segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A moça

Arruma os livros, ajeita as flores do vaso, enfileira feito soldados a coleção de bonecos vindos dos quatro cantos redondos do mundo. 
Tira o pó dos porta-retratos, areja os álbuns e digitaliza imagens enquanto reduz a 3x4 as cenas do passado. Festas, mares, vulcões, amigos, copos de leite, de cólera e de vinho. 
Prende os cabelos em um nó, estica os braços pra cima, alonga os músculos, dá a função por encerrada e caminha até a cozinha.
Guarda as toalhas, os guardanapos, arranha um dedo com uma faca e, sem querer, derruba o par de xícaras do primeiro café bebido entre as paredes coloridas da casa antiga.
Vai para o quarto, senta na cama, empurra as pilhas de roupas um pouco pro lado e acaricia a colcha perfumada de alecrim. 
Acaricia a colcha, as coxas e o contorno dos seios. 
Sente o suor, o transbordamento e as pulsões do corpo. Sente a mente diluindo a poeira incrustada de rancores. 
Sente a mente, a matéria e o abandono deixando a memória, deixando-a voltar-se para o futuro em direção à calma e ao descanso de um merecido travesseiro.

8 comentários:

  1. Respostas
    1. obrigada, Ana! Gosto do sensorial. Gosto de gente sensorial :)

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  2. A vida passada a limpo sem estrangulamentos em um texto leve rumo às delicadas superfícies do porvir com a a assinatura indelével de Helena Terra.
    Beijos,

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    1. grande beijo e muitas saudades, José Carlos :)

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  3. Boa espécie de meditação!!!
    Beijos, LelenaHelena

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