segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Beleza Não É Fundamental
Ninguém gosta de "levar um fora", sobretudo de uma mulher bonita. Foi o que aconteceu com Lima Barreto e por isso ele enviou um bilhetão à Baronesa de Melrosado.
Copiado, roubado e pescado do Caderno Ilustríssima da Folha de ontem.
Apologética do Feio
Bilhete à Baronesa de Melrosado
SOBRE O TEXTO
Localizado num manuscrito sem data da Coleção Lima Barreto, na Biblioteca Nacional, este é um dos 42 textos inéditos que serão incluídos no volume de "Contos Completos de Lima Barreto" que a Companhia das Letras publicará em outubro, com organização e apresentação de Lilia Moritz Schwarcz.
LIMA BARRETO
Mas... de que serve a beleza nos homens?
A. A.
MINHA SENHORA:
Só ontem soube pelo Soares da razão porque V. Exa. me recusava a honra de uma valsa no último baile dos Diários: por me achar excessivamente feio!
Os meus amigos vão rejubilar! É uma velha pendência esta, minha senhora, quase secular, a de saber qual dentre nós é o menos belo, e V. Exa., com o motivo da recusa, veio dar ganho de causa aos meus contendores.
Creia porém V. Exa. que eu não me magoei absolutamente com o epigrama. Este meu físico ingrato, esta plástica infeliz -um torso de salamandra ridiculamente encimado por uma cabeça de batráquio- são, de natureza, eu concordo, a afugentar os mais tímidos.
V. Exa., porém, se não foi injusta, foi pelo menos impensada... Porque eu também tenho os meus títulos nobiliárquicos:... sou o descendente de uma família muito antiga e muito nobre, de uma nobreza e antiguidade sob todos os pontos de vista veneráveis -a venerabilíssima família dos Feios.
Remontando pela minha genealogia acima, não se admira V. Exa. se eu só me detiver em nosso antepassado Adão.1
Aquele indivíduo feito de argila, aos assopros e sopapos, e de mais a mais com uma costela de menos, não podia deixar de ter uma cor acentuadamente terrosa e uma plástica deplorável.
Se V. Exa. quisesse ter a bondade de me acompanhar nesta pitoresca jornada ficaria, desde já, conhecendo, entre os meus antepassados, o aventuroso imperador Sezostris, o insigne filósofo Zoroastro e o venerável profeta Habacuc, da tribo dos Zabulous. Receio porém tornar-me fatigante; estaco em Sócrates.
Sócrates, minha senhora, o mais sábio e o mais virtuoso dos homens, era, se não mentem os velhos códices, profundamente feio; tinha o nariz esborrachado, a testa deprimida, as omoplatas côncavas -era disforme!2
No entanto, desde Platão até Xenofonte (com escala pelo Oráculos de Delfos) todos lhe gabam "a beleza de sua moral, a largueza de seu espírito, a doçura e segurança de suas relações".
Nenhum povo, minha senhora, foi mais artista do que o povo grego, nenhum possuiu como ele e em tão elevado grau, no dizer de Taine, o sentimento estético, o sentimento inato da beleza.
Aristófanes, o desabusado autor das "Nuvens" e dos "Cavaleiros", o fundador deste culto em que mais tarde pontificaram o inimitável Karv e o incomparável Eça - era um aborto.
Teócrito tinha a espinhela caída e o corpo era corcundo, mas ninguém reparava nas desgraças físicas do bardo de Siracusa ou do fabulista frígio quando lhe ouviam os bucólicos idílios e os conceituosos apólogos.
Arnóbio, Jâmblico, Orígenes e Beda, o Venerável; Apuleio -o do "Burro de Ouro", e Apolônio de Tiane -o taumaturgo; Paracelso, o do Homunculus, e Raymond Lulle -o da "Ars Magna"- foram tipos clássicos de fealdade, mas foram todos eles ou homens de espírito ou homens de entendimento.
Quer V. Exa. exemplos da fealdade heroica?
Bayard- o cavaleiro sans peur et sans reproche;3 Du Guescliu, o cavaleiro bretão, e todos os cavaleiros da Ordem da Calatrava, que não primavam por uma plástica impecável. O Condestável então tinha um rosto desconforme, e ele próprio se gloriava de ser o mais feio homem de França. Mas que de cutiladas memoráveis! Se isto lhe poderá V. Exa. perguntar aos Ingleses e Mouros daqueles tempos cavalheirescos.
O grande Conde -o herói de Rocroy: tinha o crânio excessivamente estreito, chegava a ser ridículo.
E a fealdade clássica de Guy de Patin?
E a clássica fealdade de Cyrano?
Aqueles dois narizes truculentos e rutilantes, desproporcionados, insólitos! Eram de uma fealdade agressiva, mas eram dois homens de espírito.
Recorda-se V. Exa. da cena do balcão?
J'eus comme Buckingham des souffrances muettes
Ah! C'est vrai; je suis beau, j'oubliais.4
Exemplos da fealdade artística?
A de Miguel Ângelo Buonarrotti -o arquiteto da Cúpula de S. Pedro de Roma, o pintor do Juízo Final e o escultor de Moisés, a sua fealdade já é de si olímpica.
A de Dante, o transmigrado do Inferno, de quem fugiam apavoradas as crianças de Ravena.5
E a de Beethoven, o compositor daquelas sonatas deliciosas que V. Exa. interpreta com tanto sentimento.
Científica? Filosófica?
A de Descartes. Tenho-lhe em casa um retrato (edição do Apostolado); um beque de águia colado ao meio do rosto entre dois olhinhos muito vivos e enérgicos. Ah! Minha senhora, como é feio o homem do "Discurso sobre o Método" e da "Geometria Geral"!
A de Kant -o da "Crítica do Juízo e da Razão Pura". Devo-lhe porém uma dívida de gratidão, muito só e muito feio conseguiu enfeixar o Belo em três leis sumárias; e o Feio... nunca!
V. Exa. conhece as leis do Belo de Kant...
I) O Belo é o que agrada universalmente e sem conceito
II) O Belo é essencialmente desinteressado
III) O Belo é uma finalidade sem fim.
E as leis do Feio, conhece-as V. Exa. por acaso?
V. Exa. é capaz de apontar uma definição, um traço; uma característica, em suma, que possa servir de base a uma Teoria Positiva do Feio? Não o é, eu aposto; e não o é por dois motivos:
1º Porque o Feio é indefinível.
2º Porque o Feio é pessoal; depende de uma série de circunstâncias a que não são estranhos o ponto de vista, o lugar geográfico, a influência do meio e até o momento histórico.
Outras fossem as circunstâncias mesológicas, étnicas, psicológicas e físicas, e V. Exa. não me teria recusado a honra daquela valsa.
Se até hoje nem sequer conseguiram os imbecis traçar uma linha neutra, uma linha divisória, um biombo sobre o qual se pudesse com segurança declarar: todos aqueles que se encontram além são Belos; todos aqueles que se encontram aquém são Feios! Daí a nossa superioridade: um campo de ação mais vasto; daí a minha audácia: pretender valsar com a baronesa de Melrosado!
Que V. Exa. me perdoe estas divagações filosóficas que não dizem com o meu temperamento nem estão nos meus hábitos. Reminiscências do tempo em que fui colaborador da "Revista de Arte e Filosofia".
Mas... reatemos o fio da meada. Diderot? Balzac? Comte? Spencer? Claude Bernard? Max Muller? Sainte Beuve? Tolstói? Nietzsche? Ibsen? Todos eles Feios, minha senhora, e alguns horríveis.
Propositalmente guardei para rematar este Rol de Feios -e que V. Exa. me agradeça a lembrança, a fealdade Irônica. Ah! Nos domínios da Ironia a regra é geral. Tomo para exemplos os três vultos mais simpáticos:
Heine -o ironista alemão;
Kavv -o sumo pontífice da verve gaulesa; e Eça, o incomparável. Trindade adorável e horripilante! O Intermezzo! Les Femmes! Os Maias! E tem-se dito tudo.
Não lhe falo de Mark Twain, Suwinburne, Spencer, porque não tenho de momento dados positivos que me assegurem de suas infelicidades físicas, mas estou eu que são da família.
Vê pois V. Exa. que se pode ser feio, sendo-se homem de espírito, de ação e entendimento.
Mas V. Exa. não foi simplesmente impensada.
V. Exa. foi cruel. V. Exa., procurando ferir-me, lançou uma mão cheia de cinza e fel sobre veneráveis carcaças do vosso próprio sexo.
Cansei os Braços...

Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.
António Gedeão
Sorteio de Livros
Essa super promoção irá sortear uma cesta com 12 livros, distribuídos em 6 kits.
Regras, regulamento e outros detalhes AQUI
“Amores Vagos” (do Projeto Estilingues), com os contistas Alexandre Brandão, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Sonia Peçanha e Vânia Osório. É um livro que nasceu da amizade desses escritores, que teve início em 1987. Amores vagos é uma coletânea de contos que traz a simpática ideia de fazer circular os exemplares, gratuitamente distribuídos, no que chamam de “uma ciranda sem fim”. Mais informações sobre o Projeto Estilingues pode ser obtido no blog http://estilingues.wordpress.com/.
“A câmera e a pena”, de Alexandre Brandão (Editora Cais Pharoux). Lançando em 2009, traz duas novelas: “Um pouco mais que um diretor” e “Em torno de uma xícara de café”. Para saber mais detalhes sobre o livro, acesse a divulgação que foi feita aqui no Sobrecapa ou a resenha escrita por Duílio Gomes e publicada no Caderno Ideias do JB.
“Sexmaster 5 e outras histórias”, de João Paulo Vaz (Editora Cais Pharoux). Esse é o terceiro livro de contos de João, um contista premiado em alguns concursos, entre eles o importante Concurso Josué Guimarães, da Universidade de Passo Fundo. Para saber mais sobre o livro, acesse a página da editora ou leia a resenha escrita por Haron Gamal e publicada no blog dele.
“Vibratio”, de Catarina Pereira (Editora Cais Pharoux). Esse é o primeiro livro de contos de Catarina que estreou em grande estilo. Para saber mais sobre o livro, acesse a página da editora ou leia a resenha escrita por Luiz Paulo Faccioli e publicada no Jornal Rascunho.
domingo, 5 de setembro de 2010
Definições definitivas...
Nunca falte ao trabalho, pois é aí que o seu patrão pode ver que não precisa de você.
Atual imagem de cabeçalho enviada pelo GED
A pedido da Silc, a imagem que está no cabeçalho veio para um post para ela copiá-la. Entretanto, não é necessário esse procedimento porque todas as imagens colocadas no cabeçalho, desde a primeira, são depois encaminhadas para a coluna lateral. Para copiá-las basta apenas procurar e selecionar e para ter acesso aos blogueiros basta clicar sobre os nomes onde está escrito colaboradores.
Um abraço a todos.
Cirandeira e Bípede Falante
sábado, 4 de setembro de 2010
BANKSY
Pra aqueles, que como eu, admiram os detalhes urbanos, recomendo com urgência uma dose de Banksy. Toda Urbe tem o seu, mas Londres produziu o melhor, o mais crítico e o mais ácido deles. Afinal, muros foram feitos para se expor e para ver o que lá foi deixado, não carece de pagar ingresso. Não precisa ser da elite, se vestir bem nem ser amigo do gerente. Basta estar vivo. Mas como Londres não é logo ali, é possível ter acesso a um resumo do trabalho do rapaz através da publicação "Banksy, Wall and Piece" editado pela Random House/Century em 2006, disponível nas melhores livrarias.
OS SETE SAPATOS SUJOS
Tema de Mia Couto sempre actual, cada vez mais actual.
(Extraído do Vertical N° 781, 782 e 783 de Março 2005)
Oração de Sapiência na abertura do ano lectivo no ISCTEM
Quem se interessar pode ver aqui.
(Extraído do Vertical N° 781, 782 e 783 de Março 2005)
Oração de Sapiência na abertura do ano lectivo no ISCTEM
Quem se interessar pode ver aqui.
Retratos da Vida
" A verdadeira guerra não é o confronto dos que se odeiam, mas a distância dos que se amam."
E se agora, não depois?
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Se agora saíssemos pela manhã, esquecidos de nós, desfazendo as malas carregadas de memórias, arrumando os livros que trazemos guardados há uma vida, esquecendo as notas de todas as canções de amor, se agora saíssemos por aí, sem direcção, sem mapa dos itinerários principais dos dias que passaram, sem chave da casa, sem dinheiro no bolso, sem anotações sem importância num caderno esquecido, se agora trocássemos de roupa e de pele, sem pudor, sem sentido, se agora gravássemos numa arvore centenária amor como te amo e amarei, sem um único lápis ou canivete, desfazendo os baús que guardam de nós as águas passadas, as que nunca moverão os nossos moinhos, se agora te beijasse, se agora me beijasses, se agora dançássemos nesta manhã, colorida manhã, rodopiando nas ruas, interrompendo o trânsito urgente, passando entre os rostos carregados dum dia novo tão velho, tão igual a todos os dias do mundo, se agora nesta manhã declarássemos a urgência de amar, um alerta máximo, único, estado de alerta errante, declarando as mais estúpidas canções de amor o nosso hino nacional, universal, se agora descemos as escadas da nossa casa sem sol, sem sombra, sem chaves nem estantes por arrumar os estorvos da memória, tudo o que acumulamos pelo fio dos anos, as riquezas e misérias dos objectos que acumulamos pelo fio dos anos, se agora sem rumo certo assobiássemos uma canção trivial, uma canção de amor inventada agora mesmo, e depois? Era só uma canção, sem nada mais, sem nada menos, apenas esquecidos de nós sem as sombras do dia que passou, dos dias que vão longe, dos dias que passarão.
Se agora saíssemos pela manhã, já esquecida da sua madrugada, por essa rua que não vai dar a lado nenhum, por esse caminho sem destino, rumo ao nosso coração, outrora um país distante, rumo á finita incerteza da mudança, e se agora e se depois tomássemos nas mãos esse cálice de terra que não se chama vida nem morte, nem serena nem agita a placidez do silêncio, nem murmura os segredos de quem por nada tem muito por contar, da beleza que só os olhos sem cansaço são capazes de reter, e se agora e se depois? Era só mais uma palavra, uma sombra, um gesto, um signo ou um sinal, era só mais uma manhã, tarde não nunca, tardios são os sorrisos guardados, são os lábios que não se prenunciam, tardios são olhos que jamais choraram, tarde não nunca se agora corrermos pela manhã nova, irmã distante de todas as que a antecederam, se agora “as palavras fazem-nos crer que os sonhos formam parte das coisas e as coisas de sonhos” , se agora nos encontramos num banco de jardim, num jardim abandonado, num abandono feliz, felizes as canções e os beijos que trocamos, como se agora o mundo acabasse sem darmos conta que não haverá outra noite, outra madrugada.
E se agora, não depois?
23 de Março de 2004
23 de Março de 2004
|imagem reprodução de imagem de instalação Blind Light, Antony Gormley|
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