quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sinais de fumaça


De Mario Benedetti

Quando te encontras no fio do escuro
e lhe prestas honras dos teus ossos
quando a alma pura do ócio
pede socorro ao universo inútil
quando sobe e desces da dor
mostrando cicatrizes de outros tempos
quando na tua vidraça está   outono
inda não te despelas/ tudo é nada/
são sinais de fumaça/ apenas isso

teu olhar de viagem ou de desertos
se torna manancial indecifrável
e o silênio/ teu medo mais valente/
se vai com os golfinhos dessa noite/
ou com os passarinhos da aurora/
de tudo ficam sinais/ pistas/ rastros
marcas/ indícios/ signos/ aparências
mas não te preocupes/ tudo é nada
são sinais de fumaça/ apenas isso

no entanto nessas chaves se condensa
uma velha doçura atormentada
o voo de umas folhas que passaram
a nuvem que é de âmbar ou algodão
o amor que carece de palavras
os barros da lembrança/ a luxúria/
ou seja que os signos pelo ar
são sinais de fumaça/ mas a fumaça
leva consigo um coração de fogo

6 comentários:

  1. Ah, eu gostei muito disso! Apropriei-me desse "medo mais valente" e fiquei pensando no qual seria o meu.

    Beijos, Lelena.

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    1. Oi, Tania.
      A gente sabe qual é. É mais fácil que encontrar o Wally.
      beijoss

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  2. De fato, Lena, a linguagem do Mário é arrebatadora.
    Os dois poemas escolhidos por você são fortíssimos. A travessia da linguagem exige este vigor e o Benedetti nos mostra o quanto ele é superlativo.
    Ainda não vi o Medianeiras, mas o direi tão logo eu o veja.
    Bjss,
    José Carlos

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  3. José Carlos,
    Eu gosto demais do Benedetti.
    Me sinto no chão dele.
    Beijo
    O Medianeiras é muito simples e bonito.

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