O céu cai e dele desce uma bailarina muito sorridente. Quem ainda guarda os sonhos de menina? Pois que esse foi um sonho da mais tenra infância do qual nunca esqueci. Nunca relatei a ninguém, estou falando dele agora. Lembro exatamente da sensação que me provocou e das transformações que ocorreram em mim a partir disso.

Eu que achava que o céu era o limite. Eu que, angustiada, via beleza no céu azul, mas, ao mesmo tempo, sentia-me asfixiada pelo firmamento. Eu que resistia, intimamente, a acreditar na finitude das coisas, que fazia do “além” a minha filosofia infantil.

Quando o céu caiu, o porte e a beleza da bailarina pouco me disseram. A queda do céu – isso sim – é que foi a grande anunciação. Foi ali que descobri a ilusão dos limites e das fronteiras. Entendi que o caminho seria para sempre duvidar das linhas de demarcação que a vida me impunha. Meu céu caído talvez tenha sido a minha primeira transgressão. Nunca ninguém jamais poderia, então, falar-me de fim, finitude, muros, paredes, cercas, fronteiras.  Talvez ali eu tenha compreendido que sabia voar.

FÉRIAS!!!

domingo, 29 de julho de 2012

Tão grande

Te vi estacionando o carro.
Vi teus passos largos a caminho do restaurante e o desequilíbrio dos teus pés e vi o sorriso dela em frente a porta, as mãos dela segurando a cabeça entre o espanto e o eu já esperava por isso. Senti o perfume de ambos.
Percebi na tua pele queimada a chama da tua vontade, a força da tua entrega no abraço de menino em corpo de homem.
Tentei chegar mais perto e te dizer eu estou aqui ao teu alcance.
Tentei.
Mas teu riso era tão grande, tão grande,  que não tive escolha a não ser te deixar ir.

sábado, 28 de julho de 2012

Mulher vestida de gaiola


Parece que vives sempre
de uma gaiola envolvida,
isenta, numa gaiola,
de uma gaiola vestida,

de uma gaiola, cortada
em tua exata medida
numa matéria isolante:
gaiola-blusa ou camisa.

E assim como tu resides
nessa gaiola, cingida,
o vasto espaço que sobra
de tua gaiola-ilha

é como outra gaiola
igual que o mar: sem medida
e aberto em todos os lados
(menos no que te limita).

Pois nessa gaiola externa
onde tudo tem cabida,
onde cabe Pernambuco
e o resto da geografia,

três bilhões de humanidade
e até canaviais de usina
sei que se debate um pássaro
que a acha pequena ainda.

Tal gaiola para ele
mais do que gaiola é brida;
como cárcere lhe aperta
sua gaiola infinita

e lhe aperta exatamente
por essa parede mínima
em que sua gaiola-mundo
com a tua faz divisa.

Contra essa curta parede
entre ti e ele contígua,
que te defende e para ele
é de força, se é camisa,

todo o dia se debate
a sua força expansiva
(não de pássaro, de enchente,
de enchente do mar de Olinda).

Por que ele a quem sua gaiola
de outros lados não limita,
deseja invadir o espaço
de nada que tu lhe tiras?

por que deseja assaltar
precisamente a área estrita
da gaiola em que resides,
melhor: de que estás vestida?

João Cabral de Melo
(1920-1999)