quinta-feira, 10 de abril de 2014

Das utopias


 
 
Se as coisas são inatingíveis ora,
Não é motivo para não querê-las
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas.
 
 
Mário Quintana, em Espelho Mágico
 
 


sábado, 29 de março de 2014

POSSE





Nos compêndios escolares não se falava da pequena ilha
solitária e perdida nos mares do Sul.
Não passavam por lá os barcos dos brancos
e o povo seguia a sua própria lei
que no entanto não estava escrita em livro algum.
Homens e mulheres viviam nus e amavam-se sem complicações
e comiam peixes que pescavam em canoas feitas com troncos de árvores
e carne de animais caçados com setas certeiras.
 
Atletas e guerreiros dançavam ao som de búzios e tambores
e as bailadeiras ondeavam contorcidos ritmos lentos
na toada triste de instrumentos de uma só corda.
E tinham seus deuses, seus santos, seus sacerdotes, seus feiticeiros,
e moravam em cubatas cobertas com palmas das palmeiras.
 
Mas do outro lado da terra
um dia
senhores de cara grave assentaram-se à volta de uma mesa com mapas em frente,
 
falando de guerras,
de bases para aviões,
de pontos estratégicos
.
Então veio à baila a ilha solitária perdida nos mares do Sul...
Semanas depois um barco de ferro chegou e fundeou
nas águas tranquilas da baía...
E um escaler veio para terra com homens loiros vestidos de branco,
trazendo, entre outras coisas,
uma bandeira para a primeira afirmação imperial,
um chicote para o primeiro castigo,
um barril de pólvora para o primeiro massacre
e um outro de álcool para o primeiro comércio!
 
Jorge Barbosa (Cabo Verde)
 

sábado, 22 de março de 2014

Vibrações

J.R.Duran
 


 

Vibrar, viver.
 Vibra o abismo etéreo à música das esferas;
 vibra a convulsão do verme,
 no segredo subterrâneo dos túmulos.
 Vive a luz, vive o perfume,
 vive o som, vive a putrefação.
 Vivem à semelhança os ânimos.
 A harpa do sentimento canta no peito,
 ora o entusiasmo, um hino,
 ora o adágio oscilante da cisma.
 A cada nota, uma cor,
 tal qual nas vibrações da luz.
O conjunto é a sinfonia das paixões.
 Eleva-se a gradação cromática
 até à suprema intensidade rutilante;
 baixa à profunda e escura vibração das elegias.
 Sonoridade, colorido: eis o sentimento.
 Daí o simbolismo popular das cores.
 
  Raul Pompéia,  Angra dos Reis (RJ) 1863-1895 .

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sino rachado



Lisboa, 27 de outubro de 2009
Olá!
Como nos grandes restaurantes, as cozinhas nas caves, a sala dos banquetes instalada no andar por cima – não era assim? Que honra trabalhar na produção do espectáculo de grandes banquetes!
Estou a referir-me ao texto que li em seu blog, à sua qualidade de revisora, agora arrependida.
Quanto à queda na qualidade de ghost-writer... que mal fez você a Deus? Isso não é trabalho em caves: é trabalho em canos de esgoto!
Mas foi por pouco tempo, diz você.
Conquistou um lugar ao sol?
Está respirando ar puro agora?
Atenciosamente,
Bernardo Sinval de Santantão

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Palavra

Dizer a última palavra sobre o assunto é
menosprezar a potencialidade do assunto.
 
***
 
A palavra e o ato vivem  em conflito,
e este geralmente vence.
 
***
 
As palavras fogem quando precisamos delas
e sobram quando não pretendemos usá-las.
 
***
 
O poeta lança a palavra que ninguém usará,
e orgulha-se disto.
 
Carlos Drummond de Andrade, em  O Avesso das Coisas


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Manuel Tolentino de Almeida, A uma Velha presumida


SONETO XXVII.               
Debalde sobre a face encarquilhada
Pendendo louros bugres emprestados,
Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados,
Em carmins enganosos confiada.

Postiça formosura, em vão comprada,
Não torna atraz os annos apressados:
Nem alvos dentes de marfim talhados,
Tornão em nova a tremula queixada.

De ti no mesmo tempo que do Gama
Cantou mil bens a Deosa Trombeteira,
A que os baixos Poetas chamão Fama:

Porém sempre ficaste em boa esteira;
Porque, se já não prestas para dama,
Inda serves mui bem como terceira.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Karen Dalton


Didn't you know 
You can't make it without ever even trying

Hilda Hilst

I
 
 
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses...
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, sem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tempo espero
Que teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu
Pastor e nauta.
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
 
Em Dez chamamentos ao amigo