quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Matéria de poesia



 
 

1. Todas as coisas cujos valores podem ser disputados
 no cuspe à distância servem para poesia.
O homem que possui um pente e uma árvore serve para poesia
Terreno de 10x20, sujo de mato – os que nele gorjeiam:
  detritos semoventes, latas servem para poesia
Um chevrolé gosmento coleção de besouros abstêmios
o bule de Braque sem boca são bons para poesia
As coisas que não levam a nada têm grande importância
cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia ou na geral ...
As coisas que não pretendem, como por exemplo:
 pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado como,
 por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia
As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos – têm muita importância para os pulmões da poesia
Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita,
 pisa e mija em cima, serve para poesia .
 
MANOEL DE BARROS..

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Mal Secreto



Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correa

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Visão





O dia se esvaiu
e ainda resisto
presa ao batente da porta
por onde vislumbrei
o paraíso.


Poesia pra quê?

 

      “O puro valor da palavra está na poesia. Por isso é sempre considerada mercadoria difícil. Poesia não vende é um dos mandamentos do decálogo mínimo de qualquer editor sensato. Pois não vende mesmo. O destino da poesia é ser outra coisa, além ou aquém da mercadoria no mercado. Mal obram e mal pensam aqueles que reclamam da resistência em publicar poesia. Deveriam mais é ficar alegres. A poesia, afinal, é a última trincheira onde a arte se defende das tentações de virar ornamento e mercadoria, tentação a que tantas artes sucumbiram prazerosamente.
 
       Então, poesia pra quê?
  -
 - Felizmente pra nada. Servir pra quê? Num mundo em que tudo serve para alguma coisa e assim dar lucro, fundamental que algumas não sirvam pra nada”.
 
 
 
Paulo Leminski

Extraído de http://tirodeletra.com.br

Leituras Públicas



Leituras Públicas - Diretoria do Livro e da Leitura
Fundação Pedro Calmon - Salvador


Martha Galrão



Lívia Natália



Lande Onawale


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Entrevista com Julian Assange


 


O fundador de Wikileaks, Julian Assange, recebeu a Carta Maior em um escritório especial que a embaixada do Equador no Reino Unido preparou para que ele converse com a imprensa no momento da publicação no Brasil de seu novo livro “Cyberpunks. A Liberdade e o futuro da internet”. Veste uma camiseta da seleção brasileira, com o número sete e seu nome nas costas: a desenvoltura futebolística combina com seu bom bom humor. O cabelo branco e a pele quase translúcida lhe dá um ar de albino insone, mas os mais de seis meses encerrado nos confins da embaixada e o mais que incerto futuro ante à decisão do governo britânico de não conceder-lhe o salvo-conduto que permitiria que viajasse ao Equador, não parecem pesar muito. É certo que ele em uma aparentemente merecida fama de recluso e que em seu pequeno quarto na embaixada deve fazer o mesmo que fazia a maior parte do tempo em sua vida livre: ficar grudado em seu computador e na internet. É difícil imaginar a vida de Julian Assange sem a tela do monitor e o ciberespaço. Por isso o livro que começa a ser vendido este mês no Brasil, publicado pela editorial Boitempo, contem algo tão inesperado como a camiseta brasileira: uma visão particularmente cética e mesmo negativa sobre o impacto da internet.


Você fala em seu livro da internet como uma possível ameaça para a civilização. Muitos pensam que a internet é uma arma para o progresso humano que produziu, entre outras coisas, Wikileaks. Sua interpretação não é um pouco pessimista?

Assange: Não resta dúvida que a internet deu poder às pessoas que não o tinham ao possibilitar o acesso a todo tipo de informação em nível global. Mas, ao mesmo tempo, há um contrapeso a isso, um poder que usa a internet para acumular informação sobre nós todos e utilizá-la em benefício dos governos e das grandes corporações. Hoje não se sabe qual destas forças vai se impor. Nossas sociedades estão tão intimamente fundidas pela internet que ela se tornou um sistema nervoso de nossa civilização, que atravessa desde as corporações até os governos, desde os casais até os jornalistas e os ativistas. De modo que uma enfermidade que ataque esse sistema nervoso afeta a civilização como um todo. Neste sistema nervoso há vários aparatos do Estado, principalmente, mas não unicamente, dos Estados Unidos, que operam para controlar todo esse conhecimento que a internet fornece à população. Este é um problema que ocorre simultaneamente com todos nós. E se parece, neste sentido, aos problemas da guerra fria.

Você é muito crítico do Google e do Facebook que muita gente considera como maravilhosas ferramentas para o conhecimento ou as relações sociais. Para essas pessoas, em sua experiência cotidiana, não importa a manipulação que possa ser feita na internet.

Assange: Não importa porque esta manipulação da informação está oculta. Creio que nos últimos seis meses isso está mudando. Em parte por causa de Wikileaks e pela repressão que estamos sofrendo, mas também pelo jornalismo e pela investigação que está sendo feita. O Google é excelente para obter conhecimento, mas também está fornecendo conhecimento sobre os usuários. Ele sabe tudo o que você buscou há dois anos. Cada página de internet está registrada, cada visita ao gmail também
 Há quem diga que isso não importa porque a única coisa que eles querem é vender anúncios.
 Esse não é o problema. O problema é que o Google é uma empresa sediada nos Estados Unidos sujeita à influência de grupos poderosos. Google passa informação ao governo de maneira rotineira. Informação que é usada para outros propósitos que não o conhecimento. É algo que nós, no Wikileaks, sofremos em primeira mão e que vem ocorrendo com muita gente.

Mas no que concerne o controle do Estado há usos legítimos da internet para a luta contra a pornografia infantil, o terrorismo, a evasão fiscal.
..
Assange: Indiscutivelmente há usos legítimos e a maior parte do tempo a polícia faz isso adequadamente. Mas nas vezes em que não faz, esses usos podem ser terríveis, aterrorizadores, como está ocorrendo atualmente nos Estados Unidos. É preciso levar em conta que o que chamamos de quatro cavaleiros do apocalipse – a pornografia infantil, o terrorismo, as drogas e a lavagem de dinheiro – são usados para justificar um sistema de vigilância massivo da mesma maneira que usaram armas de destruição em massa para justificar a invasão do Iraque. Não se trata de uma vigilância seletiva de pessoas que estão cometendo um delito. Há uma gravação permanente de todo mundo. Isso é uma ameaça diferente de tudo o que já vivemos antes, algo que nem Goerge Orwell foi capaz de imaginar em “1984”.

No Ocidente, falou-se muito da revolução do Twitter para explicar a primavera árabe. Esse não é um exemplo perfeito do potencial revolucionário da internet?

Assange: A primavera árabe se deveu à ação das pessoas e dos ativistas, desde a Irmandade Muçulmana até outros grupos organizados. A internet ajudou o pan-arabismo da rebelião com pessoas de diferentes países aprendendo umas com as outras. Também ajudou a que Wikileaks difundisse os documentos que deram mais ímpeto ao movimento. Mas se você olha para os manuais dos grupos que coordenavam os protestos, na primeira e última página, recomendavam que não se usasse Twitter e Facebook.

 Para as forças de segurança as mensagens no Twitter e no Facebook são um documento probatório de fácil acesso para prender pessoas. O que pode se fazer então?

Assange: A primeira coisa é ter consciência do problema. Uma vez que tenhamos consciência disso, não nos comunicaremos da mesma maneira por intermédio desses meios. Há uma questão de soberania que os governos da América Latina deveriam levar em conta. As comunicações que vão da América latina para a Europa ou a Ásia passam pelos Estados Unidos. De maneira que os governos deveriam insistir que os governos deveriam insistir para que essas comunicações sejam fortemente criptografadas. Os indivíduos deveriam fazer a mesma coisa. E isso não é fácil.

De que maneira um governo democrático ou um congresso pode contribuir para preservar o segredo das comunicações pela internet?

  Assange: Para começar, garantindo a neutralidade do serviço. Do mesmo modo que ocorre com a eletricidade, não se pode negar o fornecimento com base em razões políticas. Com a internet não deveria existir essa possibilidade de controlar o serviço. O conhecimento é essencial em uma sociedade. Não há sociedade, não há constituição, não há regulação sem conhecimento. Em segundo lugar, é preciso negar às grandes potências e superpoderes o acesso à informação de outros países. Na Argentina ou no Brasil a penetração do Google e do Facebook é total. Se os parlamentos na América latina conseguirem introduzir uma lei que consagre a criptografia da informação, isso será fundamental.

Temos falado da revolução do Twitter, mas em termos de meios mais tradicionais, como a imprensa escrita ou a televisão, vemos que há um crescente debate mundial sobre seu lugar em nossa sociedade. O questionamento ao poder de grandes corporações midiáticas como o grupo Murdoch ou Berlusconi na Itália e as leis e projetos na Argentina ou Equador para conseguir uma maior diversidade midiática mostram um debate muito intenso a respeito. O que você pensa sobre essas iniciativas?

  Assange: Nós vimos em nossa própria luta como o grupo Murdoch ou o grupo Bonnier na Suécia distorceram deliberadamente a informação que forneceram sobre nossas atividades porque suas organizações têm um interesse particular no caso. Então temos, por um lado, a censura em nível do Estado e, por outro, o abuso de poder de grupos midiáticos. É um fato que os meios de comunicação usam sua presença para alavancar seus interesses econômicos e políticos. Por exemplo, “The Australian”, que é o principal periódico de Murdoch na Austrália, vem sofrendo perdas há mais de 25 anos. Como isso é possível? Por que ele segue mantendo esse veículo. Porque ele é utilizado como uma arma para atingir o governo para que este ceda em determinadas políticas importantes para o grupo Murdoch. O presidente Rafael Correa faz uma distinção entre a “liberdade de extorsão” e a “liberdade de expressão”. Eu não colocaria exatamente assim, mas temos visto que o abuso que grandes corporações midiáticas fazem de seu poder de mercado é um problema. Nos meios de comunicação, a transparência, a responsabilidade informativa e a diversidade são cruciais. Uma das maneiras de lidar com isso é abrir o jogo para que haja um incremento massivo de meios de comunicação no mercado.


Tradução: Katarina Peixoto

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Do sentimento trágico da vida





Não há revolta no homem que se revolta calçado.
O que nele se revolta é apenas um bocado
que dentro fica agarrado à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente e parte em filosofia
 é porventura a semente do fruto que nele nasce
 e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido sem descobrir
o sentido do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte que nos mata devagar.
E só depois de informado
 só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
 ironia de saber
o que só então se sabe e não se pode contar.
 
 
Natália Correia, nasceu na ilha de São Miguel (Açores) - 1923-1993. Poeta e ativista social, foi deputada na Assembléia da República, em Lisboa, defensora dos direitos humanos e dos direitos da mulher.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Coração de boca fechada


Coração de boca fechada
À venda por um e noventa e nove
Plastificado em flor
Silenciado em copo de vidro
Copo metade cheio
E por inteiro vazio.

Somos todos poetas

  
 
 
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
 Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso
 e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
 
 
Murilo Mendes, Juiz de Fora (MG) - 1901-1975

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Da série poemas II



Enquanto giram
os dedos
mudam de tom
as palavras
na  caligrafia
afogada
de uma xícara de
café
porcelana rendada
em movimentos
ausências e
amanhãs.

Um pouco de Auden


" Todos os outros traduzem: esboça o pintor
   Um mundo visível que se ama ou detesta;
   Vasculhando a existência, captura o poeta
   As imagens que unem e que causam dor. "

" Quando os amantes se encontram
   Acabou-se então a escrita
   Da Razão e da Analítica:
        Nos seus amores são iguais
  Os mortos e os amantes:
  Camponeses e estudantes,
  Os poetas e os seus críticos,
        Numa cama são iguais. "


"Reflexões"

"O império do tempo", século XVI
 
 
Mesmo que os anos de tua vida fossem três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida a não ser a que vive agora, nem vive outra a não ser aquela que perde. O termo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, que é um lapso brevíssimo. Ninguém perde o passado ou o futuro, pois ningém pode ser privado do que não tem. Lembra-te de que todas as coisas giram e tornam a girar pelas mesmas órbitas, e que para o espectador dá no mesmo vê-las um século, ou dois, ou infinitamente.
 
 
Marco Aurélio, imperador romano. (121-180, de nossa era)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poema a boca fechada





Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaso de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
 
 
José Saramago

Da série poemas




Das cicatrizes
não reveladas
pela monotonia das palavras
silenciadas e fatigadas
de sinceridades
e outras sodas
rompem-se os segundos
dentro das inutilidades
do tempo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Conclusão

 
 
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
 
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
 
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
 
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
 
 
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia poética - Editora José Olympio, 1983

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A menina que odiava livros

 


Vinhetas

As palavras podem servir como lanterna de pilha na hora do apagão do sofrimento. Mas pode ser pouco para o coração, esse músculo exigente. Ele ainda prefere mão amiga no ombro, calor de abraço ao vivo, coisas ditas cara a cara. Ainda que a amizade virtual dure e crie raízes no tempo, faz falta a imperfeição humana da presença.



Há senhôras da sociedade, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres de nossa história e até pessoas simples, legalistas, conservadoras, seres medianos sem culpa no cartório que não admitem ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. São diferentes mesmo, é claro – não existe alguém igual a outro neste mundo, nem gêmeos idênticos. Mas todos, sorry, se nivelam em certas semelhanças, e nem falo só dos sete palmos. Tão lembrados?



Amor e ódio são como dois rios que nascem juntos e seguem assim até que uma chuva forte misture suas águas. Não sei se é mais fácil limpar o rio depois da chuva ou o coração depois do desentendimento.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Criador(a) e criaturas...

 


Há quarenta ou cinquenta anos, um crítico fez uma lista particular de escritores e poetas que ele pessoalmente considerava os únicos que prestavam na literatura, e descartou todos os demais. Ele defendeu essa lista amplamente em publicações, pois a Lista instantaneamente virou assunto de debate. Milhões de palavras foram escritas pró e contra - escolas, seitas, favoráveis e contrárias, vieram a existir. A discussão, após tantos anos, prossegue...e ninguém julga esse estado de coisas lamentável nem ridículo...
Daí, existem livros de crítica de imensa complexidade e erudição que tratam, quase sempre em segunda ou terceira mão, de trabalhos originais - romances, peças, contos. As pessoas que escrevem esses livros formam uma camada nas universidades do mundo inteiro: são um fenômeno internacional, o ápice dos intelectuais. Passam suas vidas criticando, e criticando as críticas dos outros. Eles pelo menos consideram essa atividade mais importante do que o trabalho original. É possível a alunos de literatura passarem mais tempo lendo críticas e críticas de críticas do que lendo poesias, romances, biografias, contos. Muita gente considera normal esse estado de coisas, e não lamentável nem ridículo...
Daí, quando sai um livro sobre certo assunto, digamos contemplação dos astros, instantaneamente um punhado de faculdades, associações e programas de televisão escrevem ao autor convidando-o para falar sobre contemplação dos astros. A última coisa que lhes ocorre fazer é ler o livro. Esse procedimento é considerado normalíssimo, sem nada de ridículo...
 
 
Doris Lessing,  em O carnê dourado ( Prefácio )


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

homem, escada de si

Michael Eastman
 
 
"homem, escada de si"
era o que pensava,  antes
 
subirei até diante
dos deuses, até o fim
 
os degraus que descobrí
só desciam, entretanto
 
fui descendo tanto, tanto.
cheguei ao fundo de mim
 
agora resta voltar
quero subir do meu ser
 
fugir de quem me empareda
de quem respira o meu ar
 
de quem sussurra, a dizer
"não sou escada, sou queda".
 
 
Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, em As visitas que hoje estamos - Editora Iluminuras

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Versinhos



Do amor
sem ponto e vírgula
reticências e interrogações
suspendem-se palavras
seja como for...

Entre flores
mapas
e raios
balançam-se dedos
melancolias
e um tantinho de dor...

De lá
onde a janela se abre
sobem em árvores
os telhados
as nuvens
e uma saudades
sem tirar nem por ...










Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

O lutador



" ...Lutar com palavras
 é a luta mais vã.
 Entanto lutamos
 mal rompe a manhã.
 São muitas, eu pouco.
 Algumas, tão fortes
 como o javali.
 Não me julgo louco.
 Se o fosse, teria
 poder de encantá-las.
 Mas lúcido e frio,
 apareço e tento
 apanhar algumas
 para meu sustento
 num dia de vida..."

Fragmento do poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade

O avião



Enquanto o olhar insistia
em ver contornos
no escuro
e os momentos pesavam como gotas
sobre um lago
o avião passou
e dividiu a noite.

Enquanto o sono fugia
redescobriu o tempo
e a novidade antiga
de além muros.

Mais longe
de onde vinham seus momentos
o avião chegava a uma terra
que ele bem conhecia.