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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Lamento


Lamento

Para G.M

Eu lamento teu lamento.
Sonho em nuvens tranquilas...
Eu assolo, desolo, isolo, dessoro, dissolvo...
Sonho com diálogos travados,
Discutimos poesia,
Sonho ser um verso do teu poema não escrito,
Quero ser uma página do teu livro.
Eu sonho a verdade irreal dos teus sonhos.
Literalmente sonho.
Eu escrevo o passado contando o futuro,
Tento te prender dentro de aspas,
mas você foge, e nos perdemos nelas.
Eu acordo mudo,
surdo,
sozinho,
E com sono.



***...um dia você vai ler em meus escritos as letras molhadas das suas iniciais.

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Salvo-me de mim mesmo


Salvo-me de mim mesmo

Perco-me dentro de mim,
Como em rios,
meu sangue me leva por veias
que me despejam pela boca.
Não, não sou levado ao coração,
Posto que este, o sou.
Punido pelos meus desejos pecaminosos,
Me encolho num ato de arrependimento
e culpa.
A Deus, clamo.
E a cruz é meu castigo, e minha punição.
Mas não a quero, não sou capaz de encará-la.
Fúria,Angústia e Vergonha,
me absorvem e me batem na face,
A outra?
Jamais, posto que não a tenho.
Pois perdi na ilusão de Te encontrar,
Me perdi e junto comigo, minha face.
Represento a escória para teus filhos
que me chamam de irmão,
mas um vizinho padece ao chão,
-Bastardo!
A irmã do mal me acolhe,
-Aceito,
Gritos, Gargalhadas, Loucura,
Tão bela e contraditória!
Em posição fetal adormeço e
sonho que tudo é Realidade.
Salvo-me de mim mesmo,
dos meus desejos,
dos meus medos,
das minhas descrenças,
das minhas loucuras,
da minha singular-mente.

Alexandre Pedro
03,Out-2010.

Fotografia: Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Poeta e a Musa


O Poeta e a Musa

Envolto em plumagens escuras,
me aqueço
e sou levado às ranhuras de um afresco.

Tempo e espaço nos separam.
Quereria eu, fosse irreal,
Mas teus olhos guardam em segredo,
a matéria fúnebre que me é real.

Repousa suave sobre meu corpo.
Pairo sobre teus cabelos mórbidos.
Querendo tocar teu corpo,
Devaneio-me em sonhos sórdidos.

Criados em semelhança,
Só lhe faltara o ar.
Do barro me vestiram,
Do gesso lhe despiram,
A vida me sopraram,
E a ti, só lhe faltara o ato.

Vela pelo meu sono,
Vago por entre os vales inóspitos,
Inebriado em teus olhos pálidos,
Sou arrancado desse mundo cálido.

Em vida desejei,
Na morte encontrei,
Num frio e eterno ósculo nos despimos,
Em almas diáfanas nos fundimos.

Escravo do teu corpo
modelado em gesso
satisfaço minha boca
afogado nos teus beijos.

Alma em gesso.


Alexandre Pedro
29.09.2010

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

4.5.7


São Paulo

São Paulo em preto e branco,
hoje cinza,
cinzas que ainda cinza
dão o tom a nossa pálida cor.

...e uma menina brilha cinzenta
na janela de cada pessoa que por ela passa,
e se for a deixar, ela garôa.

Alexandre Pedro

*Fotografia de Rafael Matsunaga
Título: Fotografando São Paulo - 2007

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

domingo, 2 de janeiro de 2011

Através dos bosques ( curta-metragem ) - JÚLIO CORTÁZAR

Curtametragem inspirado no conto "La continuidad de los parques" de Julio Cortazar.

Trabalho universitário de conclusão do 2º semestre de 2010 do curso de produção audiovisual.

Direção: Matheus Mardegan e Otávio Mendes



Continuidade dos Parques


Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns arrendamentos, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde, e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava, e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da colina.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse, sem dó nem piedade, interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Do caminho oposto, ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um longo corredor, uma escada acarpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
Júlio Cortázar ( 1914 - 1984 ).
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Neste conto Júlio começa narrando a perspectiva de um personagem (O Leitor) que narra a história de um romance infiel, em que o casal traça um plano para assassinar o marido, e eis que o personagem "amante", percorre o caminho descrito pela mulher "amante/esposa", e se depara com a cena inicial, onde o personagem que lê e narra a história ao leitor, é o próprio marido. E que está sentado na poltrona verde aveludada, lendo o romance à nós-leitores. Ou seja, o personagem se torna real; sai de dentro do livro para assasinar o Leitor-marido.
Por Alexandre Pedro.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A TERCEIRA MARGEM DO RIO

Letra baseada na riquíssima obra de Guimarães Rosa "A terceira margem do rio".
Composição: Caetano Veloso e Milton Nascimento.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Maça - Manuel Bandeira


Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário
És vermelha como o amor divino.

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.