sexta-feira, 17 de agosto de 2012

As nuvens


As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são os gestos brancos da cantora muda;
são estátuas em voo
à beira de um mar;
a fauna e a flora leves
de países ao vento;
são o olho pintado
escorrendo imóvel;
e a mulher que se debruça
nas varandas do sono;
são a morte(a espera da)atrás dos olhos fechados;
a medicina branca!
Nossos dias brancos.
João Cabral de Melo Neto

Um formato de pássaro


"Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro."
Manoel de Barros

Fernando Pessoa(s) !



    Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
    Mas, quando dispertei da confusão,
    Vi que esta vida aqui e este universo
    Não são mais claros do que os sonhos sãoObscura luz paira onde estou converso
    A esta realidade da ilusão
    Se fecho os olhos, sou de novo imerso
    Naquelas sombras que há na escuridão.
    Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
    É a mesma mistura de entre-seres
    Ou na noite, ou ao dia transferida.
    Nada é real, nada em seus vãos moveres
    Pertence a uma forma definida,
    Rastro visto de coisa só ouvida.


    Fernando Pessoa, 28-9-1933.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

terça-feira, 14 de agosto de 2012

(Dos sonhos VII): Pele escamosa e poesia sibilante

 
 
Primeiro vieram as dúvidas, trêmulas lamparinas a iluminar o rosto da Verdade. A Dúvida é um vento que levanta os finos véus através dos quais enxergamos a existência. Prece libertadora bradada aos quatro cantos do mundo: “Que a Dúvida possa me levar aos inúmeros caminhos que ainda não percorri, até que descubra, enfim, que toda a vida é apenas ilusão”.

E, assim, intensificou-se o vento, derrubando crenças e credos, deixando à mostra verdades que nunca me ensinaram e que contradiziam os ensinamentos de todos os mestres eventuais ao longo do caminho.

Epifanias. Coisas que nunca me disseram incendiaram minha mente com o seu clarão, e eu era então portadora do fogo divino. Como mulher, sabia-me agora guardiã de segredos ocultos, seculares. Vestida no corpo de plácidas anciãs, aprendi a ser guia, a fazer cessar a chuva, abrir caminhos entre as nuvens, a abdicar da condição de costela e a fazer-me inteira, nascida de mim mesma.

Depois veio a noite e o sonho. Uma grande serpente fixou seus olhos rasgados nos meus. Quem era ela e o que queria de mim, eu ainda não sabia. Diminuta, diante dela, esperei. Nada me disse e eu era puro assombro paralisado.

Não era a primeira vez que ela viera. No primeiro sonho, anos atrás, ela tomava, inteira, a cabana coberta de palha onde eu dormia. Assustou-me por ser tão infinitamente maior que eu. Daquela vez deixou silêncio, mudez, fagulhas de luz que reaçalvam as trevas, sem, no entanto desvendá-la.

Agora era diferente. Eu já me dera conta da cauda que eu escondia sob o delicado vestido azul. Eu já conhecia minhas retinas ardendo na escuridão da madrugada. Decifrava os augúrios dos bichos. Meu pranto abafado pelo travesseiro era uivo.

Fiz longo caminho para reencontrá-la. Andei para trás. Troquei o olfato pelo faro. Defrontei-me com minha pele escamosa e arrisquei a poesia sibilante. Sabia que o meu veneno era também antídoto.

A serpente mostrou-se a mim como o velho Deus primário encontrado na origem de todas as cosmogêneses, antes que as religiões do espírito a destronassem. Sua mensagem é revitalizadora: já não necessito da moral simplificadora do Bem e do Mal, que reprime no inconsciente as aspirações e inspirações mais profundas do ser. O velho Deus primário mostrou-me sua face. Agora posso entregar-me à Noite sem medo.
 
Mais sonhos no Roxo-violeta:

domingo, 12 de agosto de 2012

Num exercício de cartas


Pelo canto das palavras
uma fileira de olhos desfila
apesar do que dizem
a história
ainda sem fim.

Pelo canto das palavras
uma letra entra dentro da outra
nos pingos de um músculo
blindado
como um céu
afastado do sul.

Pelo canto das palavras
uma moça joga paciência
num exercício de cartas
embaralhadas de nuvens
navalhadas de amor.

sábado, 11 de agosto de 2012

Mensagem





Há que haver os loucos,
os alucinados, os videntes,
cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver
sobre este mundo visível e as verdades consagradas,
e cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações
das águas eternas e inaudíveis
que são o destino de todos os barcos.

Há que haver os que despertam à meia-noite
angustiados,
e põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas
como uns loucos - não o sendo -
e exprimem numa linguagem que não é a sua,
nem a de seus pais,
nem a de qualquer outro povo da terra,
estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas,
e depois serenam como o mar após a tempestade
e não sabem mais recordar aquilo que disseram,
e choram quando lhes mostram seus puros êxtases,
e sentem-se miseráveis despertados.

Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim,
pálidas, sinuosas, quase fluidas,
se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas
e inconscientemente, totalmente a cegas,
gravem para a eternidade, como num frio rochedo,
palavras de fogo e de sangue,
ânsias, ódios, espantosos desesperos,
para depois se admirarem eles próprios daquilo que escreveram,
como sonâmbulos que, de repente e a sós,
despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas
e não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas paragens,
tão perto dos deuses.

Há que haver os que abandonam o lar, pátria, amigos, cidade,
velhos hábitos e confortos seculares,
e sem levar nada de seu,
apenas sua consciência desarvorada e lúcida,
põem-se a perseguir novas e estranhas verdades,
como que hipnotizados,
e não mais repousam e dormem, em sua peregrinação,
noite após noite, sol após sol,
até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as suas chagas
e vejam enfim mais nítido dentro da própria alma,
e pela primeira vez se reconheçam em toda a sua nudez,
como o amante à amante no momento supremo da posse.
Walter Campos de Carvalho, Uberaba (MG) - 1916-1998

Corpo ou Espelho

Provavelmente serei eu
quase minha
aquela sombra embaciada
no espelho
mar inteiro de sete espinhos
em concha
a coroa
manchada a radiografia do tempo
onde eu
toco, traço, tramo
o todo cada dia em cansaço.

E aparentemente, meu
quase meu
tecido nublado no dia, pano cru
áspero e opaco,
lugar velho
e quebraluz que no corpo não me condiz,
que se apega e aparenta
onde eu
toco, traço e engano
todo o cada dia, um traço
o tanto aparente eclipse.

E provavelmente serei eu
a quase toda a manhã
que me encomendo ao mapa
das transparência
dos voos da ave
que trago no meu corpo, no canto que migratório
se faz céu na minha pele
onde eu
toco, traço o tempo
desfeito sombra no espelho
no todo o cada dia,
o cada lugar meu
onde nunca serei raiz.

E aparentemente, esse espelho
essa sombra,
já cansaço, corpo gasto, braço de rio
essa solta corrente, devagar

o pouco lugar que me reclama.
Poema de Leonardo B.
http://abarcadosamantes.blogspot.pt/
Imagem: Katia Chausheva
Música: Flor da noite
Autoria:Celso Fonseca e Ronaldo Bastos
Por: Nana Caymmi
O mais que possa, o mais que saiba, incondicionalmente...
Um 'mimo' ao Poeta Pássaro Leonardo B. Minha homenagem
 Com amor e carinho,
Sílvia Costardi

O poema


O que será o poema
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?
Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?
Que será o poema:
uma voz que clama?
uma luz que emana?
Ou a dor que algema?
Ivan Junqueira, Rio de Janeiro (1934 - )

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Do que é maior

intento que o silêncio
seja maior que nós
que qualquer palavra
seja demasiadamente mínima
para preencher este espaço
de tanta distância
então, revolvo minha sede
nada nem ninguém
nos salvará

a não ser isso:
um silêncio íntimo
e infinito que pulsa
na casa do coração

(Luiza Maciel Nogueira)

O desenho é uma homenagem para um grande filósofo Gaston Bachelard, que já dizia que a casa é um "estado de alma".

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

E por fim... "Não é Pecado"!


Com os níveis de ansiedade controlados o melhor que pudemos e soubemos, por fim divulgamos o trabalho, os mistérios a que nos dedicámos, eu e o João Ricardo, durante uma semana intensa, vivida, gratificante em torno dum desafio lançado pela Anamar, há umas semanas, em que não era mais nem menos que a partir do seu novo single “Não é Pecado” cada um dos participantes realizasse um videoclip a partir da Master Final, que a cantora cedeu para o efeito...

 




 
Quase naturalmente, hesitei muito em aventurar-me numa área que desconheço por inteiro, mas com o impulso, com a empatia do meu garoto, com o seu entusiasmo, “arregaçámos as mangas” e fizemos, dedicámo-nos, entregámos o melhor de nós a cada instante na realização do clip; dos momentos de filmagem à montagem do filme, dos visionamentos dos filmes da Maya Deren para “retirar” quatro segundos de filme à aventura que foi filmar a Tânia, sem que ela soubesse rigorosamente nada do que se estava a passar, de toda a entrega e empenho que colocámos, fazendo destes simples amadores por momentos sentirem-se “realizadores à séria”, tudo isso só foi possível pelos astros e… pela canção, pelo momento único que é o regresso da Anamar, artista que trago “entre os meus”, desde os tempos em que a Ama Romanta representava (e ainda representa!) o que de melhor se fez em Portugal… e a Anamar estará sempre ligada, nesta modesta opinião, ao momento em que a arte neste país se superou, foi muito além das colagens à efémera arte dos tops… mas isso são outras questões!...

A Anamar está de regresso, no melhor regresso que poderia acontecer, com uma canção (para já!) que se entranha, sem estranhar sequer… e nós, eu e o João, sentimos um especial carinho, um especial orgulho (sem ponta de pecado!) em estarmos associados, também, a este momento; o nosso, é um trabalho infinitamente pequeno diante do que merece este momento, esta canção… mas a esse entregámos, incondicionalmente, tudo… até uma lágrima final, e até porque não é pecado!


Tão gratos por este momento, único, singular, tão especial… somos e entregamo-nos incondicionalmente, nesse


Imenso Abraço, Anamar!


E tão Grato, João, pelo ser especial que és… e por tudo o que faço e farei por ti; estive neste projecto, pela tua forma de seres especial… e afinal foi muito mais além; fiquei e fico nesta arte que não si dominar, por completo!


[breve aparte: deixo um abraço duplamente especial à Anamar pelo momento inexplicável que senti, ao escutar “de coração aberto”, depois dumas cento e muitas vezes a canção no MP4, e aquando da montagem do vídeo, como um riscar de fósforo inexplicável, senti um “arrepio na espinha”… pois que ainda não me tinha apercebido que, verso por verso, o texto, o poema “Não é Pecado”, poderia ter sido escrito… para mim!... e que num momento particularmente vulnerável, fez-me sentir… especial!


Tão Grato nesse Imenso,

Imenso Abraço, Anamar!]