Arruma os livros, ajeita as flores do vaso, enfileira feito
soldados a coleção de bonecos vindos dos quatro cantos redondos do mundo.
Tira
o pó dos porta-retratos, areja os álbuns e digitaliza imagens enquanto reduz a
3x4 as cenas do passado. Festas, mares, vulcões, amigos, copos de leite, de
cólera e de vinho.
Prende os cabelos em um nó, estica os braços pra cima, alonga
os músculos, dá a função por encerrada e caminha até a cozinha.
Guarda as toalhas,
os guardanapos, arranha um dedo com uma faca e, sem querer, derruba o par de
xícaras do primeiro café bebido entre as paredes coloridas da casa antiga.
Vai para o quarto, senta na cama, empurra as pilhas de roupas
um pouco pro lado e acaricia a colcha perfumada de alecrim.
Acaricia a colcha, as
coxas e o contorno dos seios.
Sente o suor, o transbordamento e as pulsões do
corpo. Sente a mente diluindo a poeira incrustada de rancores.
Sente a mente, a matéria e o abandono deixando a memória, deixando-a voltar-se para o futuro em direção à calma e ao descanso de um merecido travesseiro.






