quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Matéria de poesia



 
 

1. Todas as coisas cujos valores podem ser disputados
 no cuspe à distância servem para poesia.
O homem que possui um pente e uma árvore serve para poesia
Terreno de 10x20, sujo de mato – os que nele gorjeiam:
  detritos semoventes, latas servem para poesia
Um chevrolé gosmento coleção de besouros abstêmios
o bule de Braque sem boca são bons para poesia
As coisas que não levam a nada têm grande importância
cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia ou na geral ...
As coisas que não pretendem, como por exemplo:
 pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado como,
 por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia
As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos – têm muita importância para os pulmões da poesia
Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita,
 pisa e mija em cima, serve para poesia .
 
MANOEL DE BARROS..

3 comentários:

  1. Só mesmo Manoel de Barros para dizer isso tão poeticamente lindo!

    Abraço do Pedra

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  2. Como não se render à poesia de Manoel de Barros? Belo poema!

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