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sábado, 3 de julho de 2010

Há que ser cruel toda a separação

 Andrea de Godoy Neto
Pele branca
Alma nua
Faca afiada
Palavra crua
Corte certeiro
Cratera da lua
Onde era um vulcão
Lava percorrendo os vãos
Mas, hoje não!
Hoje, a mão firme
A lâmina fria
A expressão cruel
Da palavra vazia
Hoje, não há vulcão
Nem lava percorrendo os vãos
Hoje, não!



[poema publicado no blog Olhar em Versos e Inversos]

sexta-feira, 19 de março de 2010

Depois...


Depois...

Para onde irão as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feiro daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?

Abgar Renault, Obra Poética
(Rio: Editora Record,1990)

Um dos grandes poetas brasileiros, Abgar Renault (1991-95) ainda é pouco conhecido do público.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Do Poema em Desordem



Cruzo as mãos
Sobre as montanhas
Um rio esvai-se
Ao fogo do gesto
Que inflamo

In, Promessa de Uma Noite, Mia Couto


Para a Ana C. Quevedo




Em bom rigor, não me peçam
Para inventar mais uma árvore!
- Sabendo até, que na mão
Pode acontecer um rascunho
De vida, qualquer coisa de viva cor em tela,
Prefiro inventar uma estrela,
Um ou dois rios, uma pedra, ou quem sabe,
Apenas mais uma rosa de todo o mundo,
Uma montanha, só!

Em bom rigor, é inútil a invenção,
Da milonga, da mirácula poesia,
De súbito pela raiz, arrancada,
Até desistir da terra, da silhueta
Que haverá na minha mão…
Reiventar o mundo ou uma palavra?
Assim como assim, talvez, mas
- Árvores, não! Esta Oliveira,
Aquela Tamareira de Damasco
Que foi sombra de Omeya, é sombra em mim,
Dá-me fruto em luz, sombra em giz.
Árvore é meu santo em senha, a minha raiz,
Meu caule e seiva, quase mineral
Cedro de Amarelo, Cipreste animal,
Ébano de Brasil, das mil cores do Anis.
Árvore é meu Limão, Meio-irmão Limoeiro,
É Magnólia Palavra Macieira,
É a minha única ramada da terra inteira.
É inútil inventar, em bom rigor
A árvore derradeira!

Pode acontecer um rascunho,
Um afluente de fogo e fumo,
Ribeiro agreste em estrela adormecida.
Pode acontecer uma mão até, que se cruza
De letra em letra, de cinza em luz,
Um fogo sem história, no incêndio do fim
Do mundo.
Pode tudo acontecer de novo, mas não
Peçam da palavra, da árvore mais invenção!
- Esta escuridão não é suficiente, nem renovo
Novo poema da criação, me seduz.

Não me impeçam! Invento qualquer coisa,
Mas uma árvore não!


Leonardo B., in a Barca dos Amantes

imagem: reprodução de Snakes and Earth, do livro Night Life of Trees
[foram das primeiras palavras que encontrei. na blogosfera. e dizem-me cada vez mais. obrigada Leonardo]