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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A CLASSE OPERÁRIA VAI AO MUSEU

Antonio Luiz Nilo
Diretor de Criação da Objectiva Comunicação

Acaba de ser inaugurada no Masp a exposição Luzes do Norte que reúne desenhos e gravuras do Renascimento alemão, obras que pertencem ao acervo do Museu do Louvre. Sim, mas... e daí?
Muitos diriam que esse é o tipo de notícia que só interessaria à crítica especializada ou ao insignificante nicho intelectual brasileiro. Ledo engano. O Brasil se tornou, nesses últimos anos,  um dos maiores centros expositores do mundo, trazendo, com uma frequencia cada vez maior, obras de mestres como Caravaggio, Escher e Modigliani para as principais capitais do país.
O CCBB no Rio de Janeiro, por exemplo, tem hoje a 18  maior audiencia de arte do planeta, com 2,8 milhões de visitantes/ano. E a cidade já é comparada a Paris, Tóquio e Nova York no cenário artístico mundial. Capitais como São Paulo, Brasília e Porto Alegre também se destacam como promotoras de grandes exposições.
E Salvador? Em Salvador, como todos sabem, o buraco é mais embaixo. E mais profundo. Aqui, excetuando a exposição de Rodin, que para os moldes baianos teve até uma boa repercussão, as artes plásticas ainda engatinham e sujam fraldas... assim como a música, o cinema e a literatura. Alguns reagiriam falando que, na verdade, quem não consome a cultura é o povão.
Ok, sou até da opinião que o povão tem limitações em qualquer lugar do mundo, basta observar o estrondoso sucesso de Paulo Coelho na França. Mas, na Bahia, a doença parece ser mais crítica. Aqui até a classe média alta, pretenso reduto da intelectualidade, cultiva hábitos, diríamos, culturalmente pouco saudáveis. O sucesso da literatura, por exemplo, não escapa da lista dos "10 mais" de autoajuda da Veja. O cinema, pièce de résistance da gastronomia cultural baiana, só consegue engordar as bilheterias de Mercenários e Crepúsculos. A música... bom, sobre música, é melhor a gente nem falar.
Mas esqueçamos Salvador como exceção e voltemos ao tema. As exposições artísticas estão sendo cada vez mais consumidas no país. E isso se deve à boa fase da economia brasileira, à Rouanet e à ascensão da classe C. Isso mesmo, a classe C descobriu que pode, sim, ter acesso às grandes exposições artísticas e finalmente compreender esse universo até então inalcançável. O tema começa a ser explorado por um público que não pertence nem à classe realmente intelectualizada. capaz de decifrar os textos incompreensíveis dos críticos de arte, nem à classe de alto poder aquisitivo, que emburrece galopantemente.
Essa nova classe economicamente ativa pode ter um novo olhar para a arte. Um olhar autêntico. Sem  compromisso. Afinal, um quadro é para ser admirado. A técnica, o estilo ou a escola podem não ser assim tão importantes para uma apreciação legítima, honesta. Quem sabe a classe "C" não se transforme, daqui a alguns anos, na classe "Cultural" brasileira. Quem sabe?
 

domingo, 27 de junho de 2010

JOSÉ - a revista

JOSÉ, a revista de literatura, crítica & arte que durou apenas dez números, sendo que dois deles em apenas um volume. Saiu nas bancas em julho de 1976, em plena ebulição da tal da “abertura lenta e gradual” do regime do General Ernesto Geisel. Um Brasil diferente, estranho, que havia feito já as eleições de 1974, um bocado diferentes das imediatamente anteriores. Um Brasil que reiniciaria dentro em breve suas passeatas estudantis. Um Brasil que ainda estava um bocado traumatizado pela morte do Wladimir. Enfim, um Brasil sedento, desejoso de “um certo modo JOSÉ, de julgar, ler, escrever ou perguntar, repetida e compulsivamente, como no célebre poema do mesmo nome”, tal e qual dito por Gastão de Holanda no primeiro número da revista. Com dificuldades econômicas, no entanto, não conseguiu uma periodicidade regular, chegando a ter de editar dois números em um único volume (5 e 6 de dez/76) e vindo a fechar as portas, editando o número 10 em julho de 1978, dois anos após sua magnífica estréia. O número 9 saíra em dez/1977 e havia seis meses que os leitores e, principalmente, os assinantes clamavam pela continuidade. Com o falecimento de um dos grandes intelectuais e colaborador da revista, Otto Maria Carpeaux, o décimo número meio que a ele acabou dedicado. Infelizmente, pouco depois, os assinantes receberam uma singela carta informando o fim da empreitada, por absoluta falta de grana e excesso de dívidas. Não houve quem ali visse uma oportunidade editorial, uma janela de marqueting, um veículo moderno ou um nicho de mercado. Era um outro país.