quarta-feira, 26 de outubro de 2011

E CORRER, PODE ?

A peça publicitária em que Gisele Bündchen aparecia em lingerie, tentando obter a compreensão do marido - parece mentira -, ocupou tanto espaço dos órgãos responsáveis por considerações reguladoras de um sistema pretensa e politicamente correto, se é que podemos dizer assim. Foi mais um ato da ineficiência dessas repartições que não têm mais nada o que fazer. Na prática, terminou por impedir a exposição de alguma coisa que ao menos faria bem aos olhos e à alma, muito mais que tantas obras de arte que andam por aí, e nem de perto comparáveis à obra-prima-viva que é a Gisele, ainda mais em lingerie. O ato faz parte dessas investidas da burocracia brasileira que, mergulhada num mundo de faz-de-conta, deixa de ver – e de fazer - o que realmente interessa. Em matéria de publicidade, pouco se fala sobre peças que contêm forte estímulo ao consumo de álcool, ao mesmo tempo em que de outro lado institutos e fundações procuram desesperadamente coibir os acidentes causados pela bebida. Indo por aí, deparamos com outro assunto afim, sobre o qual nada se fala: a publicidade de veículos, em geral grandes e potentes camionetes com seus donos que dirigem perigosamente e que por vezes falam no celular ao volante. Quem me chamou a atenção sobre isso foi meu irmão mais novo, que perdeu sua primeira filha num acidente de carro. Subliminarmente eu já concordava com a idéia, mas passando a observar melhor, percebi que na prática todas as peças publicitárias sobre veículos contêm imagens de camionetes que saltam montanhas e que transpõem obstáculos inimagináveis. Ou de automóveis que andam perigosamente a toda velocidade dentro da cidade. E de motoristas que fazem “pega” em subsolos de edifícios. E de outros que estacionam em alta velocidade dando um bem sucedido cavalo-de-pau. Tudo isso como nos filmes de ação a em que polícia corre atrás do bandido. Alguma imagem de um automóvel em baixa velocidade, passeando pelo campo, por exemplo, com um casal observando a natureza antes do piquenique que vai fazer, algo assim contemplativo como a Gisele Bündchen em lingerie, alguma coisa que realmente faça bem aos olhos e à alma, nem pensar. Acho que já é tempo de nos ocuparmos deste assunto, quando mais não seja para, a exemplo das peças publicitárias apregoando o charme do drink do final do expediente, pelo menos aplicarmos em correspondência alguns dizeres ao final da propaganda, como: “Se for dirigir, não corra”. Será mais uma hipocrisia, isso sabemos, mas pelo menos poderemos dizer, como no caso da bebida alcoólica, que houve tanta preocupação sobre este assunto quanto sobre o da Gisele em lingerie.

Para Quem Tem Filhos com 9,10,11,12....


Esse é um assunto, digamos assim, recorrente. É claro que existem exceções. Podemos chamar isso de "choque de gerações"?  Na minha épóca eu gostava de jogar botão. A gurizada se reunia, fazia campeonato. Era muito legal. Depois do futebol de mesa corriamos para o campo bater bola. A gente se sujava, se embarrava, voltava um trapo para casa.  Hoje, segundo minha visão míope,  nada disso acontece. Sim, os tempos são outros. E que bom que são outros. Mas será que é só isso?

Uma dor no joelho

Há perguntas simples e difíceis a que não sei, se sei responder convenientemente ou, assertivamente, como diz a psicologia. A psicologia diz tão bem, coisas que eu sei tão mal. Adiante.


Mas há uma pergunta em especial que me deixa angustiada desde pequena. E como ficava angustiada, mentia. A minha mãe perguntava

- ainda te dói? E eu dizia. Não. Mas doía. Imenso. Talvez tenha sido assim que aprendi a suportar a dor. Fazia qualquer coisa para não ir ao médico. Ainda hoje. Menos. Mas a pergunta atravessou os tempos. E quando o Senhor Doutor me fixa e atira, solene

- E a dor? Como é a dor?

Cava-se um silêncio tamanho à minha volta, que não me sai nada. Explicar uma dor, é uma coisa tremenda. Dói-me sempre mais do que a dor. Sei que sofro de défice de objectividade. Nunca sei explicar cirurgicamente.

Expectante, o médico arremessa frases curtas, contra a minha incapacidade de balbuciar analogias. E eu, digo que sim ou que não, conforme. Quase sempre inconformada com as hipóteses que me dá. Até porque me distraem da minha dor.

- Assim, uma dor como se fosse uma lâmina?

E eu a pensar – sim - que eu não sou capaz de dizer nada, mas penso - uma lâmina de metal, uma lâmina de sílex? Lá fico eu enfiada entre minutos de pensamentos estapafúrdios que me ocorrem em ocasiões impróprias e sérias.

Enquanto não lhe respondo, o Senhor Doutor, vai falando: as pessoas têm maior ou menor capacidade para aguentar a dor. A dor é um sinal do corpo. Um alerta. Por ínfima que seja, devemos prestar-lhe atenção. Pode não ser nada. Mas também pode ser tudo. Há pessoas que não ligam aos sinais, ignoram-nos, não lhes dão a importância que de facto tem. Há pessoas que os minimizam. Fazem de conta que não sentem dor. Até que ela se vá embora. É uma estratégia como outra qualquer. Que resulta ou não.

E enquanto o médico fala a dor alivia. A tensão só regressa, quando insiste

- e a dor, explique-me?

E eu novamente sem saber o que me dói mais. Se o ombro, o braço, o pé, o estômago, o joelho – não interessa – ou se a alma. A pressentir aquela terrível pergunta objectiva como um termómetro. A minha ficha de paciente à sua frente. Tenho sempre a tentação de lhe pedir para me deixar ler as suas notas. Para ver o que é que, ao longo dos anos, ele foi apontando sobre as minhas dores. Nunca o fiz.

Olha-me, mais uma vez. Pousa a caneta, coloca as mãos unidas em cima da secretária, levanta a mão para ajeitar os óculos sob o nariz e está iniciada a mini coreografia que antecede a sua insistência.

- E a dor, como é a dor? Ora, tente.

E eu incapaz, sequer, de dizer ai! Uma aflição imensa. Como se não houvessem palavras no mundo.

- E então? É como se fosse uma agulha a picar ligeiramente? Assim mais picadelas espaçadas ou uma lâmina...

De um só fôlego, tomada pelo desespero de todas as vezes que não lhe respondi: é assim uma dor como se eu nunca tivesse feito um papagaio de papel; como se nunca tivesse beijado o sorriso mais quente e húmido da terra; como se nunca ninguém me tivesse contado uma história antes de dormir; como se me roubassem a minha única carta de amor; como se toda a vida eu tivesse de dançar sozinha; é como não terminar um puzzle porque se perdeu a última peça; mais concretamente é como se não houvesse literatura. Nem discos, nem quadros, nem cores. É uma dor como se a minha vida fosse de giz e me apagassem a memória.

É assim a minha dor no joelho, Senhor Doutor.

 
Texto: marta vaz /Imagem: Alex Gozblam

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Será?



Desabafo do alfaiate de Vila Longe, no livro O outro pé da sereia, de Mia Couto:

" Primeiro, desejamos uma mulher que nos faça sentir a vida.
Depois, queremos uma mulher que nos faça esquecer a vida.
Por fim, queremos apenas estar vivos."

Será??

Uma crônica de Clarice Lispector

"Nu azul" - Henri Matisse
O que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia?
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos, nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor nossa indiferença, disfarçado nossa indiferença com a angústia, disfarçando com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado, por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos sem saber se amam. Temos sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Saudade

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.


Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.


Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.


A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.


Patativa do Assaré (Antonio Gonçalves da Silva) - Assaré(CE)

1909-2002

a minha cidade




...fica o convite :)

sábado, 22 de outubro de 2011

Rosie Thomas October

“Minha poesia não tem sexo, mas não abro mão das preliminares”





Cris de Souza é poeta que tem resposta pronta na ponta da língua e sopra versos em estado de ardência quando o branco do papel a desafia. A maquinista do Trem da Lira não gosta de seguir sempre a mesma direção, o que assegura, de antemão, aos seus leitores-passageiros prováveis desvios, com encontros surpreendentes, recheados de arroubos e peripécias.
“Vario feito vinho” – avisa a poeta de Vila Velha, à porta de entrada de seus dois blogues, Trem da Lira e Válvula de Escape, enquanto nos olha, provocativa, pela metade, na foto de seu perfil. Mas essa inconstância confessa está longe de ser traduzida como fragilidade ou falta de firmeza – a poeta é ousada no verbo e revela estar sempre em busca de novos sentidos, numa inquietude que lhe assegura manter-se sempre em movimento.
Nessa entrevista informal, com blogueiros poetas e escritores, Cris de Souza revela um pouco de “sua outra metade” e explica que fugir do padrão faz parte de sua essência.

Com vocês, Cris de Souza...
(Tânia regina Contreiras)


RV - Crisântemo, quando a lua cheia invade teu coração e explode tua alma o que fazes? (Domingos Barroso)
CS - Uivo! De verso em verso, de bar em bar, de corpo e alma. A lua cheia faz bem pra pele mas não cobre o vão. Nessas noites costumo alimentar minhas feras nem que seja na jaula. Eis o eterno espanto!
Asterisco: Os bruxos também amam.
RV - Crisântemo, D. Quixote é um louco por vento ou na infância colecionava moinhos? (Domingos Barroso)
CS - Suspeito que Dom Quixote seja louco por epifanias... Quem não vive um romance de cavalaria? Mal sei do vento, mas reconheceria um moinho até debaixo de Sancho Pança...
Asterisco: Cervantes me lembra cerveja- sede não se coleciona. 
RV - A minha primeira abordagem a um blogue centra-se no seu título. O Trem da Lira captou a minha atenção ao sugerir a convergência de duas formas de relação do indivíduo com o mundo, as coisas e si próprio: a viagem e a música. Que papéis representam uma e outra na tua escrita e, mais genericamente, na tua vida? (Jorge Pimenta)
CS - Sou uma viajante por natureza, trago na bagagem um mundaréu de sons. Mas diante da musa poesia o papel da música parece coadjuvante em qualquer terreno. Ainda que dividam o mesmo palco, com tamanha força.  A viagem e a música são rimas de estrofes à deriva escritas nas palmas das minhas mãos.
Asterisco: Nem sempre escuto meus silêncios.
RV - A tua escrita tem uma fulgurância própria que a torna perfeitamente reconhecível entre todas as outras. Constroi-se, habitualmente, sobre um paralelismo fônico muito particular em que um segundo conjunto duplica a cadência do primeiro, assim projetando o dizer para outras dimensões interpretativas. Opção puramente estética, ou hermeneuticamente intencional? (Jorge Pimenta)
CS - Seja na vida ou na arte estou sempre em busca de novos sentidos pra manter-me em movimento. No paralelismo do trem há na lira um tanto de estética, outro tanto de intenção e toda a inquietação do mundo!
Asterisco: As paralelas parecem aquarelas na horizontal.
RV - Cris, conta um pouco de como começou a escrever e o que faz você expressar-se com tanta ousadia no verbo? (Luisa Maciel)
CS - Olhando pro meu próprio umbigo, ouso dizer que comecei a escrever no útero... Desde pequenina tenho essa necessidade de me expressar, comecei pelos famigerados diários e cresci com essa fome-de-lira, escrevendo em folhas, na areia da praia ou até mesmo no vento. Curiosamente meu primeiro poema intitulava-se ”sem inspiração”, pena que as traças o devoraram. Será isso profético?
Asterisco: Nasci em meio a um carnaval recitando “mamãe eu quero mamar.” 
RV - Cris, teus poemas são encantadores e me "pegam" muito pela leveza, pelo ritmo e pela sonoridade que consegue imprimir a eles. Sua Lira tem marca registrada. Mas você divide-os entre dois blogues (O Trem da Lira e Válvula de Escape). Tenho minha opinião sobre isso, mas queria ouvir de você o porquê dessa divisão e qual a diferença do conteúdo desses blogues. Pode ser? Beijo grande, minha querida amiga! (Celso Mendes)
CS - Dividir pra somar! Digamos que no “trem da lira” eu leve a sério a viagem: brinco com a língua – marca registrada do que contrasto; e no “ válvula de escape” a viagem não me leve a sério: a língua brinca comigo- marca revirada do que constato.
Asterisco: É no vai-e-vem que se voa!
RV - Sua inspiração vem de sentimentos ou de idéias? É só quando eles (ou elas) a invadem que escreve – ou você também gosta de tropeçar na semente de um poema enquanto chuta chapinhas pela folha em branco? (Tuca)
CS - De ambos, meu chapa! Minhas ideias são sentimentais, meus sentimentos não sei se ideais... Tenho queda por inversões e desafio as folhas em branco. Quando o meio de campo se embola, um tropeço na semente pode virar um gol de letra – ou não!
Asterisco: Gosto dos que jogam nas onze- sem juízo.
RV - Que importância tem o sexo (o feito, o por fazer ou o apenas desejado) na sua poesia? (Tuca)
CS - Uma importância despudorada! Minha poesia não tem sexo - mas não abro mão das preliminares. No fundo é uma grande perdição.
Asterisco I: Um verso passado que parece provocado: “tropeço num contexto complexo, calçando meu latim sem nome, sem nexo, sem sexo.”
Asterisco II: Um canto russo que parece penetrado:“ sexo verbal não faz meu estilo, palavras são erros e erros são meus, não quero lembrar que eu minto também... “
RV - A leitura de poesia em blogs permite que se conheça o poeta de um modo bem diferente do convencional; o acompanhamos no dia-a-dia da criação, 'folheando' livros que ainda não foram editados.  Em que medida essa, digamos, intimidade precoce (sexo antes do casamento?) te intimida ou estimula? (Wilden Barreiro)
CS - A intimidade com o leitor só me estimula, é meio caminho andado para o ponto g da criação. Caso contrário já tinha pulado o muro ou partido pra outra sem olhar pra trás.
Asterisco: Sexo antes, durante e depois da rima - pra não ter surpresa no verso h!
RV - Existe uma Cris de Souza cujo rosto (ou meio rosto...) está estampado no poema. Essa, nós aprendemos a reconhecer desde os primeiros poemas que lemos. Mas existe outra - ou outras -, que se revela(m) em poemas que fogem ao padrão. São frutos do desejo de experimentar, ou obras da meia-face oculta? (Wilden Barreiro)
CS - Não é oculto que vario feito vinho. Fugir ao padrão é fruto da minha essência. Preciso experimentar novos teores, texturas, tintas... Me buscar entre um verso e outro - pra desviar de mim. Se um dia eu me encontrar devo dar meia volta na poesia.
Asterisco: Às vezes as linhas me passam a régua!
RV - Cris, ao ler tua poesia percebo uma fluência que surge de um trabalho com as imagens. Intencional ou não, gostaria de saber como é o teu processo de criação? (Sandrio Cândido)
CS - Processo sem pé nem cabeça! A inspiração me pega pelos pêlos e me lança nas mãos da criação.
Asterisco: Imagens que voam dão menos trabalho que as de pé no chão.
RV – Por que a poesia é um gênero a ser usado por você, o que ela significa em teu cotidiano? (Sandrio Cândido)
CS - Seria muito clichê dizer que a poesia é o ar que eu respiro? Ao levantar da cama, já dou bom dia ao verso. A poesia é um gênero de gênio forte e de coração frágil. Necessita entrega e cuidados diários: toma conta do meu universo. À poesia me entrego de corpo e alma, porque sempre caio em tentação aos seus pés.
Asterisco: Meu cotidiano foge do plano.
RV - Sua poesia é muito feminina, no entanto não é uma poesia que se submete ao conceito mulher-que-ama-e-só, nos dá uma sensação de que existe uma mulher forte e muito poderosa por trás da escritora. é fato? (Eleonora Duarte)
CS - Não sou de cristal nem de pedra. O ser nem sempre se avalia atrás do verso ainda que a frente esteja a sua fortaleza.
Asterisco: É fato que sensação rima com subversão.
RV – Qual a sua hora criativa? Em que parte do dia você se sente em estado de escrita? (Eleonora Duarte)
CS - Fora de hora! Mas costumo escrever mais a noite, até porque o estado lunático me inspira e me aproxima das criações e constelações mais distantes.
Asterisco: Meus sonhos costumam ser matinais.
RV - Quem mais te feriu, se houve alguém que teve tanta coragem, recebeu o que eu chamo de extrema-unção literária? Ou seja, foi redimido antes da ‘morte’ em um verso seu? (Eleonora Duarte)
(Cris, obrigada, mais uma vez, por ter sido o anjo dos meus dias de janela e solidão. um beijo no seu imenso coração).
CS - Salve-se quem puder! Posso dizer que através da poesia pode-se “preparar a morte” do sujeito sem qualificação- nem sempre com requinte de crueldade. Quem mais me fere sou eu mesmo, mas sempre trato de ter coragem pra me redimir com meu próprio umbigo. Já com o meu “ eu lírico”, parece caso de vida ou morte! Ou talvez de extrema-unção... (Papo de anja: te quero bem)
Asterisco: Voz viva é que se vela!
RV - Cris, você tem olhos misteriosos de felina. Esses olhos gostam de animais, sentem-se íntimos deles? Se você tivesse de se transformar em um animal, que animal seria? (Lelena Camargo)
CS - Minha relação com os bichos é extremamente humana,  tenho um vira-lata que late de barriga cheia e um bando de pombos esfomeados que comem na minha mão. Fora os beija-flores que ganhei no bico doce e o papagaio da vizinha que adotei pelo o assovio. Imagino que eu seria uma espécie de camaleão com asas. Ou qualquer bicho que mude de cor e possa voar... 
Asterisco: Mosca na sopa é um prato cheio pra chamar Raul!
RV -  Cris, quando eu era criança, uma das coisas que eu mais desejava era crescer. Você queria crescer ou queria que o tempo passasse devagar? De que você gostava de brincar? (Lelena Camargo)
CS - Embora uma criança precoce, tive uma infância de prata! Sou nascida e criada na beira do mar, sempre brinquei na praia: mergulhava, nadava, boiava, catava conhincha na areia, sururu na pedra e guruçá. Adorava puxar rede com os pescadores, era manjubinha pra tudo que é lado! Também brinquei muito em parquinho, de pique-esconde, de pega-pega, de cobra-cega, de cirandinha, amarelinha e salada mista- é claro! Mas na surdina me vestia de “mamãe” pra ouvir Elis Regina e já questionava “ deus-e-o-mundo” às claras.
Asterisco: Viva a velha infância!
RV - Qual é o livro da sua vida? E o filme? A música? O pintor? (Lelena Camargo)
CS - Um livro de Mário Quintana, um filme de Nelson Rodrigues, uma música de Chico Buarque de Hollanda e uma pintura de Salvador Dali.
Asterisco: Que momento!
RV - Cris, você acha que existe um sentido na vida ou que a gente vive simplesmente porque tem de ser assim? (Lelena Camargo)
CS - Suspeito que o sentido da vida deva ser o da perdição! Todo mundo há de se encontrar entre os jardim do éden e da babilônia...
Asterisco: Antes assim que assado.
RV – Cris, a primeira vez que te li foi num poema em parceria com o Jorge Pimenta.   Depois tive a oportunidade de conhecer tua escrita, fiquei fã, mas sempre me intrigou o poema escrito a quatro mãos. Sempre tive curiosidade em saber: como é essa experiência, de que forma acontece, como funciona isso? (Tânia Contreiras)
CS - Acontece de forma inexplicável, mas o ponto de partida é o prazer. Duetos são um exercício e tanto, só escrevo com quem admiro. O Jorge Pimenta é meu grande parceiro, temos uma sintonia ímpar, então a poesia flui naturalmente, raramente acertamos uma vírgula dos nossos pares de letras.
Asterisco: São tantas as viagens de luz e sombras.
RV -  A necessidade de escrever do poeta é sinônimo de salvação ou perdição (Adriana Araújo)
CS- Deu zebra! Perde-se é meio caminho andado para salvar-se ou vice-versa.
Asterisco: Qualquer redundância será mera coincidência?
 RV - Acredito que o ritmo dos versos do poeta revela o ritmo de sua respiração, de sua fala, de seus desejos, da forma como ama... Como tu explicarias o ritmo da tua poesia? (Adriana Araújo)
CS - Há dias que o ritmo da minha poesia é mais acelerado que o de uma escola de samba prestes a ser despontuada, já noutros, não passa da lentidão dos relógios duma quarta feira de cinzas apurada.
Asterisco: Ai das rimas do calcanhar!
RV - A poesia é a válvula de escape ou o trem que delira? (Assis Freitas)
CS - Opa, pegadinha do poeta! Estão estranhamente ligadas: a poesia escapa pelo trem da válvula que delira.
Asterisco: Quem dorme no ponto é fantasma!
RV - A palavra bem cuidada é uma especialidade da tua poesia. Quais são os afagos necessários para o verbo florir? (Assis Freitas)
CS - Uma voz, um vinho, um vento; uma pena, uma pluma, uma pérola; uma lente, uma louça, um lenço; um sopro, um sussurro, um suspiro: tantos são os afagos que trago para a floração do verbo - cuidado!
Asterisco: Até susto faz verbo florir.
RV - Cris, eu vejo a poesia como uma grande meditação sobre o humano e também sobre tudo que o cerca. Sua poesia não foge à regra , pois é visível o seu lirismo quase cósmico.   Creio que a poesia, de um modo geral , renova-se , cumpre ciclos e naturalmente ganha um novo marco com o advento de novos poetas. Diga-nos como você enxerga a poesia atual , fale um pouco sobre ela esse ela tem, na sua opinião , qualidade duradoura. (Moisés Poeta)
CS - Andei meditando sobre isso e cheguei a uma contemporânea conclusão: a poesia atual está na “blogosfera”- no duro! Basta olhar pro lado, aqui mesmo nessa sala, há realmente grandes poetas, que fazem poesia de qualidade pra durar por milênios no ar- os quais já consagro. Falando nisso, um brinde a todos os convivas!
Asterisco: Blogosfera> constelação de poetas.
RV - Cris, não é incomum as pessoas associarem estritamente os poemas às vivências reais do poeta.  Se um poema fala da solidão, muitos supõem, por exemplo, que o poeta é um solitário. O que você acha disso? Afinal, escrever poesia é mais sentir ou imaginar sentir? (Marcantonio)
CS - Acho natural essa associação mesmo que não represente a real. Escrever poesia é um tanto de cada, sentimento e imaginação até parecem que caminham de mãos dadas. Sentir o que na pele se imagina. Imaginar o que na pele se sente. Imagino que sinto isso. Sinto que imagino aquilo. Sinto e imagino. Imagino e sinto. Sintamos. Imaginemos.
Asterisco: Quando me sinto em casa não é imaginação!
RV - Quem pergunta é o Mário Quintana: “Exalta o Remendão seu trabalho de esteta.../ Mestre Alfaiate gaba o seu corte ao freguês.../ Por que motivo só não pode o Poeta/ Elogiar o que fez?” – Que tipo de percepção, efeito ou reação ideal você gostaria que seus poemas provocassem no leitor? (Marcantonio)
CS - Algo parecido com o que sinto, quando leio o indevido, seria muita provocação? Provocar é um dos verbos mais instigantes da língua. Gostaria que meus poemas provocassem, ao menos, surpresa. Uma percepção que intrigasse, um efeito que espantasse, uma reação que não esperasse. Provoca-me o verso: o poema há de tocar o leitor feito faca ou flor!
Asterisco: Quem responde é o Mário Quintana:”A função do poeta não é explicar-se. A função do poeta é expressar-se. “


Participaram dessa entrevista: Domingos Barroso, Jorge Pimenta, Luisa Maciel, Celso Mendes, Tuca Zamagna, Wilden Barreiro, Sandrio Cândido, Eleonora Duarte, Lelena Camargo, Tânia regina Contreiras, Adriana Araújo, Assis Freitas, Moisés Poeta e Marcantonio Costa.

CURRUMBA



Ritmo lá das Angolas!!! muito!

Mente quem diz que a lua é velha