terça-feira, 10 de junho de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Um poema de Patrícia Laura Figueiredo
parei de me olhar no espelho
comecei a ficar mais bonita
virei os olhos pra dentro
me dei outra vida
cada dia enxergo mais um pouco
é no centro de mim que eles vivem
cada vez que com eles vejo
vem do mais profundo
um longo e antigo suspiro
parei de me olhar no espelho
pois era só ilusão o que via
cada passo dado então
me leva de volta ao começo
meu corpo balança teme
mas não me sinto perdida
é tanto um passo e depois outro
e sou toda esse passo
não me importa mais onde vou
mas quanto de passo foi dado
Extraído de Poemas sem nome - Poèmes sans nom - íbis Libris, Rio de Janeiro 2011
sexta-feira, 23 de maio de 2014
A similaridade do passado com a atualidade
Asger Jorn
Nesses pontos limiares da história exibem-se - justapostos quando não emaranhados um no outro - uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor. [...]
Outra vez o perigo se mostra, mãe da moralidade - grande perigo - mas desta vez deslocado sobre o indivíduo, sobre o mais próximo e mais querido, sobre a rua, sobre o filho de alguém, sobre o coração de alguém, sobre o mais profundo e secreto recesso do desejo e da vontade de alguém.
Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal (1882)
sábado, 17 de maio de 2014
Minha tristeza de porcelana
Minha funda tristeza, minha tristeza
de todos os momentos, disse: queres casar comigo?
Hoje estás tão esquiva e tão vulgar,
tão cotidiana, tão humana
minha pobre tristeza.
Ouve: quero beijar-te
toda; beijar-te dos pés à cabeça,
doidamente, num arrepio.
E possuir o teu pequenino corpo,
teu frágil e pequenino corpo,
onde se esconde uma alma tiritante de frio.
Minha tristeza de porcelana,
és como um vaso chinês, onde floresce, longo,
o lírio artificial da minha dor.
Se alguém te esfacelasse
se alguém, um pobre alguém,
te apertasse entre os dedos,
e eu te perdesse,
que seria de mim?
Não tenho o luxo dos prazeres ricos,
não tenho o dinheiro que é preciso
para vestir a minha alma um pijama de seda
com que ela passaria o seu tédio na alameda
Vazia e branca da minha vida.
Vê, eu só tenho dois olhos
para te olhar, minha tristeza;
só tenho uma boca
para te beijar, minha tristeza;
só tenho duas mãos
para apertar as tuas mãos.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 30 de abril de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
O senhor...mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.
João Guimarães Rosa, em Grande Sertão - Veredas.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Gabriel García Márquez: 1927–2014
O meu primeiro Gabo foi Do Amor e Outros Demónios, que comprei a um vendedor do Círculo de Leitores quando andava no 2.º ano da minha licenciatura, em 1995. Fiquei tão fascinado que resolvi ler mais livros do autor, e fui lendo-os, mas demorei alguns anos a chegar a Cem Anos de Solidão, o seu romance mais famoso, e ainda mais a O Amor nos Tempos de Cólera, o meu preferido. Era um escritor consensual, amado tanto por especialistas como por simples leitores, como eu. E é, creio eu, um daqueles cuja obra permanecerá.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Sinal cifrado para enovelar o divino
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Das utopias
Se as coisas são inatingíveis ora,
Não é motivo para não querê-las
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas.
Mário Quintana, em Espelho Mágico
segunda-feira, 7 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
domingo, 30 de março de 2014
sábado, 29 de março de 2014
POSSE
Nos compêndios escolares não se falava da pequena ilha
solitária e perdida nos mares do Sul.
Não passavam por lá os barcos dos brancos
e o povo seguia a sua própria lei
que no entanto não estava escrita em livro algum.
Homens e mulheres viviam nus e amavam-se sem complicações
e comiam peixes que pescavam em canoas feitas com troncos de árvores
e carne de animais caçados com setas certeiras.
Atletas e guerreiros dançavam ao som de búzios e tambores
e as bailadeiras ondeavam contorcidos ritmos lentos
na toada triste de instrumentos de uma só corda.
E tinham seus deuses, seus santos, seus sacerdotes, seus feiticeiros,
e moravam em cubatas cobertas com palmas das palmeiras.
Mas do outro lado da terra
um dia
senhores de cara grave assentaram-se à volta de uma mesa com mapas em frente,
falando de guerras,
de bases para aviões,
de pontos estratégicos
.
Então veio à baila a ilha solitária perdida nos mares do Sul...
Semanas depois um barco de ferro chegou e fundeou
nas águas tranquilas da baía...
E um escaler veio para terra com homens loiros vestidos de branco,
trazendo, entre outras coisas,
uma bandeira para a primeira afirmação imperial,
um chicote para o primeiro castigo,
um barril de pólvora para o primeiro massacre
e um outro de álcool para o primeiro comércio!
Jorge Barbosa (Cabo Verde)
Publicado em http://coresepalavras.blogspot.com
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