domingo, 12 de outubro de 2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Tisanas
75.
Era uma vez uma idade. Sentada à porta de casa apascentava os seus mortos. Quando eles se aproximavam demasiado separava-os com uma varinha. Sim porque o peso dos mortos para onde vai perguntava a idade. E nesses momentos envelhecia. Recolhia a casa e os mortos deitavam-se debaixo das árvores. Quando os ramos envelheciam os mortos perguntavam a idade para onde irá. E erguiam-se de sob as árvores.
80.
Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue.
137.
Sentado à porta de casa um filólogo meditava a evolução das palavras. Em frente havia um precipício. De tantos em tantos anos caía lá uma palavra. Então o filólogo retirava a rede e colhia a palavra caída. não sei se isso se devia à extrema dificuldade da recolha se á extrema solidão do seu trabalho.
Ana Hatherly, em A idade da escrita e outros poemas
sábado, 5 de julho de 2014
Em memória de Ivan Junqueira (1934-2014)
A mão que escreve
A mão que escreve é aquela
A mão que escreve é aquela
que não pôde, inepta,
agarrar o que lhe era
devido nesta gleba:
glória, insígnias, troféus
e algo enfim que soubesse
àquilo a que, incrédulos,
chamamos vida eterna.
A mão que escreve é aquela
cujas linhas, babélicas,
descumpriram o périplo
que lhes previa a esfera
de um trismegístico Hermes,
e que, por dolo e inércia,
deixou rolar a pérola
que arrancara do pélago.
A mão que escreve é aquela
que foi, além de réproba
e amiúde analfabeta,
muitas vezes canhestra:
enfiou por ínvias vielas,
urdiu frases sem nexo,
bateu-se em tolos duelos
e excedeu-se, sem rédeas.
A mão que escreve é aquela
que compôs alguns versos,
odes, canções de gesta
e elegias sem metro,
às quais ninguém deu crédito
nem ouvidos.
Aquela que ergueu um brinde
aos féretros
de uma insepulta Grécia.
Antes que o sol se ponha
Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.
Epitáfio
De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres:
entre uma e outra data,
a fábula de seres
nunca o tangível ,mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
— e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.
agarrar o que lhe era
devido nesta gleba:
glória, insígnias, troféus
e algo enfim que soubesse
àquilo a que, incrédulos,
chamamos vida eterna.
A mão que escreve é aquela
cujas linhas, babélicas,
descumpriram o périplo
que lhes previa a esfera
de um trismegístico Hermes,
e que, por dolo e inércia,
deixou rolar a pérola
que arrancara do pélago.
A mão que escreve é aquela
que foi, além de réproba
e amiúde analfabeta,
muitas vezes canhestra:
enfiou por ínvias vielas,
urdiu frases sem nexo,
bateu-se em tolos duelos
e excedeu-se, sem rédeas.
A mão que escreve é aquela
que compôs alguns versos,
odes, canções de gesta
e elegias sem metro,
às quais ninguém deu crédito
nem ouvidos.
Aquela que ergueu um brinde
aos féretros
de uma insepulta Grécia.
Antes que o sol se ponha
Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.
Epitáfio
De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres:
entre uma e outra data,
a fábula de seres
nunca o tangível ,mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
— e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
quinta-feira, 26 de junho de 2014
terça-feira, 17 de junho de 2014
Valter Hugo Mãe, "A desumanização" (entrevista)
Narrado por uma menina de 11 anos, A desumanização apresenta a paisagem acidentada da Islândia, com ênfase nos longos braços de mar que avançam montanhas adentro. No livro, os fiordes não são apenas moldura para dramas humanos – são também personagem. Confira abaixo trechos da entrevista para o jornal O POVO, de Fortaleza, em abril de 2014
. O POVO – A Revolução dos Cravos, comemorada recentemente, melhora a disposição dos portugueses para encarar o cenário de crise no país e na Europa?
Valter Hugo Mãe – A Revolução dos Cravos é uma das datas mais dignas da nossa história. Acabar com uma ditadura é basilar em todos os lugares do mundo. E foi isso que aconteceu há 40 anos. O meu respeito pelo 25 de Abril (de 1974) é absoluto. A crise é ótima para todos os totalitarismos, todos os cretinismos, todos os despotismos e, se quiser até uma palavra que acho que nunca disse publicamente, para todos os “filhadaputismos”. Os 40 anos são efetivamente uma ajuda para que as pessoas percebam que há uma construção, que é a democracia, que recuou muito nos dois últimos governos, sobretudo neste governo que agora está no poder e que é um grandessíssimo monte de “merda”.
OP - A literatura é uma resposta ou um antídoto às asperezas do mundo?
VHM - É tudo isso. Ela responde, ela questiona, ela anula coisas, intensifica outras. Literatura serve pra tudo. Eu tenho muita vontade de que os livros construam, que os livros tenham, em última análise, um resultado benigno, que induzam à cidadania. Talvez não seja obrigatório que os livros das pessoas sejam assim. Pra mim, ela (a literatura) não pode ser de outra forma porque eu não consigo ser de outra forma. Eu não quero ser uma pessoa de outra forma. E, como não quero ser uma pessoa de outra forma, não posso ser um autor oponente àquilo em que eu acredito enquanto gente. A literatura está para problematizar, mas talvez esteja também para salvar o mundo um bocado.
OP - Qual o lugar da utopia na sua obra?
VHM - É muito grande. Quem vive sem utopias vive um pouco sem razão. Quem não acredita no impossível não vai além da banalidade. E acho que o futuro está um pouco além das vivências, além de algo que nós ainda não descortinamos. Eu prefiro estar do lado dos que recusam o ceticismo. O ceticismo é uma espécie de desculpa pra não fazer.
OP - Numa das passagens do romance, a personagem Halla diz que “o inferno não são os outros. Os outros são o paraíso”.
VHM - Acredito muito nisso. Acho que o Jean-Paul Sartre não era propriamente um idiota, mas causou um enfoque demasiadamente violento. O inferno pode ser os outros ou pode ser alguém, mas os outros são categoricamente o paraíso. Não encontramos nada que nos justifique mais na vida do que outra pessoa. A vida não se faz por andarmos aqui sozinhos; se faz por sermos misturados com os outros. Não somos em absoluto nada. Nós somos misturados, e a nossa felicidade acaba sendo por presumir o outro, por supor o outro. Sozinhos não precisamos nem de ser felizes porque não precisamos de ser nada.
OP - Um dos grandes temas de A desumanização é a comunicação com as coisas do mundo (objetos, paisagens e animais). Às vezes, porém, esse mundo é muito mais vivo do que o dos personagens.
VHM – Neste livro eu quis que a natureza fosse uma personagem. Ela surge imbuída com uma capacidade quase pensante. O próprio pai da narradora diz, a certa altura, que a Islândia pensa. E a Islândia interfere no romance de uma forma muito decisiva através daquilo que os personagens esperam, do modo como as personagens interpretam os fenômenos da natureza. Isso é uma forma de espiritualizar aquilo que nos rodeia. É uma espiritualidade aquém da transcendência. Podemos acreditar na transcendência de que Deus existirá depois da morte ou além da vida. Ou podemos acreditar que a natureza em si é uma espiritualidade. A natureza já nos transcende bastantemente. Ela, por si só, já é muito mais do que nós podemos explicar, do que nós podemos entender, do que nós podemos dominar. Por isso ela escapa-nos. As personagens estão conscientes de que a natureza tem uma inteligência que participa decisivamente das nossas vidas. Eu tenho muito essa vontade de ter na natureza uma religião bastante.
OP - Por que escrever a partir da Islândia?
VHM – Por ser ao mesmo tempo um lugar cândido e agressivo, longínquo e solitário, mas habitado. É o espaço que indica a disciplina da vida. É uma noção de sobrevivência. Modos de contar
OP - A perspectiva feminina é privilegiada de alguma maneira em sua literatura?
VHM - Estou convicto de que a biologia reservou pras mulheres uma aventura muito mais impressionante. O homem não tem isso de dividir o seu corpo, multiplicar. O homem é um terreno muito mais estéril, que acaba por procurar realizações exteriores à sua fisicalidade. Uma compensação. E a mulher tem a maternidade. Enfim, não é absoluto, não é uma generalização que possa ligeiramente ser universal. Porque há mulheres que não quererão ter filhos e há homens que são mais impressionantes que as mães.
OP - A paisagem que você apresenta em A desumanização é eminentemente acidentada. O grande símbolo dela é o fiorde. O que ele representa literariamente?
VHM – O fiorde é mesmo isso. É o lugar do acidente, o lugar do improvável, o lugar do difícil. Aquele espaço não estava à espera de ser habitado por gente. É como se tivesse sido construído rejeitando a presença do ser humano. Mas, por contrassenso ou por casmurrice, o ser humano até ali conseguiu chegar. E ele representa essa capacidade estranha que o humano tem de chegar ao lugar impossível, tendo em conta que, paradoxalmente, não consegue resolver-se enquanto entidade destruidora. Eu penso um pouco sobre essa dualidade: de ser capaz do impossível, mas não ser capaz de se redimir em absoluto.
OP - Outro tema do livro é o duplo. De nascença, o homem é esse ser mutilado como o que surge nos seus livros
VHM - Sim, acredito que todos nós vivemos embotados por uma comunicação incompleta. A companhia nunca é absoluta, nunca é possível. É uma construção. Estamos condenados a uma certa solidão, à impossibilidade de comunicar. A solidão é a condição sine qua non. E isso passa pela linguagem. Não há linguagem que transponha exatamente a solidão. A literatura é a crença de que um dia vai acontecer uma comunicação absoluta.
OP – Misturar poesia e prosa é uma preocupação constante no seu trabalho?
VHM - Eu acredito muito que os romances são feitos de poesia. Aquilo que faz com que um relato possa ascender à condição de literatura é o que vai buscar na poesia. Se o romance não tiver essa dimensão, nem é literatura. É um relato. É uma narrativa. A literatura constrói-se ao modo como se conta. É feita no modo como o resultado é alcançado. Esse componente eminentemente plástico é que transforma a épica em arte. Épica pode ser filosofia e pensamento, mas não é arte. O que eu proponho nos meus livros é imediatamente a poesia. É o modo de dizer aquilo. Quero encontrar um modo de contar histórias
A desumanização, Editora Cosac Naify, 160 páginas - Preço: 34,90
terça-feira, 10 de junho de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Um poema de Patrícia Laura Figueiredo
parei de me olhar no espelho
comecei a ficar mais bonita
virei os olhos pra dentro
me dei outra vida
cada dia enxergo mais um pouco
é no centro de mim que eles vivem
cada vez que com eles vejo
vem do mais profundo
um longo e antigo suspiro
parei de me olhar no espelho
pois era só ilusão o que via
cada passo dado então
me leva de volta ao começo
meu corpo balança teme
mas não me sinto perdida
é tanto um passo e depois outro
e sou toda esse passo
não me importa mais onde vou
mas quanto de passo foi dado
Extraído de Poemas sem nome - Poèmes sans nom - íbis Libris, Rio de Janeiro 2011
sexta-feira, 23 de maio de 2014
A similaridade do passado com a atualidade
Asger Jorn
Nesses pontos limiares da história exibem-se - justapostos quando não emaranhados um no outro - uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor. [...]
Outra vez o perigo se mostra, mãe da moralidade - grande perigo - mas desta vez deslocado sobre o indivíduo, sobre o mais próximo e mais querido, sobre a rua, sobre o filho de alguém, sobre o coração de alguém, sobre o mais profundo e secreto recesso do desejo e da vontade de alguém.
Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal (1882)
sábado, 17 de maio de 2014
Minha tristeza de porcelana
Minha funda tristeza, minha tristeza
de todos os momentos, disse: queres casar comigo?
Hoje estás tão esquiva e tão vulgar,
tão cotidiana, tão humana
minha pobre tristeza.
Ouve: quero beijar-te
toda; beijar-te dos pés à cabeça,
doidamente, num arrepio.
E possuir o teu pequenino corpo,
teu frágil e pequenino corpo,
onde se esconde uma alma tiritante de frio.
Minha tristeza de porcelana,
és como um vaso chinês, onde floresce, longo,
o lírio artificial da minha dor.
Se alguém te esfacelasse
se alguém, um pobre alguém,
te apertasse entre os dedos,
e eu te perdesse,
que seria de mim?
Não tenho o luxo dos prazeres ricos,
não tenho o dinheiro que é preciso
para vestir a minha alma um pijama de seda
com que ela passaria o seu tédio na alameda
Vazia e branca da minha vida.
Vê, eu só tenho dois olhos
para te olhar, minha tristeza;
só tenho uma boca
para te beijar, minha tristeza;
só tenho duas mãos
para apertar as tuas mãos.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 30 de abril de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
O senhor...mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.
João Guimarães Rosa, em Grande Sertão - Veredas.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Gabriel García Márquez: 1927–2014
O meu primeiro Gabo foi Do Amor e Outros Demónios, que comprei a um vendedor do Círculo de Leitores quando andava no 2.º ano da minha licenciatura, em 1995. Fiquei tão fascinado que resolvi ler mais livros do autor, e fui lendo-os, mas demorei alguns anos a chegar a Cem Anos de Solidão, o seu romance mais famoso, e ainda mais a O Amor nos Tempos de Cólera, o meu preferido. Era um escritor consensual, amado tanto por especialistas como por simples leitores, como eu. E é, creio eu, um daqueles cuja obra permanecerá.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Sinal cifrado para enovelar o divino
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