domingo, 23 de setembro de 2012

Dúvida


 

Eu corro atrás da memória
  De certas coisas passadas
  Como de um conto de fadas,
  De uma velha, velha história...
  Tão longe do que hoje sou
  Que nem sei se quem recorda
  Foi aquele que as passou,
  Ou se apenas as sonhou
E agora, súbito, acorda.



  Francisco Bugalho,  em  "Canções de Entre Céu e Terra" - Portugal - 1905-1949

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O sexo de Tanatos



E foi numa dessas noites sem estrelas que ela voltou para me seduzir mais uma vez. No meu íntimo, eu sabia que ela voltaria. Da última vez que nos despedimos ela balbuciou umas palavras que eram o prenúncio de seu retorno, "Não te apegues a ninguém. Pessoas são perecíveis, de instintos voluptuosos e sentimentos voláteis". Eu sabia que tinha razão, e isso era o que mais me doía. E era isso que mais me apartava de Eros. Se fosse esse o seu intuito, ela teria conseguido o que queria. Esse conúbio era carmicamente repelido. E pra não me deixar só,  fez questão de voltar. A placenta grotesca voltava para devorar o embrião abortado que eu era. Aquele líquido amniótico ácido.  Só eu sabia que gosto amargo tinha. Só eu sabia o  quanto corroera minhas entranhas. Seria um tipo de vil seiva extraída de plantas venenosas? Ademais, só me lembrei do divino Dante:
 
Estirpe fui dessa maligna planta,
Que o solo esteriliza à cristandade:
Se frutos bons produz, fato é que espanta.
 
E só colhia frutos podres. Proibidos? Talvez. Mas isso não importava. Proibidos ou não, ninguém os queria. Ninguém quer a polpa imunda, o sumo turvo. Mas pra mim, era estranhamente atraente e a meus olhos pareciam suculentos. Mas meu pecado foi outro. Meu pecado foi ter sido planta, não fruto. Eu não tive culpa do resultado. Ou pelo menos fingia pra me tranquilizar. Colhí então um deles. Só pra experimentar. As criaturas abissais que na maçã viviam deslizavam pelos meus dentes e me tiravam a voz. Eu precisava me fazer ouvir. Um grito gutural, de prazer e de agonia, um eco ancestral.. Mas isso nada mais é do  que a dor e suas reminiscências (que os outros mortais chamam gozo). Ela estava a caminho. Voltava por uma estrada de terra, escura e tortuosa. Talvez viesse de uma gruta longínqua., minério perdido de uma estalactite imponente, um monumento esculpido pela terra em homenagem a Tanatos.
Por mais que eu quisesse me aproximar de Eros, nunca tive êxito. Pra mim ele era mais um desses semblantes desconhecidos e embaçados com que a gente se depara por aí afora, ou algum estranho numa fila que puxa conversa com você sobre o tempo. E você nem se importa se está chovendo ou fazendo sol. Você não liga pro tempo. Você é o tempo. Já Tanatos, não. Tanatos me era muito familiar. Tínhamos uma intimidade úmida, palpável, cálida,. E ela chegou, enfim, como havia previsto. Antes de começar a me seduzir, advertiu: "Prometo, esta é a última vez. Prepara-te". Com essas palavras tirou a manta que a envolvia. Os feixes de luz do luar que entravam por uma fresta na janela faziam como que uma  renda, um colar nupcial para seus seios. Seios ávidos por leite. Seios ávidos por vida. O leite fermentou e a vida estava gasta; envolveu-me em seus braços, lânguida como costumava ser. Bem que ela me advertiu que era a última vez. Então partí numa só torrente. Num único orgasmo, uma única marcha fúnebre. Afinal como não havia uma morte múltipla, também não haveria de ter orgasmos múltiplos. Golfadas de luto prematuro me vinham à garganta. Despencava, então,  a máscara. Finalmente ví sua verdadeira face, E ela me levou -  a morte
 
 
 
Giulia Rosa, nasceu em Niterói(RJ) e escreveu esse conto aos 17 anos. Extraído de Sexo para iniciantes - Editora Faces - Berçário de Talentos.




quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Capítulo aberto



Para Guilherme

Morte.
Capítulo aberto. 
Indefinido.
Escrita criativa e definitiva.
Morte.
Norte e rotina. 
Toque, movimento e labirinto.
Morte.
Azar e sorte.
Barulho e despedida.
Dor fervida
em ferida.

"Un, dos, tres, cuatro:
¡Tierra, Cielo!
Cinco, seis:
¡Paraíso, Infierno!
Siete, ocho, nueve, diez:
Hay que saber mover los pies."




Noite







                                                             A noite vem curar da luz do dia
                                                             antigas discordâncias.

[.......................]


Você não precisa saber de nada. Feche a boca e abra os olhos:
o que é mesmo uma estrela?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

E quando voltei



E quando voltei a nós
não havia tona nem marola
só as notas afinadas
de uma solidão movediça e fina
como a areia
o pó da escrita
o pó da fé. 
E quando voltei a mim
não havia ar nem nós
só o desespero
sob as bolhas dos meus fones
delirantes e perdidos.



Perfeição

sábado, 15 de setembro de 2012


O Sol é do tamanho de um pé humano.
Heráclito, de Éfeso (atual Turquia), filósofo pré-socrático, considerado o "pai da dialética".
Segundo ele, tudo flui enquanto resultado da tensão contínua entre os opostos em luta, tudo se move, exceto o próprio movimento.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Wishes

Sobre a escova e a dúvida

[ ]
Ando a ver. O caracol sai ao arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendí o bocejo e o por-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza.
João Guimarães Rosa, em Tutameia

Um poema de Paul Valéry


Tu não percebes, mas o teu corpo
permanece
Tu nada sentes, mas o teu corpo se
transforma
Tu falas e o teu corpo faz
Tu vês, ele não vê
Tu caminhas e ele marca passo
Tu saboreias e ele só digere
Tu te ris enquanto ele sorri
Tu adormeces e ele cai no sono
Ele não descobre que mudaste
em teu pensar
Tu não descobres a mudança
funda de suas forças