terça-feira, 3 de agosto de 2010

As Lágrimas


As Lágrimas são
as últimas palavras
quando o
coração perde a voz.
A alma não teria arco-íris
se os olhos não
tivessem lágrimas"


John Vance Cheney

Retrato - Cecília Meireles


Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

Se você perguntar, eu digo...















- O que houve?
- Comigo nada. Por quê?
- Você está estranha.
- Impressão.
- Não éramos amigas?
- Nunca fomos. A diferença é que agora não preciso mais fingir que te tolero.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Yesterdays

Caixinha de Música


Grilo, grilarim,
Tens um canto azul
Na noite de cetim!
Cigarra, cigarraia,
Tens um canto branco
No dia de cambraia!
Formiga, miga, miga,
Só tu cantas os nadas
Do silêncio do Sol,
Das estrelas caladas...


Matilde Rosa Araújo

História do Sr. Mar


Deixa contar…
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda…
Com muita onda…

E depois?
E depois…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…

A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe…


Matilde Rosa Araújo

O quebra-cabeça de Athina


Athina ainda estava se adaptando com a nova realidade. Sabia que a decisão de se mudar era sua e que não seria fácil. Mas ao mesmo tempo não via outra saída a não ser tomar um novo rumo para conseguir digerir tudo o que lhe acontecera. Sabia que precisava de novos ares, novas pessoas ao seu redor, novos cenários para deixar os pensamentos e os sentimentos fluirem afim de reencontrar a harmonia e o equilibrio em sua vida.

A distância e o novo distraiam sua atenção, ocupando sua cabeça com outros conceitos e idéias, fazendo-lhe esquecer, mesmo que superficial e momentaneamente, dos pensamentos latejantes e dolorosos que insistiam em vir a tona para sufocá-la.

A nova rotina era perfeita para que a realidade passada se acomodasse em seu coração de forma menos agressiva e invasiva. Athina sabia que a seu tempo tudo seria assimilado e faria sentido. Assim, se inscreveu em um curso de artes e em uma oficina literária, para que extravasando sua criatividade, encontrasse as respostas necessárias para montar o gigantesco quebra-cabeça que se formara em sua mente.

Diálogos Imaginários

Definições definitivas...


Se emperrar, force. Se quebrar, precisava trocar mesmo...

Isla Negra - Casa de Neruda



Uma dos locais mais interessantes que visitei foi "La Isla Negra", que não está localizada numa ilha, mas no continente. Foi a casa de praia de  Pablo Neruda, com vista para o Pacífico, perto de Valparaiso e Viña del Mar (cerca de 100 km de Santiago, Chile). Neruda era uma figuraça e o desgraçado tinha um imenso bom gosto. Quem for ao Chile recomendo essa visita.

domingo, 1 de agosto de 2010

Por um dia de felicidade

Por um dia de felicidade
*José de Souza Martins*
Publicado em O Estado de S. Paulo
[Caderno Aliás, A Semana Revista],
Domingo, 25 de julho de 2010, p. J5.

Quase 14 mil escolas privadas e públicas do País obtiveram médias acima do equivalente a 5,0 no desempenho de seus alunos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), de 2009. Apenas algumas dezenas alcançaram nota igual ou superior a 7,0, inferior, porém, a 7,5. Na maioria, escolas privadas e caras. Tidas como o caminho seguro do êxito em exames vestibulares, suas notas estão apenas ligeiramente acima da nota mínima para aprovação em escolas superiores de países desenvolvidos, que é 7,0. Um número imenso de escolas igualmente privadas nem chegou a essa média.

Há nas médias divulgadas indicações para a compreensão dos problemas do nosso ensino médio. A primeira delas é a da problemática tendência de muitas escolas de se reduzirem à pobreza pedagógica de induzir crianças e adolescentes a passarem os melhores anos de suas vidas preparando-se para fazer o vestibular para o ensino superior. Em vez de se devotarem à preparação de seus alunos para a vida e para serem felizes, que é o que dá sentido à educação e à socialização dos imaturos, dedicam-se prioritariamente a prepará-los para um único dia de felicidade, o da divulgação dos resultados dos exames vestibulares. Inseguros quanto ao futuro dos filhos, os pais tornam-se cúmplices dessa deformação. Muitos desses alunos chegarão à universidade, até com as melhores notas de ingresso, mas não saberão nem o que fazer nela nem o que fazer com ela.

Nem se pode dizer que o melancólico êxito nessas médias mais altas expresse a apropriada formação de quem às obtém. Ficou evidente que escolas que preparam seus alunos para a reflexão criativa e para a competência interpretativa, que se mede no desempenho em redação e interpretação de textos, têm menos visibilidade na avaliação oficial. De certo modo, as notas escondem um desencontro entre ensino predominantemente de formação e ensino predominantemente de informação.

Matéria publicada em caderno especial deste jornal, aliás, mostra que as escolas da capital de São Paulo cujos alunos tiveram melhor desempenho são apenas 12% melhores do que as de desempenho menor, enquanto o preço das mensalidades é 254% maior. Os dados do Enem revelam que pagar mais não significa comprar melhor, até porque, em educação, comprar é pura ilusão.

Nem por isso ficam as escolas públicas justificadas no desempenho menor nessa avaliação nacional. Certamente, as escolas caríssimas, porque apresentam desempenho inferior ao que delas se espera, não servem de parâmetro para medir o que deveria ser a escola pública. A escola pública, entre nós, deveria ser o instrumento de uma revolução na educação, que nos trouxesse para os requisitos educacionais da sociedade moderna e seus valores referenciais, como a democracia, a liberdade, o conhecimento amplo e denso, a responsabilidade social de cada um.

Há fatores extra-escolares nos resultados das diferentes escolas. O que nelas se consegue está também relacionado com o modo de vida da família do estudante. Escolas com melhor desempenho têm majoritariamente alunos de alta classe média, cujos pais são usuários dos equipamentos culturais disponíveis nos seus respectivos ambientes. Atividades complementares às da sala de aula, no acesso aos equipamentos culturais externos à escola, como museus, teatros, salas de concertos, excursões investigativas, poderiam dar ao estudante um apoio compensatório até melhor do que obtêm na própria família os alunos melhor situados socialmente. O professor e o aluno de escolas públicas teriam que deixar de ser prisioneiros da sala de aula. Outra verificação recente mostra, ainda, que escolas de bom desempenho estão situadas em municípios menores, onde ainda há uma cultura comunitária, muito mais apreço pelo professor e maior integração entre a família e a escola. O que assegura a boa formação escolar é, pois, também o tradicionalismo de um mundo em que ainda são comunitários, e afetivos, os valores de referência da educação.

* Professor Emérito da Universidade de São Paulo.*
Dentre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008),
Sociologia da Fotografia e da Imagem (Contexto, 2008),
A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008),
O Cativeiro da Terra (Contexto, 2010).
Profa. Dra. Rita Amaral - antropóloga
Os Urbanistas - antropologia urbana
Com saudades e afeto comunitário,
Sílvia
Escultura de Hans Varella




Aflição de ser eu e não ser outra.

Aflição de não ser, amor, aquela

que muitas filhas te deu, casou donzela

e à noite se prepara e se advinha

objeto de amor, atenta e bela.


Aflição de não ser a grande ilha

que te retém e não te desespera

( A noite como uma fera se avizinha )


Aflição de ser água em meio à terra

e ter a face conturbada e móvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel.


Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.

E sendo água, amor, querer ser terra.



Hilda Hilst, Jaú (SP) - ( 1930-2004)

A criatura horrenda

Depois de muitos anos, ele adentrou no velho casarão descascado, cenário de tantas festas e de um jardim florido, cultivado com muito esmero, pela outrora dona da casa. Antes de chegar na porta, foi surpreendido por uma criatura horrenda, toda vestida de cinza que, alvoroçada, andava em círculos ao redor da casa, sem conhecer o seu lugar, espalhando sujeira por onde se movia. Ele achou estranho e começou a persegui-la. Assustada, ela imediatamente correu para os fundos do jardim, em direção ao pátio de trás da casa. Surpreendentemente, ao invés das árvores, azaléias e beijos, tão presentes em sua memória, ele encontrou presas, famintas e sedentas, sob um chão árido de terra batida, mais uma dúzia dessas estranhas e horríveis criaturas, totalmente vestidas de branco. Em homenagem ao velho senhor, decidiu alimentá-las e dar-lhes água. A coitada da criatura, ao vê-las se fartando, quis voltar para o cativeiro, e aproveitando que ele abriu a porta, entrou, aproximou-se do grupo, e tentou servir-se. Foi quando elas começaram a machucá-la, pinicando-a com força. Desesperada, ela encontrou forças para voar por cima da cerca e voltar para o jardim. Achando graça do ocorrido, ele pegou uma quantidade ainda maior de milho e deu para a pobre criatura, que para a inveja das demais passou a se banquetear sem concorrência alguma. Mais tarde, em visita ao velho senhor, que jazia deitado esperando a morte no hospital, ele ficou sabendo que ela morava no jardim, pois como tinha problema de relacionamento não podia cohabitar com as outras, e que se chamava Marylou. Havia quem dissesse que era amaldiçoada, que era o bichinho de estimação de uma bruxa malvada que passara a assombrar o casarão nos últimos anos. Até o semi-morto riu quando sua irmã, descrente com o gênero feminino, disse: - Que coisa horrível, até no mundo das galinhas elas são assim. Invejosas!

Janis

"Mercedes Benz"

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?

Oh Lord, won't you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won't you buy me a color TV ?

Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?
I'm counting on you, Lord, please don't let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?

Everybody!

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?


That's it!



Corrupção Solar


              Está tocando Adriana Calcanhoto no rádio. No quarto, meus olhos continuam apagados. Enquanto ela canta no dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir, meu corpo inteiro permanece imóvel, seco sob as cobertas e entregue aos travesseiros. Estão em paz, as células que me revestem. Tão distantes da corrupção solar do jogo de tênis de ontem e da temporada no inferno que compartilho com Rimbaud e André que nada se altera ou arde.

Continua em Contos Marginais.

Na arte de ler

Na clínica da arte de ler, nem sempre o que tem melhor visão lê melhor. Ricardo Piglia