domingo, 24 de abril de 2011

O imponderável

A velhice não lhe caía bem. Sempre fora cheia de vida. Comunicativa, facilmente fazias novas amizades, adorava viajar, dançar, namorar. Sim, ela tivera uma vida social e amorosa bem agitada. Mas os anos passaram, os pretendentes ficaram escassos, e ela começou a se sentir solitária. Leitura assídua da coluna de obituários, com freqüência encontrava um ex-namorado, e ela logo dizia: - Mais um que “mórrreuu”. Solidária, não deixava jamais de comparecer ao velório e estender sua mão amiga. O tempo continuou a passar, e depois da virada do milênio, sua vida amorosa caiu num marasmo incrível. Que década pavorosa costumava dizer. Nenhuma paquera. E foi assim que esse ser cheio de alegria, começou a se entristecer. Não havia um motivo específico, pois a vida lhe fora generosa. O sucesso profissional de seus filhos lhe enchia de orgulho, tinha um cantinho confortável e charmoso, e uma boa saúde. Todavia, seu mundo tornara-se cinza, pois nele não havia amor. Costumava dizer que lhe faltava a esperança em um “a venir”. Que, agora, seu único companheiro era o Sr. Tédio, sempre presente nas noites insones. Um certo dia, no entanto, o imponderável chegou, e ela começou a sufocar. Corajosa, decidiu que iria agüentar firme, pois não queria incomodar a família e amigos. Depois de um dia inteiro com dificuldades para respirar, finalmente chamou a diarista, que apavorada telefonou para o filho da patroa. O modo carinhoso como ele a levou ao hospital, lhe encheu de orgulho ("Meu filho me levou incontinente!"). Na emergência, fizeram um raio x e a má notícia chegou. Ela tinha um nódulo no pulmão. Inteligente, ela logo entendeu o que acontecia, e com um falso otimismo logo declarou que não haveria de ser nada. Que quando fizesse os exames mais profundos, marcados para acontecer em uma semana, ele haveria de ser benigno. Voltou para casa, iniciou o tratamento com pesados medicamentos e parou de fumar. Mesmo assim, foi sentindo-se cada vez mais fraca. Embora a respiração tivesse voltado a normalidade, ficava dia a dia mais abatida. A doença avançava. Não conseguia nem mais sair de casa ou lavar a cabeça sozinha. Vaidosíssima, ela deixou até de comparecer ao salão de beleza em que havia marcado uma hora para pintar as madeixas. Afetiva, ela sabia a importância da palavra amizade. Antes que o inevitável acontecesse, precisava despedir-se de suas amigas sinceras e leais. Assim, uma a uma, chamou suas amigas que foram visitá-las. Levaram-lhe doces, revistas, flores, sopas, doce de figo, ambrosia, doce de pera, pratinhos de comida caseira, guloseimas em geral. Por sua vez, ela passou a brindá-las com pequenos objetos pessoais, para que elas tivessem ao menos uma recordação sua. As ligações foram inúmeras, e a choradeira entre as amigas imensas. Em pouco tempo a gravidade da sua doença era assunto na cidade. Muito fraca, declarava a todas com a voz embargada e com tom solene, que não tinha medo da morte, o que ela não queria era sofrer. Foram tantas as homenagens, que era possível perceber que ela conseguia até sentir um certo prazer, ainda que soubesse estar com os dias contados. Dois dias antes da data marcada para o exame fatídico, seu corpo piorou. Começou a sentir uma dor nas pernas. Perguntou por telefone ao sobrinho hipocondríaco o que poderia ser. Ele lhe falou que é muito comum em pessoas com câncer, a ocorrência de tromboses, e que ela deveria procurar imediatamente um médico. Ela olhou para seus pés e percebeu que suas veias estavam saltadas. Só lhe faltava essa. Antes de morrer ainda teria que amputar sua perna. Que triste fim seria o seu. Já de início perderia a perna para a trombose, e seus cabelos para a quimioterapia. Que vida cruel. Seus dois maiores atributos físicos seriam destroçados. Isso não podia ser verdade, que vida nojenta, que revolta. O dia do exame chegou e o pânico surgiu. Não que ela tivesse medo do resultado, pois era inteligente e já o sabia. O problema é que ela era claustrofóbica e sufocaria no tubo da máquina de ressonância. Morreria no exame. Depois de muito se agitar, o filho finalmente conseguiu acalmá-la e ela entrou na máquina. Foram os piores momentos da sua vida. Ao sair da máquina, abraçou-se ao filho e desatou a chorar. Uma hora depois, o médico lhe chamou e informou que ela não tinha nada. Que fora uma crise respiratória provocada por um resfriado, e que seu nódulo era totalmente benigno. - Ora doutor, como pode ser só isso? Estou quase morrendo. O medico lhe respondeu que não, que na realidade ela estava muito bem. Um sucesso para sua idade. Ela não quis ser indelicada, e encerrou o assunto. Era obvio que ele não estava vendo direito. Procuraria um outro médico que confirmasse seu diagnóstico. Por sorte, ao sair do hospital encontrou um dos maiores pneumologistas do Brasil que, por coincidência, era seu parente. Ele olhou os exames e declarou em tom solene que ela estava ótima. Que foi um presente de páscoa para ele encontrá-la tão bem. O filho entre alegre pela mãe estar bem, e irritado pelo drama todo, levou-a para jantar e depois para casa. Ela ainda não se conformara, como poderia não ter nada? Resolveu procurar um outro médico que encontrasse uma justificativa para seu mal estar, pois as amigas todas iriam ligar e ela teria que dar uma explicação. Passada uma semana, ela não ouviu uma terceira opinião e está bem novamente. Seu cabelo está pintado, suas pernas pararam de doer, a força e o apetite voltaram, mas na realidade ela está profundamente triste. As pessoas rapidamente esqueceram-se dela, e ela passa os dias a ler os jornais e a assistir televisão. Sente-se solitária, esquecida, a vida está cinza novamente, pensa que seria melhor que o imponderável tivesse realmente se apresentado.

2 comentários:

  1. Muito elucidativo esse teu conto, Terráqueo.
    De fato, a solidão quando indesejada pode tornar-se a provedora de todas as doenças, principalmente depois de anos de existência.
    Gosto muito da forma como escreves, a narrativa
    flui tão bem que lemos de um fôlego só!
    PARABÉNS!

    beijo

    ResponderExcluir