domingo, 26 de agosto de 2012

Caprichos do mar


o mar embriagou-se
morreu na praia
dos desejos incandescentes
qual o luar...
maré alta baixa maré
vai e vem a saudade
da saudade do amanhã:
eu era feliz? não sabia...
o mar dessalinizou
se os dias eram doces
hoje o algodão é pano-de-chão:
todos pisam, todos sujam...
o mar quando quebra na praia
meus pensamentos esfacela:
dele sou estrela
água-viva a queimar na praia...!

sábado, 25 de agosto de 2012

(Dos sonhos VIII): "Fazer ressoar o verbo primitivo que está por trás das palavras”.



“”Venham para a beira.”
“Não podemos. Temos medo.”
“Venham para a beira.”
“Não podemos. Vamos cair!”
“Venham para a beira.”
E eles foram.
E ele os empurrou.
E eles voaram.
Venham.Vamos, voar juntos.”
( Guillaume Apollinaire)


Um súbito clarão anunciou a ira divina, trovejada aos quatro cantos da terra. Eu precisava de um útero para me esconder de Deus. Precisava da concavidade sombria da rocha, do fogo nascido dos paus atritados, das danças e sacrifícios que abradam a fúria e devolvem ao homem o silêncio e a Vida.

Era tudo tão antigo. Riscos nas cavernas tentavam registrar uma linguagem que resistisse ao tempo. O sexo e a carne fresca dos bichos eram o que abrandava a fome. Tudo era indício de que eu precisava voltar. Procurar o início, monstros desaparecidos que hoje dormem no ventre dos homens.

E o eu onírico avançava. Em vigília, porém, a outra que eu era banhava-se em perfume amadeirado e tentava traduzir o mundo apenas pelos livros. Versos com garras afiadas precipitavam-se, contudo, sobre o papel branco, até sangrá-lo. O que eu queria, não sabia dizer. E fui caminhando em busca de mim mesma.

O eu vígil enfrentou, concretamente, o grande desafio de subir o morro e rolar deitada num saco fechado. Veio o medo da altura. Dos céus. Da ascensão. Mas a voz da “mestra” explicou, paciente: “Olhe apenas o passo seguinte. Não olhe o alto do morro, apenas o próximo passo". E assim cheguei ao alto do morro e desci rolando, na escuridão, a ribanceira acidentada e endurecida.

A sensação foi indescritível. Eu me atirara a um destino misterioso sem o controle dos sentidos e desfrutava do prazer de ver meu corpo girando sem domínio, sem segurança, sem saber o que me aguardava lá embaixo.

À noite sonhei, então,  que dera à luz um menino índio, e que com ternura segurava-o nos braços, cravando meus olhos grandes nos seus pequeninos. Porque me atirara na escuridão do abismo, criei. Porque me entregara às profundezas sem medo, um novo rebento avivou minha alma e trouxe-me a consciência de que não é possível criar verdadeiramente sem mergulhar nas águas escuras e profundas do inconsciente.

Há abismos das alturas como o há das profundezas. Céus e infernos. Ambos são caminhos para a suprema integração. É preciso coragem, porém, para escolher o caminho sem fundo do abismo. É preciso acreditar numa outra orientação, que não passe pelos caminhos da razão. Atirar-se, sem enxergar, ao abismo é reanimar a criança aprisionada pelo medo, e, consequentemente, vislumbrar caminhos antes não vistos.

Um salto no escuro sensibiliza nossos sentidos ocultos e nos habilita a sermos os deuses criadores que somos. A Arte é filha da escuridão dos abismos aos quais nos atiramos. Criar é encarnar o Arcano Sem Número do Tarô, "O louco", que simboliza a criança, o vazio, a espontaneidade e a originalidades perdidas.

Nossos sonhos são, certamente, nossos guias mais fieis. Traduzem, simbolicamente, a linguagem das águas turvas das nossas origens. Mas a Arte é também, na maioria das vezes, um salto no escuro. Caminho para retratar o fundo do abismo. Muitas vezes, diante do papel em branco, fico pensando nas palavras do escritor alemão Gerhart Hauptmann: “Poetar quer dizer fazer ressoar o verbo primitivo que está por trás das palavras”. Cair no abismo e levantar inteiro, diria eu.

As falas do silêncio





O rosto inspira silêncio
na paz na guerra
um silêncio brilhante
intenso.

Não é um silêncio de mortos
antes dos vivos
tranquilo
como se fossem velhas casas
silêncio de céu nublado
estrelas ressurgidas
silêncio branco dos descampados.

O rosto inspira
tantas vezes
silêncios rubros de horas de amor
cálidos
ternos
silêncios bons.

O rosto amigo
que às vezes entristece
e tantas vezes encontro
reúne silêncios
de repousar
viver
entendimento puro
de quem há muito
já não precisa das palavras.


Os mortos de sobrecasaca


Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do mundo

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Agora

Cesar Del Valle - I need a guide

mundo líquido
fragmentos sólidos
complexa difusão
agendamento de multitarefas
fracionamento compulsório
favor manter o foco
é importante atingir o condicionamento
tudo ao mesmo tempo agora

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Imagem: http://envolverde.com.br

Namor, meu príncipe submarino,
em noites de festa,
você é o peixe
a que me agarro
para surfar à flor da água.

Eu sou a humana
abraçada a seu corpo de boto,
Amazônico,
sou a moça que mergulha e voa
confiante em suas guelras
e em seus pés alados.

Depois, cansados,
eu sou a sereia
grávida de sonho e águas
que repousa a cabeça
em seu peito prata.

Martha

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Vida, vida


Não acredito em presságios nem temo
os pressentimentos. Não fujo nem da calúnia
nem do veneno. A morte não existe.
Todos são imortais. Tudo também.
Não há sentido em temer a morte aos sete,
ou ao setenta. Só há aqui e agora, e a luz;
nem morte, nem escuridão existem.
Já estamos todos à beira-mar;
E eu sou um desses que vasculham as redes
quando um cardume de imortalidade passa nadando.

Poema de Arsêny Aleksándrovitch Tarkóvski

Loucura & Criatividade




quem canta seus males espanta

segunda-feira, 20 de agosto de 2012



«Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrasssem
No vazio da ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.»
PoesiaDaniel Faria (Ed. Assírio & Alvim)

sábado, 18 de agosto de 2012

Baias da memória...

Um 'mimo' para "dade amorim"
O poema abaixo - Baias da memória - me fez lembrar dessa poesia cantada.
Viagem
De: Paulo Cesar Pinheiro
Por: Emílio Santiago
Com amor e carinho
Sílvia Costardi

Baias da memória



                                                                    Imagem sem menção de autor.

As casas onde morei fizeram água
e as árvores do pomar perderam a sombra.
Só me restaram coisas sem valia
que envolvi em sedas coloridas.

Nas baias da memória
moram um alazão alado
e um baio esguio e bonito
que não consigo arrear.
Mora um gato almiscarado
numa urna de alabastro
e uma sereia de sol e tabaco
que em dias frios
desfaz as tranças na praia
e some em grutas de rio.

O sono rouba o sossego
e traz de volta faces do passado
acaricia traiçoeiro meus cabelos
e traça rumos ao céu dos quatro ventos
onde me perco.

O cerco da memória é como um sono
a devorar as portas do presente.

Mas onde deixarei minha bagagem
se a estância do presente não tem baias?
Para onde voarão minhas imagens
abandonadas sem asas neste chão
ainda que seja o único existente?