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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Poema de Mario Cesariny

(Mario Cesariny - O surrealismo - 1959)
 
O guarda-fatos do mar entreaberto para a noite
pergunta-me se amo

e é toda uma paisagem de arcos flamejantes
deslocando-se a oeste
um castelo perdido entre duas visões
o cavaleiro descendo a falésia
depois de tantos amos tantas fábricas tantos
arquitectos do amor fitando o espaço

No alto das arquibancadas o rapaz
que lindo
encarna a vitoriosa lividez do dia

A mim porém o que me apetece é dançar

Dar um salto comigo
de forma a que não me evole feito fumo
nem resvale às profundas feito nada

Isso
o reino de Pràtazul
a linha de água
que suporta e separa e contém os dois mundos
e ondula
 


[Mário Cesariny, A Cidade Queimada]

quarta-feira, 14 de julho de 2010

um pouco de poesia portuguesa...

[deixo a todos esse belo poema, e especialmente ao Marcantonio, que me pareceu tão bem desenhado nestes versos]


 ORFEU 
(Helder Macedo)

Não é bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a preze como o início dum caminho.
Não é bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo o que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
por já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

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[Esse poema é maravilhoso.
Também eu quero o resto.]