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terça-feira, 16 de novembro de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

À NOITE

Cecília vinha descendo a Haddock Lobo quando deu-lhe na telha parar no Bareto. Estacionou e foi. Um Jazz agradável a esperava. Som ao vivo. Cecília estava com 52 anos, bastante conservada e se cuidava em todos os aspectos. Baixinha, usava saltos absurdos e procurava compensar com roupas que lhe alongassem o perfil. Tinha cabelo bem comprido. Era uma mulher solitária e amargurada pela vida, por três casamentos e nenhum filho. Seu corpo fora tocado por inúmeros homens e até algumas mulheres, mas sua alma ainda era virgem. Jamais tivera um relacionamento digno do nome. Um parceiro de verdade ou, como queiram, um companheiro. Sentou-se, instalou-se confortávelmente numa das poltronas e pediu um Martini. Saboreava o seu, quando notou estar sendo “filmada”. Disfarçadamente procurou inteirar-se. Após alguns goles, pediu a conta e, lentamente, como quem quer ser seguida, foi em direção à porta. Seu truque de olhar discretamente, em passant, e sorrir sempre funcionou. Foi abordada no saguão do Hotel Fasano, em cujas dependências se instalou o já antes tradicional Bar. É certo que, na sua opinião, o Bareto da Rua Amaury era mais interessante. De alguma forma perdera charme na mudança. Mas enfim, um homem de seus quase 50, denunciado pelo cavanhaque com muitos fios brancos, disse-lhe em voz suave: “posso falar-lhe?” Cecília prontamente sorriu e assentiu com a cabeça. A conversa, típica dessas ocasiões, primeiro desenvolveu-se ali mesmo, ambos em pé, um ballet de gestos e posturas. Depois se transferiu para o restaurante Alucci Alucci, na mesma rua, quase em frente. Ela pediu um Talharim ao limão e ele um Atum negro com purê de banana da terra. Sofisticadas combinações do Cheff Edir Nascimento. Para acompanhar pediram uma garrafa de Anjou Le Rouchefer, safra 2002. Para a sobremesa pensaram em um Creme Bruille de maracujá e uma Sopa de chocolate com avelã. A conversa transcorria dentro dos padrões quando Cecília pediu licença, e foi ao Toillet. Retocou a maquiagem, já por si só discreta, e retornou. Para a sua surpresa, o cavalheiro não estava à mesa e, após inteirar-se com o Maitre, descobriu que a conta ia ficar para ela. Levara um golpe, daqueles dignos de uma boa gargalhada, se não tivesse sido com ela. Furiosa, deixou o local maldizendo todos os deuses e demônios de que se lembrava. Marcou bem a cara daquele sujeito. Pensou e verbalizou muitos palavrões, inclusive assustando os circundantes. Jamais havia passado por nada parecido e imaginou-se desamparada pelo universo. Cecília tinha dessas coisas. Eventos bizarros, e outros eventos, ela creditava ao cosmos, aos astros e toda sorte de gnomos e elfos que habitavam seu mundo. Canceriana típica, pensou logo em refugiar-se na toca, proteger-se e encontrar em si mesma o seu já conhecido eixo de abrigo. Sua vida era uma sucessão de decepções. E cada vez mais procurava em seu mundo interior respostas para essas agressões constantes. Fechava-se cada dia mais.
Passaram-se alguns dias e ela foi parar no Hospital. Estava com a cara cravejada com o que restara do vidro dianteiro de seu Corolla. Durante as inevitáveis suturas, apesar de grogue, ouviu a conversa das enfermeiras: “E o sujeito?”...”Esse já era...” Sorriu ao baixar as palpebras e, apesar da dor, sentiu um imenso alívio e a sensação de bem estar, porta de entrada para o mundo de Morfeu.

ORIGINALMENTE AQUI

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O desvio


Eles eram milhares, uns sobre os outros, justapostos pela falta de crença em dias a mais, em manhãs para um depois. De longe percebi como era pesado aquele escuro dentro dos seus olhos. As ruas estavam tomadas de desespero, os sorrisos tomados, as possibilidades...
Passei calado com uma poesia escondida sob a pele, lentamente para que ela não acordasse ali. Eles me viram mas não sabiam meu desvio. Não puderam entender que guardo mundos, que arrisco minhas noites em rima e verso. Isso é muita estrada para o nada que carregam por dentro. Tomei a primeira esquina e saí...
Adiante, retirei do bolso uma luz já meio apagada e colei-a no céu para virar lua acesa. Ficou metade viva apenas, amarrotada de tanto esquecimento, mas era ainda uma lua que se via. - Pronto, a humanidade tem meia luz para uma chance. Do outro bolso puxei um velho sonho e o deitei em algum lugar. Dormi dentro dele e apaguei as chaves que retornavam... mas lá fora deixei a lua para guiar outro desvio.

Ricardo Fabião