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quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Partida


A Partida


Madrugada perdida, elo perdido.
E eu, vazio, vagando vagava vago.

Pessoas vão e voltam.
Vultos vão e voltam perdidos.
Nas sombras descansam mendigos.

A chuva me caía, tranquila.
Me lavava, nuvens nos velavam.
Me levavam...

Os passos, já não tem pressa, são tranquilos, tristes;
E não seguem caminhos distintos, me seguem.
...em silêncio.
Mas, esta vala só vale a mim.
O escuro vestiu a todos,
mas é a mim que a cova aguarda.

Velam, no vale, em volta da vala, meu corpo.

Enfim, uma flor de cravo desprende das mãos de meu filho,
e crava em meu peito a Verdade.
Então, meu corpo caiu pesado na terra molhada...

...e na fria lápide estava escrito meu nome.

Alexandre Pedro
Meu Blog: http://carceredoser.blogspot.com/


***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

sábado, 12 de março de 2011

Transitivo


Me vejo refletido na areia,
Sou sol.
Vem a chuva,
Sou assombro.
Na areia jaz minha imagem,
Sou onda.
Em águas rasas,
desesperado me encontro
às margens.
A onda se foi pra imensidão
deixando apenas grãos de areia.
Levando consigo tudo e nada,
deixando partículas de alguém
que em vida
fui.

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Solidão


Solidão

Da pedra cresceu um templo.
Da pena nasceu um poema.
A pedra desgastada pelo tempo,
A pena arrastada pelo vento,
A pedra prende a pena,
A pena espana a pedra,
A pedra pisa a pena,
A pena alisa a pedra,
A pedra virou escultura,
A pena apenas uma pena.
Que pena!

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
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Posta

sábado, 29 de janeiro de 2011

Rosas


Rosas

Dispo a rosa ,
Pétala por Pétala.

Tiro-lhe o galho,
Tiro-lhe as folhas,
Rasgo-lhe do caule,
Sangramos.
Dedico-lhe à mulher,
Sagrada.

Campo minado.

A rosa úmida
em gotículas
Salivadas.
A rosa crua
em sua genitália.

Pousa quente em minhas mãos,
Trêmula.
Num cálido perfume,
Gêmula.

Rompo-lhe o hímen,
mexo, rasgo,
esfrego, vibra,
cheiro, amasso,
pego, grita,
dedos, línguas,
pulsa, expulsa,
pele, repele,
espirra, goza,
néctar em mel.

Estirados num canteiro,
molhados e com cheiros
das Rosas, finalmente nua.

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
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Venha me visitar no Cárcere do Ser!!!
http://carceredoser.blogspot.com/

sábado, 22 de janeiro de 2011

Esvair-se Transbordando


Das narinas nasceram ramagens que lhe percorriam o corpo frígido,
envolvendo-o completamente num casulo esverdeado e fétido.
Da boca vertiam vermes como se fossem alimentos, que dela se alimentavam.
Vermes talhavam seu belo rosto que beijado fora noutros dias tão brandos.
Nos olhos nenhuma vida,
Nenhuma luz.

Dos pulsos duas fendas verticais por onde expulsara-lhe a vida.
Nos ouvidos apenas o silêncio e o princípio de gemidos distantes a se aproximarem.
Em sua genitália nem mais a vivacidade da cordial jovialidade.
No peito um coração esvaído de toda vontade, angustiado e reduzido
entre o primeiro e o ultimo pulsar.
Na mão direita um bilhete interrompido por um adeus.
No chão um tapete de confetes colorindo e alegrando a cena.
Na esquerda, uma aliança pende da mão repousada nas paredes gélidas de uma banheira branca ensangüentada
e inundada de vida.

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
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domingo, 16 de janeiro de 2011

...no escuro.

...a noite não escurece.
...a noite não cai,
... e nem me cai,
...a noite não me desce.
...me derruba!
...a noite dói!
Alexandre Pedro
http://carceredoser.blogspot.com/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"...eu e todos meus eus..."


Início de 2011.
Como prometido, venho partilhar meus textos com você, caro amigo leitor.
Muito lhe sou grato pela visita, mas te peço, encarecidamente, que deixe um comentário, positivo ou negativo, não importa...serão bem vindos.
Solte o verbo! E não se cale diante das minhas palavras pois, sem você, de nada valerão, não farão sentido algum.
Curso o 4º Semestre em Letras, e o ato de escrever me é novo. Sim, me considero um escritor, mas tenho apenas 5 meses.
Meu primeiro poema data se no mês de setembro de 2010, e em novembro participei de um Concurso de Produção de Textos na Universidade Paulista e fui premiado em três poemas.
Meus textos foram registrados na Biblioteca Nacional, e por isso demorei tanto pra divulgá-los, mas agora estou aqui, dividindo minhas palavras com você.
Obrigado pelo carinho,incentivo, e confiança!
Alexandre Pedro



O Poeta e o Poema

Quem expressa?
O poeta ou o poema?
O poeta expressa a palavra,
ou a palavra expressa o poeta?
O poeta sem palavras não se expressa.
A poesia tem pressa,
O tempo passa depressa,
As palavras o desprezam.

Rima, Ritmo e Métrica.

Qual sua melodia?
Qual sua dança?
Quais suas medidas?
Onde se escondem?
Voltem depressa e façam do poeta um personagem
que o engane e o manipule,
e o faça menino, um mamute.
Transborde-o.
Que só assim, um adulto sob pressão,
pode escrever algo que preste.

Alexandre Pedro


***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

"Gramática de um Poeta"

‎"A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo parecido a uma feitiçaria evocatória; as palavras ressuscitam revestidas de carne e osso, o substantivo, em sua majestade substancial, o adjectivo, roupa transparente que o veste e dá cor como um verniz, e o verbo, anjo do movimento que dá impulso à frase".
Charles Baudelaire

domingo, 19 de dezembro de 2010

Alphonsus Guimaraens - Rosas


Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?

* Imagem: Botticelli - Birth of Venus

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PENETRAÇÃO DO POEMA DAS SETE FACES


(A Carlos Drumond de Andrade)

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

Elisa Lucinda

domingo, 12 de dezembro de 2010

Manuel Bandeira - Unidade


Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste!
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas
os seus mormaços
os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da
unidade.

" Neste poema Manuel Bandeira fala da relação da caneta, instrumento do poeta, com o próprio poeta. A caneta que reclama o vazio de estar só, e o poeta que chega abruptamente e afaga a caneta, e esta que sente o calor de suas mãos, e se sente como uma seta de fogo.
Até que a inspiração, vem vindo, vem vindo de muito longe e se funde aos dois ( poeta e personagem - caneta ), e explodem em orgasmos, o POEMA. Fundidos num só SER..."
Alexandre Pedro

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Esotérico - Doces Bárbaros



Eu, e minhas velharias.
- Como sou feliz com elas!!!!

Bethânia e Gal, um Show a parte, da outra parte, que também é Show - Gil e Caetano.
...algo esotérico....
Alexandre Pedro

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Procura da Poesia - Drummond


Hoje participarei de um Concurso de Produção de Textos; e neste autor, e nesta palavras, especificamente neste poema, que busco a liberdade para minhas palavras. São deste texto que saem minha coragem para escrever, e é com base nele que meu fluxo de consciência fala audacioso.
Torçam por mim, amigos.
Abraço,
Alexandre Pedro

Procura da Poesia - Drummond
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Leda e o Cisne


Um pouco de mitologia:

Conta a lenda que Leda era uma jovem princesa, recém casada com Tíndaro, herdeiro de Esparta. Leda vivia a natureza, gostava de sentir os raios de sol tocando sua pele, a grama verde sob seus pés, sob olhares indiscretos dos deuses.
Certo dia, Zeus a caminho de Tróia, encontra Leda seminua na relva, e de longe, fica admirando sua beleza. Temendo assustá-la e de ser repelido, uma vez que era casada, Zeus transforma-se num lindo e imenso cisne, com belas plumagens para cortejá-la.
Leda fica de longe observando o cisne se aproximar.
Então, o cisne começa mexer suas penas com desenvoltura, numa tentativa excitante em conquistar a moça. Seus movimentos a fascina, a envolve.
Leda estava seduzida.
Então o cisne se aproxima e começa a tocá-la, a acariciá-la com suas plumas e seu longo pescoço.
Excitada, Leda deitou-se novamente na relva e aguardou que o cisne se deitasse sobre ela, e então se amaram.
Meses depois, Leda percebe seu corpo diferente, e de seu ventre saem dois ovos. Leda tivera quatro filhos de Zeus.
Hera, mulher e irmã de Zeus, com ciúmes, começa perseguir Leda e a proíbe de viver no reino. Assim, Zeus compensa Leda, convertendo-a em deusa e reservando-lhe um espaço no céu, na forma de uma estrela na constelação de Cisne.
Os filhos de Leda e Zeus, Castor e Pólux, tornam-se grandes guerreiros e amigos inseparáveis. Porém Castor (que herdou a mortalidade humana) perde a vida em uma batalha e Pólux (que herdou a imortalidade divina) suplica a Zeus que devolva a vida do irmão. Comovido com esta demonstração de amor fraterno, Zeus propõe a Pólux dividir sua imortalidade, alternando com o irmão um dia de vida e um dia de morte.
Assim os irmãos passaram a viver e a morrer alternadamente e Zeus os homenageia com a constelação de Gêmeos, na qual não poderiam ser separados nem com a morte.

Pólux x Castor
Sol x Lua

Por, Alexandre Pedro.

* A imagem acima é reprodução da obra "Leda e o Cisne", de um dos grandes modernistas, Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Lembranças


Lembranças
(Raul Sampaio/Benil Santos)

Lembro um olhar,
Lembro um lugar
Teu vulto amado,
Lembro um sorriso
E o paraíso
Que tive a teu lado,
Lembro a saudade
Que hoje invade
Os dias meus
Para meu mal
Lembro afinal
Um triste adeus.

Sou agora no mar desta vida
Um barco a vagar,
Onde está teu olhar,
Onde está teu sorriso
E aquele lugar?
Eu devia sorrir, eu devia,
Para padecer ocultar,
Mas diante de tantas lembranças
Me ponho a chorar.

* Música de Raul Sampaio, gravada por Maria Bethânia em Rosa dos Ventos, onde ela insere esta música dentro da música "Minha História", de Chico Buarque; como se fosse uma lembrança da personagem que perde seu amado pro mar.
Após a espera pelo amado que não retorna, com seu vestido único e velho e a cada dia mais curto, a personagem que passa a ter uma vida de Cabaré, embala seu filho e por não se lembrar de nenhuma cantiga de ninar, embala seu filho com esta música de Cabaré. No final da canção, ela retoma a parte final de "Minha História ".
É de arrepiar, principalmente a parte em que ela canta num tom sufocante, o verso a seguir:

"Sou agora no mar desta vida
Um barco a vagar,
Onde está teu olhar,
Onde está teu sorriso
E aquele lugar?"

*Obra ilustrativa de José Leonilson.

Abraços,

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

eraOdito - Marcelino Freire


Livro de Marcelino Freire, "eraOdito", nos traz 88 frases, onde ele vai dizer o que não diz os nossos ditados, fazendo frases de efeito gráfico, mostrando o que está por trás, por dentro, no nosso subconsciente. O livro foi lançado em 1998, e adaptado para versão em vídeo ainda no mesmo ano. Foi selecionado oficialmente para participar do VI Festival Mundial do Minuto. Em 2002, foi adotado pelo Ministério da Cultura, para ser distribuído em todas as bibliotecas do país.
Vale conferir!!!
Abraços



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sonho Impossível - Chico Buarque


Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz?
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

* Por mais que ouço Chico, me vejo sempre como aquela criança que vê seu filme favorito centenas de vezes seguida, e a cada cena,um olhar vidrado de surpresa e satisfação.
Abraços,
Alexandre Pedro.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade Vs Chico Buarque de Hollanda


Carlos Drummond de Andrade, nascido em 1902 em Minas Gerais é considerado um dos maiores poetas brasileiros.
Do livro " A Rosa do Povo ", publicado em 1945, o poema "A Flor e a Náusea", assim como o livro, trata de uma época sufocante, um período em que o mundo deglutia a Segunda Guerra Mundial; e no Brasil especificamente, a Ditadura de Getúlio Vargas.
Drummond foi capaz de captar todo sentimento, dor e agonia desta época, e mais importante, conseguiu transformar tudo isso em poesia.
Drummond começou escrevendo muito cedo, foi funcionário público e escreveu até a data de seu falecimento, ocorrida aos 85 anos de idade.

E minha proposta é que você, caro amigo, compare este poema com a obra de Chico Buarque, "Rosa dos Ventos".
No primeiro poema ( de Carlos Drummond ), A Rosa é a representação de um mundo novo, em que o poeta acredita e que está por surgir. No segundo poema ( de Chico Buarque ), a Rosa representa a sociedade que já pode olhar para este novo mundo idealizado. Este Mundo chegou, e é a própria sociedade quem desperta, ainda que tarde, para o despertar de um novo tempo, e a esperança que já havia sido perdida, renasce com força no coração do cidadão oprimido.
Seria injusto colocar dois poemas do Drummond, contra um do Chico, mas a idéia não é de oposição, e sim de complementação; portanto no final desta postagem, colocarei um segundo poema de Carlos Drummond de Andrade, em que os dois poemas já citados ( Chico Vs Drummond ), dialogam perfeitamente. Me refiro ao poema " Áporo ".

A Flor e a Náusea
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma conta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns ache belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária do erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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Rosa dos Ventos
Autor: Chico Buarque


E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

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ÁPORO ( Publicado em A Rosa do Povo )
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

Neste último poema, Drummond discursa sobre um inseto ( o áporo ) que vai cavando sem achar saída, vai perfurando o poema até a sua transformação numa orquídea, que perfura o asfalto. O que é uma tradução de uma sociedade que depois de tanta luta, tanto sofrimento, desabrocha pra um novo mundo de esperanças.
Há ainda uma visão política no trecho:

Eis que o labirinto
( oh razão, mistério )
Presto se desata:
Possível alegoria a Luis Carlos Prestes, que acabara de ser libertado pelo Regime Militar. Pode ser interpretado como o Áporo buscando caminho na pátria sem saída, que se tornou o Brasil durante a Ditadura de Vargas.

Espero que não tenha sido cansativo pra você, leitor. Pois pra mim foi um imenso prazer, fazer esta comparação.
Esta é uma postagem que fiz no meu blog Cárcere do Ser, e achei interessante postar aqui também, já que nem todos amigos que aqui estão, partilha comigo no Cárcere do Ser.
Convido a todos a visitarem meu Cárcere.
Abraço,
Alexandre Pedro

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Rosa dos Ventos - Chico Buarque


Rosa-dos-ventos
Chico Buarque/1969

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Motivo, Cecília Meireles


Motivo
Cecília Meireles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.