quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fausto: "Velas e navios sobre as águas"



Há 28 anos Fausto publicou o melhor album de música portuguesa " Por este rio acima". Depois veio a "Crónica das terras ardentes". Finalmente este ano surgiu o fim da trilogia na forma do albúm maravilhoso "Em busca das montanhas azuis".
É a história da epopeia portuguesa dos Descobrimentos. Escolhi esta música deste albúm.
f
Fiquem bem.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Pele deitada em solidão

Pele deitada em solidão,
recebe o tempo do ser
que é seu.
Pele deitada sobre o prazer,
naufraga
o mar.
Pele deitada em ilhas,
desancora o silêncio
e se refaz no nó
guardado nessa forma
de mulher.  

Relato sobre pássaros

Deixar ser o verbo, a poesia, a vida no movimento constante da procura pela libertação do ser é tarefa de muitos, realizada por poucos. Deixar ser o que tiver de ser na luta diária de se desamarrar das nossas próprias amarras. Acreditar na capacidade e na beleza de ser simplesmente o que se é e deixar fluir. Deixar fluir a gama de pássaros que vem e vão em vão! Pássaros idéias, pássaros poemas, pássaros afetos, pássaros desenhos, pássaros preces, pássaros silêncios, pássaros músicas, pássaros canções, pássaros desejos, pássaros ações. Existem pássaros por toda a parte. pássaros presos, pássaros soltos, pássaros mortos. Libertem os pássaros, deixe que eles voem para onde quiserem! Capta pássaros e solta-os no movimento da vida da ação e reação da natureza. E como somos por vezes movimento incessante, inquietações turbulantes quanto existem revoadas de pássaros na alma que mais parecem surtos. Aprendamos a escutar o canto dos pássaros, seus ritmos, suas passagens, suas preces e até os seus silêncios. E por fim não deixemos os pássaros enjaulados dentro de nós!



sábado, 25 de fevereiro de 2012

Presença de Manuel Bandeira em 1922






Os Sapos


Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

Manuel Bandeira escreveu esse poema em 1918, foi publicado em 1919, e em 1922 Ronald de Carvalho o declamou por ocasião da Semana de de Arte Moderna em São Paulo, dando início ao Modernismo na Literatura e nas Artes no Brasil. Nesse poema Manuel Bandeira satiriza os poetas parnasianos comparando-os ao coaxar dos sapos, pois essa corrente da poética só aceitava a poesia rimada, formal.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Anonymus e a guerra da informação digital



Paris - Guy Fawkes nunca pensou que sobreviveria a tantos séculos, e menos ainda que, mais de quatrocentos anos depois de suas andanças, a máscara que o representa se converteria em pleno século XXI no emblema daqueles que – desde os indignados até os guerreiros digitais do Anonymous, passando por toda a galáxia dos grupos antiglobalização – se opõem ferreamente à ordem de um mundo ultraliberal, depredador e indolente.

Este católico que, no dia 5 de novembro de 1605, quase conseguiu fazer voar pelos ares o Parlamento inglês com 30 quilos de pólvora, com o rei James I dentro, é o rosto oficial da revolta ocidental e, mais precisamente, o distintivo com o qual o grupo de hackers reunido sob a denominação de “Anonymous” se apresenta ao mundo. Suas ações já são parte da resistência permanente contra toda forma de violação de liberdade segundo os critérios com os quais Anonymous a entende.

Presente há vários anos na cena do hacking contestatório, Anonymous ganhou fama quando, em 2010, em plena ofensiva oficial contra o fundador do Wikileaks, Julian Assange, o grupo atacou as empresas multinacionais que tinham se somado ao boicote instrumentalizado pelo governo dos EUA contra todas as fontes de financiamento do Wikileaks: os portais de Amazon, PayPal, Visa, MasterCard e Postfinance, a filial dos serviços financeiros dos correios suíços, foram bloqueados pela operação Payback montada por Anonymous contra essas empresas que, sem ter nenhuma ordem judicial, trataram de impedir que o dinheiro chegasse a Wikileaks.

Era a primeira vez na história que se realizava uma ofensiva dessa magnitude não mais em nome do ciberanarquismo, mas sim em defesa de certa forma de liberdade.

Quem são e de onde vem esses valentes que ousaram penetrar as portas mais protegidas para ferir o coração do sistema? Frédéric Bardeau e Nicoals Danet, os autores de um destacado ensaio sobre Anonymous (“Anonymous: piratas informáticos ou altermundistas digitais?’), descrevem a influência desta galáxia sem hierarquia nem manual de instruções como “um movimento que modifica a relação de formas no interior da sociedade”.

De ação em ação, Anonymous instalou-se na paisagem política mundial e excedeu em muito a herança de seus pais culturais, a saber, toda a cultura contestatória norteamericana dos anos 70 perfeitamente representada por Stephen Wozniak, co-fundador da Apple, e Richard Stallman, o iniciador do projeto GNU.

Anonymous se plasmou em quatro operações muito ousadas. A primeira: os ataques contra a igreja da Cientologia, em 2008. A segunda: a ciberofensiva contra o escritório de advocacia Baylout, defensores dos direitos autorais da indústria do disco e do cinema nos Estados Unidos, e contra o portal da Motion Picture Association of America (MPAA), associação que o Anonymous persegue por suas “políticas excessivas” na proteção dos direitos autorais. Terceira: a intervenção a favor de Assange no que ficou conhecido como o primeiro episódio de uma autêntica guerra da rede. Coldblood, um dos porta-vozes do Anonymous, explicou então que a operação em defesa de Assange estava se convertendo em uma guerra, mas não uma guerra convencional. “É uma guerra de informação digital. Queremos que a internet siga sendo livre e aberta para todo mundo, como sempre foi”. O quarto episódio remonta ao dia 19 de janeiro, logo após o fechamento do site Megaupload e a prisão de seu criador, o multimilionário Kim Schmitz. Lançados dos quatro pontos cardeais do planeta, os ataques orquestrados por Anonymous bloquearam os portais do Ministério da Justiça dos EUA, da Casa Branca, da Warner, da Universal, do FBI, do organismo que supervisiona a internet na França, Hadopi, e a estrutura que administra os direitos de autor, a Sacem. Anonymous conseguiu inclusive penetrar no portal da presidência francesa e modificar as mensagens de boas vindas.

A quinta e última ação ocorreu há apenas alguns dias. Um grupo que se identificou como Anonymous divulgou a gravação de uma “reunião” telefônica entre o FBI e a polícia britânica, na qual se falava de ações contra os ciberativistas. Onde estão para conseguirem se meter nestas conversas tão íntimas? “Em todas as partes”, respondem Frédéric Bardeau e Nicolas Danet, os autores do ensaio sobre Anonymous. Estes dois especialistas observam que os Anonymous não são piratas propriamente, pois não roubam nada. Tampouco são “terroristas”, mas “um fenômeno muito mais vago cujo único fio condutor é a defesa da liberdade de expressão”. Bardeau e Nadet contam que, em certo momento, “a CIA tentou realizar um perfil dos simpatizantes de Anonymous: era tão indefinido que terminava apontando para a metade do planeta”.

Seu lema tornou-se realidade: “somos legião”. Neste sentido, Frédéric Bardeau destaca que os Anonymous não se enquadram em nenhum rótulo. “Não são nem anarquistas, nem sindicalistas revolucionários, nem marxistas. É um movimento pós-moderno, anônimo, planetário, descentralizado. Entre os Anonymous do Brasil, muito fortes e mobilizados contra a corrupção, e os da Áustria e Alemanha, todos antifascistas, não há unidade, mas sim denominadores comuns como a liberdade e a neutralidade da rede”. Diferentemente dos indignados ou de outros movimentos antiglobalização, Anonymous atua a partir do anonimato: não há partido político, nem fórum, nem cúpula, nem manifestação. Sua identidade física é a máscara de um militante católico britânico do século XVI e seus territórios são estes: irc.anonops.li, twitter@AnonOps, @AnonymousIRC, Facebook Anonymous, AnonOps.blogspot.com.

A origem do nome provém dos fóruns anárquicos 4chan (*). Neste portal norteamericano é fácil inscrever-se e cada participante recebe o pseudônimo de “Anonymous”. Estão em muitos lugares ao mesmo tempo, alguns são hackers aficionados, outros não, universitários, empregados, militantes de uma ou de muitas causas. Anonymous realiza a sua maneira o desejo não confesso de muitos cidadãos do planeta: colocar uma pedra na engrenagem da perfeição ultraliberal, abrir a cortina de sociedades ultrapoliciais que só protegem os interesses do poder. Nicolas Danet comenta que “Anonymous é um pouco como o voo dos pássaros migrantes. Formam uma massa que conhece o objetivo, mas um pássaro pode deixar o grupo a qualquer momento”. Os vídeos de Anonymous já são famosos, tanto pelo conteúdo como pela voz metálica que anuncia: “Somos legião. Não perdoaremos, não esqueceremos. Tenham medo de nós”.

(*) 4chan é um imageboard em inglês. Lançado em 1° de Outubro de 2003, seus sub-fóruns eram originalmente usados para postagem de imagens e discussão sobre mangás e animes. Os usuários geralmente postam anonimamente e o site já foi relacionado com subculturas da Internet e ativismo (Wikipédia)

Tradução: Katarina Peixoto - http://www.agenciacartamaior.com.br/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ibrahim Ferrer & Omara Portuondo - Quizas



A poesia é pungente
É perigo a poesia
Ela nos mata e consome
Ela aumenta a nossa fome
Desperta a filosofia
A poesia é oração
A oração é uma prece
De quando minh'alma desce
Para o mundo a desvendar
O silêncio deste amor
O canto daquele sanhaço
O sangue que virou vinho
O corpo que virou pão
A florada do meu laço
A vida no lento compasso
Do teu cavalo tordilho
Deixou meu corpo em bagaço
E minha alma um sertão.

*****

E quando alí retornarmos
Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos.

Ana Miranda, Fortaleza(CE), em Prece a uma aldeia perdida.

De «Senhora da Noite», o novo álbum de Mísia

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

eu em mim

AUTO RETRATO




Sou a lágrima furtiva,
o engano em forma de vida;
da fotografia, sou o negativo,
na natureza, sou o desvio.
Não sou sombra, sequer o abrigo.
Do destro,sou a mão esquerda;
na companhia, sou a ausência-
das palavras, sou o silêncio.
Sou o ápice da dor,
sou o espinho que feriu
em forma de coroa, o Criador.
Sou a mãe que não vingou
borboleta sem cor
perdida num mundo
imundo de amor?
Sou a obra inacabada de Mondrian,
sou o que ele não acabou.



Mirze Souza

O carnaval está na rede


EFLÚVIOS MOMESCOS

O carnaval está na rede

Por Luciano Martins Costa em 20/02/2012 na edição 681
Comentário para o programa radiofônico do OI, 20/2/2012

A imprensa tradicional ainda faz uma representação aceitável da realidade na sociedade contemporânea? A questão vem à tona neste período carnavalesco, em que de modo geral os costumes se esgarçam e aquilo que é considerado imoral no resto do ano se transforma em qualidades positivas do espetáculo.
Sob o mote da alegria, vale quase tudo: as páginas dos jornais e a tela da televisão se transformam em passarela de periguetes e outros personagens sobre os quais, em outras ocasiões, a mídia tem olhos mais críticos.
Pode-se dizer que isso é natural como a dinâmica social: sob o signo de Momo, arquivam-se certas responsabilidades, guardam-se os preceitos da linguagem culta e vamos que vamos. No entanto, pode-se perceber um padrão moral conservador subjacente ao discurso aparentemente liberal com que são tratadas as notícias sobre os quatro dias de folia.
Corregedora moral
Vale para o carnaval, de modo geral, o padrão que convém ao se tratar de eventos relacionados, por exemplo, a um programa como o Big Brother Brasil.
Como parte do jogo, os protagonistas do reality show estão comprometidos com certas rupturas do comportamento socialmente aceitável. Eles são contratados para ousar e, eventualmente, chocar o público. Até mesmo certos desvios, como o caso em que um dos participantes foi acusado de estupro, são absorvidos na largueza de valores em que se instala o produto de entretenimento, como um de seus predicados comerciais.
A luta pela audiência justifica praticamente tudo. A questão se torna mais complexa quando se observa que a mesma organização acumula créditos de audiência no campo do entretenimento para ampliar ou consolidar sua presença no campo do jornalismo, onde os valores são muito outros. Essa dicotomia se apresenta, por exemplo, em detalhes na cobertura de crimes de grande repercussão, como ocorreu na semana passada.
Na sua faceta entretenimento, a organização de mídia aborda festiva e descuidadamente a coisificação do ser humano, em especial da mulher, e na faceta jornalística tenta se impor como corregedora da moral, do respeito à diversidade social, de pressupostos que a identificam com o que se imagina deva ser a sociedade contemporânea.
Sem reserva de mercado
Essa condição característica do duplipensar já foi absorvida de tal forma pela persona jornalística das organizações de mídia que só lhes resta transformá-la em qualidade a ser admirada. Assim, também no contexto restrito do jornalismo, valem os dois pesos e duas medidas, de acordo com o protagonista da história.
Por trás das escolhas de edição não parece haver dúvidas, mas existe uma tabela de valores e um index que relaciona personagens gratas e desafetos. De um lado, o permissionismo deslavado das imagens de carnaval e do Big Brother. Do outro, uma parceria com as forças mais conservadoras da sociedade a obstruir o debate sobre a questão da descriminalização do aborto.
Assim, a notícia, como ruptura previsível do estado latente no espaço público é um fato constantemente esperado porque sempre acontece alguma coisa noticiável. Mas o acontecimento não parece disturbar o ambiente das redações, porque a primeira decisão é sempre a de enquadrar em padrões domésticos os elementos de caos presentes no inusitado.
Mas os processos de tomada de decisão, planejados para sistemas estáveis de produção, cujo limiar é definido pelo acionamento das máquinas na gráfica, talvez não sejam mais adequados para a sociedade hipermediada.
As estruturas das redações, divididas em cadernos especializados, talvez não sejam mais adequadas para a tarefa de captar os fatos e transformá-los em produto noticioso. Mas elas não podem mudar porque justificam o sistema vertical de gestão, que garante a padronização das opiniões explícitas ou dissimuladas que estão contidas em todo material jornalístico.
E essa talvez seja a principal contradição e o grande desafio para a chamada imprensa tradicional: ela precisa se abrir para a inovação, para ser capaz de concorrer com os novos protagonistas do meio digital, principalmente os estrangeiros. Mas sua estrutura conservadora é avessa ao espírito inovador.
Enquanto puderem, as empresas brasileiras de comunicação vão tentar preservar sua reserva de mercado – embora todas elas estejam dispostas a receber o dinheiro de investidores estrangeiros. Mas a cada novo avanço das tecnologias de comunicação e informação, menos se justifica a manutenção dessas estruturas.
Não há reserva possível para o mercado difuso da notícia. As imagens do carnaval brasileiro, por exemplo, estão em sites de todo o mundo, e até em emissoras que podem ser captadas gratuitamente pelos tablets.
O mundo desfila na rede.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Pele



Dói a pele como sempre
doeu. Por estar esticada,
por estar ressequida, por
estar marcada ou lisa, por
muita ou pouca vida.


O fato é que a pele sempre
foi ferida a estampar-se para
quem quisesse vê-la. O fato é
que a pele sempre foi aberta,
por mais que fora, também,
membrana seletiva, a impor
sua resistência a qualquer
aproximação ativa de
qualquer outro. Ou
mesmo, à ambiência.


O fato é que a membrana
delibera ações, atrai e exclui.
Como um ímã. Como uma sirene.
Como uma cloaca. O fato é que há
a tal química também, mas não tão
simples: atração, resistência, seletividade
da pele áspera, frente a um estranho ou à
cara metade. A pele é rude. Como um
poema que se interrompe.

(Marcelo Novaes)

Da série sem seu amor não sei nada III

Fotografei o início do mundo pra você me saber.
Acordei antes do céu.
Acordei antes do sol.
Fotografei a espuma perdida da onda;
Flutuei pra não machucar o chão.
Brinquei de pele com a areia e guardei pra depois um último grão.
Estacionei o sonho pra você não partir.
Estacionei o amor pra você me parir.
E, sobre as horas, escrevi uma frase
e a colei nessas madrugadas
de nuvens sem os seus olhos de
arder.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Carnavalizem-se!!!


Que o Galo anuncie


NOVAS MADRUGADAS


a todos aqueles que,


de uma forma


ou de outra


participam do 'Mínimo Ajuste'




beijos festivos!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ÍTACA





Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colérico Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.

Roga que tua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.

Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.


Konstantinos Kaváfis, Grécia (1863-1933)

Tradução de Haroldo de Campos.

Duo Ouro Negro /**Muxima**



Esta é a minha cidade, e esta é a única versão possível desta música.
beijo.

Waldemar Bastos - Muxima

Querida Angola - Waldemar Bastos

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Muxima" (Coração) *



Muxima ue-e-e-muxima

u-e-e muxima!

Se maldizes o meu feitiço,

leva-me a Santana!

O louco mata qualquer um,

o louco mata qualquer um,

o louco mata qualquer um,

mas louco com louco, não briga.

Muxima ue-e-e muxima

ue-e-e muxima.


* A palavra "Muxima" significa coração. É o nome da povoação do distrito de Luanda. Essa canção pertence ao folclore de Angola.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Prospecção



Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.


Miguel Torga, Portugal - 1907-1995

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Saudade é janela

Estar em viagem é algo muito solitário, penso eu. Mesmo que estejamos em excursão, coisa que detesto, em meio a uma multidão, sempre é o nosso olhar que vê determinada coisa, um pequeno detalhe que torna aquele momento especial, aquele monumento ou paisagem inesquecíveis, um cheiro, um sabor, aquele beijo... é porque partimos carregados de passado, de tudo que nos aconteceu e que nos formou. O que encontramos adiante, depois da partida, é capturado a partir de todos esses prismas, todas essas informações e nisso é impossível ter uma percepção coletiva, é tão somente nosso como este sabor de café que sinto agora em minha boca, enquanto escrevo, deitado numa cama que nunca foi minha e que passou a ser há três semanas. Isso de pertencimento também muda tanto. Algo que nunca foi e nunca mais será, começa a te pertencer temporariamente e isso também é a viagem. O cheiro do sabão em pó, a luz que entra pelo teto de vidro da cozinha, o quintal cheio de neve demorando a derreter, a cortina, o abajur, os três potinhos coloridos de palha e o rádio antigo que nunca cantou para mim. Nunca mais os terei, mas serão tão meus quanto a televisão no chão do quarto em Salvador, os três colchões empilhados no lastro, o guarda-roupa de cupim, as gavetas, as prateleiras e o corredor. Como também me perteceu a escada, a varanda, o telhadinho na frente da casa por onde Patricia fugia dos castigos e as janelas, os paralelepípedos e antes o chão de barro. Como aquele imenso corredor, quarto do meio, do santo, banheiro, bengala, torradas e janela que se abria para a rua que dá na praça. Talvez nunca mais os possua, certeza não possuir, mas são meus para sempre.

Eu falava de saudade.

Eu senti saudade antes mesmo de partir e vim compreender o porque há pouco tempo. Não era saudade do que ficou, não é somente porque deixei as pessoas lá, mas porque não as tenho aqui para copartilhar. Saudade, para mim, é esta falta de compartilhamento deste sabor de café que ainda está na boca, destes potes coloridos, do abajur, da neve, da cortina, da cama e sabão em pó. É porque ninguém sabe, nem saberá, quais as músicas que ouvi, o que senti, quais as minhas alegrias e tristezas e porque as senti. Saudade é quando a viagem se torna apenas silêncio, enquanto o mundo se agita aqui dentro e não tem quem venha ver nessa janela aberta.

A condição indestrutível de ter sido

Arranca do interior
a pele do meu livro,
escrita inconstante de um silêncio
incerto como os movimentos de meu corpo,
como as cápsulas guardiãs
dos mitos e dos suspiros,
das linhas que não ultrapassam e
não respiram
a condição indestrutível de ter sido,
por alguém,
um amor perdido.

Matemática e Poesia



Esses números que crescem e crescem sem descanso,

0,9, 0,99, 0,999, 0,9999, 0,99999......

Aproximando-se cada vez mais da unidade,

acariciando-a sem conseguir tocá-la;

esta sucessão numérica é também poesia.

É como uma rima inacabada e suspensa,

como uma esperança sempre insatisfeita,

como um desejo que nunca se detém,

como um horizonte próximo, mas inalcançável...

Triângulos, círculos, polígonos,

elipses, hipérboles, parábolas,

soam em nossos ouvidos desde Euclides

como formas geométricas abstratas,

figuras ideais que convivem conosco,

porque também no amor existem triângulos

e no céu se desenha o arco-íris sem compasso.

Seguem sempre juntas linguagem e geometria

pois na fala se escondem as elipses,

nos livros sagrados se fala de parábolas

e nos poemas épicos disparam as hipérboles.

Números e formas, imagens e ritmos,

ordem e luz em versos e em teoremas,

com um toque supremo de harmonia,

estão juntas na memória dos tempos,

juntas estais matemática e poesia.


Gonzalo Sánchez Vásquez, Sevilha, 1917-1996

Wislawa Szymborska II


Possibilidades

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que  amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas  ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um poema de Arthur Rimbaud



A ETERNIDADE

Tradução: Augusto de Campos

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Arthur Rimbaud nasceu em Charleville, França (1854-1891)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Céu de Ametista





Minhas mangas estão molhadas. Minha
calça, suja de sangue. Há sangue na minha calça, na
coxa direita. E um céu de ametista paira sobre
minha cabeça.

Não sei se esse sangue é meu ou mau.
Se já está seco. Não sei se menstruei
sem saber, e se ele me jorra perna
abaixo.

Sei que hoje vi uma mancha na
parede da sala de uma casa
que procurei pra alugar. E
que essa mancha, agora, me
faz corar de medo. Porque
parecida com a da minha
calça.

No mesmo formato de duas
cruzes superpostas. É melhor arrumar
as malas e sair de casa, antes
que a polícia me persiga, a mim e à
minha família. E a todos,
sob esse céu de ametista.

A mancha, a calça, tudo dá na
vista.

Certamente serei acusada de ter
conduzido um homem até sua
morte. Encapuzada. Pra local
ignorado.
Eu sei como são as
coisas.

Eu sei das coisas
todas e das trevas.

Dirão que eu convidei meu pai e
minha mãe pra assistir a tudo.
Por requinte de crueldade. E
eles confessarão tudo, sob
tortura e juramento.

Direi que esqueci, mesmo sob
tortura, eu que sou mais dura
e firme e reta em minha
postura.

E também sei ser discreta.

Direi que esqueci e que, se assim o fiz,
não foi por maldade. Mas por instinto.
Cego.

Na vida há coisas das quais não
lembramos. É normal. Como não saber
de onde vem o sangue que nos suja a calça
ou o avental.

De qualquer forma, acho que já estão
falando de mim na televisão e no jornal.
Acho que estão dizendo [e devem estar
dizendo, pressinto, como é certo que
abaixo do céu só existe labirinto],
que fui eu que fugi com o dinheiro
do Banco
Central.

Mas eu não sei. Como não sei se esse
molhado todo em mim mesma é sangue ou
mijo ou suor frio. Mas sei que o sangue na minha
calça já está seco. Pelos meus cálculos, devo ter
cometido o crime há duas horas e meia.
O tempo que demoro pra expelir minhas
pedras dos rins, pela uretra
estreita.

Eu me lembro das dores do parto que
tive com meus dois, três ou quatro filhos.
Não me lembro quantos. Mas me lembro
de quando me acusaram pelo envenenamento
de seis meninas num
país vizinho, e de
atravessar a fronteira no lombo de
um carneiro, com máscara
ninja.

Eu me lembro de quando disseram também
que eu coloquei aquelas substâncias químicas
horrorosas deletérias venenosas nas pílulas das
mulheres e nas balas das crianças.

Eu me lembro
de quando fizeram campanha contra mim,
acusando-me de lésbica promíscua anti-
feminina anti-feminista, em todas as
esquinas.

Eu me lembro de quando marcaram hora
para o evento, a partir do Big Ben de Londres.
Sei também que dizem que tenho complexo de
grandeza. Sei que Big Ben além de relógio em
Londres é nome da boate onde dizem que me
escondo de ninguém.






Acho que é por isso que eu não a
encontro mais: a hora. Devem tê-la
explodido durante a noite, ou algo
parecido. Devem ter mexido nas
instalações elétricas da cidade pra
ser claro onde devia ser escuro,
e também o contrário.

Tudo para que eu me confunda e não
saiba dizer direito o dia a hora o local
da vala cova ou sepultura.

Eu conheço o esforço humano pra me
pegar no pulo. Ou no colo. Eu conheço
as manhas humanas pra me pegar de quatro,
eu conheço as taras e os engenhos [uns oitocentos
e tantos] pra me fazer cair em contradição num
depoimento.

Podem ter plantado esse sangue na
minha coxa como colocaram aqueles
papelotes na minha bolsa no mês passado.

Eu sei que as pessoas querem achar um
bom motivo pra me encarcerar. Talvez
porque não me lembre de quem matei:
se pai mãe tio ou motorista de alguém
que nem sei.

Talvez porque não saiba se esse sangue é
meu ou de uma cabra que sacrifiquei no
altar a Zeus.

Não sei se me veio de animal de
pagão ou do sacrifício de Santa
Perpétua no Coliseu de Roma
Antiga.

Não sei se eu fiz parte da armadilha a
ela ou do armistício. Interrogo a este
céu de ametista e ele só me responde
de vez em quando.

E conta das coisas que contra mim o
mundo anda
tramando.

Podem ter plantado esse sangue.
Não sei se é de gente animal ou
de meu nariz mal assoado,
afinal.

(Marcelo Novaes)


Quedamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores

A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.

A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.

Helena Kolody, poeta paranaense, (Cruz Machado) - 1912-2004
Em: Correnteza

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Só reconhece as sombras quem já viajou pela luz”




Entrevista com o poeta português Jorge Pimenta


RV - Jorge, meu amigo... adoro te ler! Pelos comentários em teu blogue percebemos o quanto teus textos são bem recebidos pelo público leitor. Mesmo com essa admiração explícita pelo que tu escreves, bate alguma insegurança em relação à qualidade de teus textos? (Joelma Bittercourt)
JP - Joelma, num primeiro assomo, o texto é apenas sopro de olhar uterino; a relação com o exterior surge mais tarde, depois de parida a cria, lambida, despida das secreções e vestida. Mas, mesmo assim, tantas vezes o poema se faz Lianor que, descalça segue para fonte “fermosa e não segura”... Mas nunca o dou a ler antes da publicação, confesso.
Essa insegurança não é adstrita ao momento da postagem no blogue; raramente releio os meus textos à posteriori, mas quando o faço, algum tempo mais tarde, tendo a mexer-lhes, a despi-los deste adorno e a revesti-los daquele; e neste diálogo quase interminável, apercebo-me que somos, de facto, os textos: eles mudam connosco e jamais permanecem atolados numa única franja de tempo.


RV - Teu modo simpático e gentil de tratar a todos que te cercam no meio virtual e a demonstração de uma leitura atenta, percebida pelos comentários que fazes, devem ser algumas das causas da grande simpatia e carinho que despertas nas pessoas com que te relacionas através de blogues ou que falam a teu respeito em outras circunstâncias virtuais. Como recebes este carinho todo? Beijinho de sua amiga e fã eterna! (Joelma Bittencourt)
JP - A minha relação com o blogue é já antiga; comecei com o circum-viagem em novembro de  2007 [que correspondeu a uma fase particular da minha escrita e, por que não dizê-lo, da minha vida]; seguiu-se-lhe, após um curto interregno, em setembro de 2009, o atual viagens de luz e sombras. Move-me a partilha pela palavra, sendo ela o ponto de entrada e de saída de todas as relações que neste mundo, real ou virtual, consigo estabelecer. E é por ela e nela que comento, que replico, que distendo, que silencio… Nem sempre as ligações se perpetuam [nada na vida é definitivo e – esta é mesmo a citação que mais vezes invoco – “nada te pertence; tudo é de tudo o que passa” [Jordi Virallonga]], razão por que sigo, dessigo, seguem-me, perdem-me o rasto. É natural, na vida há momentos em que temos maior ou menor apetência para, maior ou menor disponibilidade para, maior ou menor empatia com, todavia, enquanto a palavra aproximar, eu estarei presente.
Já em jeito de nota de rodapé, acrescentar que, nalguns casos, a palavra ganhou forma e fez-se gente, gente de verdade. Sim, fiz amizades verdadeiras na blogosfera, amizades na terra que piso mas também amizades além-oceano, amizades que prezo, alimento e valorizo, algumas delas já chanceladas pelo abraço de carne e osso.


RV - Jorge, amigo querido, creio que compartilhamos duas grandes paixões: a poesia e a educação. E quando penso nessas paixões, a palavra “desejo” (das mais bonitas que conheço) materializa-se diante de mim, fazendo-me pensar que para ensinar, para aprender e para fazer poesia é preciso que nos reconheçamos como seres desejantes. Não falo isso pensando apenas em Freud ou Lacan, que de forma tão brilhante permitiram tantas reflexões sobre o papel do desejo nas nossas vidas. Falo porque vivo a desejar! Vivo a pensar que poesia e educação ocupam em mim um mesmo espaço de entregas e delicadezas. Então, meu amigo, pergunto: qual o lugar da falta e do desejo no teu espaço de criação como poeta e como educador? Beijos carregados de carinho e admiração, Jorginho! (Dani Delias)
JP - Dani, o desejo é uma inerência de quem respira.
Todas as projeções positivas que deixamos germinar dentro de nós procedem do desejo. Assim, aquilo que mais genericamente designamos de felicidade e utopia prende-se com a questão do que pretendemos, por um lado, e do que realmente conseguimos tocar, por outro. Ora, na minha vida, a poesia e o processo de ensino-aprendizagem ocupam um lugar-charneira, o que desde logo os transforma em territórios amplos do sonho e de [quase] todas as utopias, lugares que bordejam os limites das emoções e da racionalidade. Tocar o coração de um jovem com um poema ou tocar o coração de um poema com o olhar de um jovem são tarefas que procuro harmonizar, nunca perdendo de vista as aprendizagens puras e duras. Mas, como em tudo na vida, aprendemos e problematizamos muito mais aquilo de que gostamos do que aquilo que nos impõem ou não nos interessa.
Difícil para mim, por vezes, é harmonizar o que sinto ou penso como objetos de desejo. Mas, porque não estabeleço fronteiras entre as malhas da razão e as do coração, considero que o professor e o escrevente tendem a completar-se tão bem quanto as duas funções vitais humanas anteriormente citadas. Aliás, o que seria de D. Quixote sem Sancho Pança?...


RV - Jorginho, a vida e a poesia podem caminhar juntas ou podem tomar caminhos diferentes e até contraditórios? (Tânia Contreiras)
JP - Taninha, não conheço outra forma de me relacionar com a poesia que não seja deixando a vida entrar nela. Do mesmo modo que nenhuma vida o é inteiramente sem poesia e o que de mais profundo a poesia nos deixa tocar. O que são uma e outra senão respiração, afinal?
E a dualidade poeta/sujeito lírico? E os limites de um e de outro? E as mentiras, onde começam, e as verdades, onde acabam? E as certezas efabuladas e as meias verdades escondidas? Nenhuma retórica poética desvincula aquele que canta do que sente; estou convencido de que nem mesmo no lirismo trovadoresco, quando os trovadores se transvestiam de mulheres suspirando pelo amigo que partira para o fossado.


RV - Há palavras que ardem e nunca chegam à boca, que nunca se tornam versos? Como lidas com elas? (Tânia Contreiras).
JP - Há palavras que ardem, que queimam, que fazem morada na boca mas que nunca chegam a ser mais do que pólvora seca em campo de batalha. Outras, surgem discretas, primaveras noturnas, assobio azul a iluminar a garganta, pássaro de veias cegas ou flores sem mão. Ah, do tanto que somos pela palavra e do tão pouco que conseguimos ser com ela... fatalidade ou recompensa?


RV - O poema espanta a morte? (Tânia Contreiras)
JP - Com o poema morremos e voltamos a viver e não raras vezes me espanto com cada um dos meus morreres... mas quem não precisa por vezes de sangrar, de estourar os músculos, quebrar os ossos e morrer… para saber voltar a viver?


RV - Sinto forte emoção em todos os seus poemas e comentários Esta emoção faz parte do poeta ou do homem Jorge Pimenta? (mirze souza)
JP - Mirze, o poeta é um plantador de sonhos. E o homem, será alguém muito diferente?
Sei não ser poeta, mas sou homem com voz, homem que sente o que escreve e que escreve o que sente na [re]criação de todos os seus mundos. 


RV - Jorge, como você chegou a se dedicar à poesia? E, considerando sua juventude, a partir de que idade? (Dade Amorim)
JP - Dade, é curioso mas sempre fui mais leitor de prosa do que de poesia. Em miúdo lia Enid Blyton, Júlio Dinis, Júlio Verne, Soeiro Pereira Gomes e muita banda desenhada. Na juventude, conheci Eça, Garrett, Camilo, Hemingway, Saramago e todos os neorrealistas. Ao bater na idade adulta, e por influência do curso de Português e Inglês que frequentei no Ensino Superior, conheci alguns ingleses e norteamericanos que me marcaram indelevelmente. A poesia continuava a ocupar um lugar residual até que, por fim, por volta dos 20/25 anos, conheci Al Berto, Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Eliot, Neruda, Lorca e Sophia que me levaram a sentir a leitura, a escrita e a tarefa homérica de ser homem por olhos diferentes dos que tinha. Comecei a escrever coisas banais, espontâneas, simples e tantas vezes simplistas mas que me apaziguavam apontando todos os caminhos que a pluralidade dos passos exige. Eu mudei, a escrita mudou. Sinto-a, hoje, como igualmente pele, mas mais invocativa, reflexiva e sugestiva do que referencial. Este jogo foi ganhando forma nos contactos com gente que escreve, primeiro presencialmente, aqui em Portugal [cheguei a participar em alguns encontros e fóruns de poesia com a Ana Salomé, a Laura Alberto, o Henrique Barroso e outros]; depois, mais abrangentemente, com o blogue; visitei ainda, por convite, algumas escolas do norte do país para conversas com alunos. Hoje, a escrita surge como prática regular, ainda que muito mais disciplinada do que dantes; se o não fizesse, provavelmente não teria condições para escrever. 


RV - Qual o lugar da poesia em sua vida? Pela frequência e pelo modo como são trabalhados seus poemas, a impressão é de que se trata de um empenho diário, constante. É isso mesmo? E que poetas você considera que te influenciaram mais? (Dade Amorim)
JP - A poesia está comigo diariamente. Mesmo sabendo que apenas ao fim de semana escrevo [no sentido formal do termo], a verdade é que no meu quotidiano profissional falo [e escuto] de poesia, de poetas e do tanto que nos oferecem. Por outro lado, nos intervalos da vida leio e releio aqueles que no momento se fazem luz e inspiração. Aos nomes que citei na pergunta anterior, juntaria os poetas Nuno Júdice, José Luís Peixoto, Ramos Rosa, Sousa Braga. E depois há os clássicos: Pessoa, Sá Carneiro, Torga, Cesariny, Pessanha… lidos e relidos sem que o tempo amareleça as suas páginas, mas os dedos que as percorrem. Além-fronteiras, há Dylan Thomas, Ezra Pound, Baudelaire sem esquecer o imenso Rimbaud [é verdade, confesso que o meu conhecimento do universo poético brasileiro é esparso e descontínuo].
Não posso esquecer, também, aqueles que sem o estatuto dos maiores, são-no na imensidão da sua poesia que percorro e me percorre a cada viagem. Aqui mesmo, na blogosfera, todos os aqui em diálogo comigo, nesta entrevista.


RV - Você é daquele tipo de poeta se debruça somente sobre a palavra? Ou encontra esse feitiço também em imagens, filmes, na vida de todo dia? (Dade amorim)
JP - Quase nada faço sem música, a minha música. E não, não sou erudito nem tenho qualquer formação clássica. Desde miúdo que agarro na música que me toca, a que me acelera a respiração e estimula o lóbulo esquerdo do cérebro, e isso tanto sucede com os violinos de Paganini como com as guitarras elétricas de Interpol; tanto sucede com a voz imaculada de uma soprano como com as navalhas guturais de Trent Reznor.
O mesmo sucede com a pintura e o cinema. Na verdade, não raras vezes consigo adivinhar uma galeria de imagens a desfiar diante dos olhos da minha imaginação como numa tela surrealista ou expressionista; como num filme de Stanley Kubrik ou de Manoel de Oliveira, ora em planos aproximados, ora de fundo, tanto em vertigem como a passo lento, umas vezes a estalar de gozo, outras em absoluta desorientação.


RV - Caro Jorge, vê-se em tua poesia uma contemporaneidade que nos remete aos mestres da literatura portuguesa atual. Evidente e natural a influência dos grandes autores sobre a formação de um bom escritor. E tua escrita não as nega: é uma maravilhosa combinação de palavras artesanalmente manipuladas com um traço próprio, bem definido ainda que imprevisível, que já aprendi a reconhecer à primeira leitura. Mas, e a música? Toda postagem tua acompanha-se de um “trilha” musical (aliás, sempre de muito bom gosto). A pergunta: qual a influência da música em tua escrita? Teus textos se inspiram em algumas ou simplesmente as encaixa em tuas postagens após compor? (Celso Mendes)
JP - Celso, na verdade não costumo engendrar um esquema pré-definido nas minhas postagens, mas habitualmente há uma ideia, uma palavra, uma colocação que me remete ao desenvolvimento de um texto e das relações que a partir dele estabeleço com a música e a fotografia/pintura [mais recentemente, também com as palavras dos outros, na epígrafe que habitualmente acompanha a postagem]. Mas esta combinação acaba por ser mais ou menos espontânea, até porque, sendo razoavelmente eclético e nada fundamentalista, a verdade é que há uns matizes que marcam as minhas estéticas de preferência, seja na literatura, seja na música. 
Uma derradeira nota que surge a título de curiosidade: a minha ligação à música surgiu antes mesmo da ligação à literatura. E ainda hoje, ao chegar a casa, ligo mais rapidamente o sistema de som ou o mp3 [consoante as tarefas] do que a televisão [esta cada vez mais confinada aos jogos do meu Benfica e, a espaços, do noticiário que verte, inverte e reverte a seu bel-prazer o mundo da informação].


RV - Agora um bate-pronto. Sei que é difícil, mas queria que respondesses com um só autor para cada pergunta (Celso Mendes):
JP - a) Um poeta português? Al Berto
b) Um poeta brasileiro? Ferreira Gullar [que só agora começo a descobrir]
c) Um poeta de que não seja de língua portuguesa?  Rimbaud


RV - Jorge, tua poesia é extremamente "anatômica". É a palavra [a tua, em específico] "uma extensão do corpo"? (Marcelo Novaes)
JP - Marcelo, metade de nós é pele; a outra metade memória da pele. Sim, há corpo, mesmo nas questões etéreas [afinal, até Deus, na sua infinita imaterialidade, um dia se fez corpo, sangue, e dor].
De resto, o poema como corpo de mulher é sempre das imagens que mais me seduzem…


RV - Os poetas brasileiros que conheci na escola não me agradavam, mas alguns portugueses, sim. Foi através de nomes como Camões e Bocage que cheguei a Fernando Pessoa e Mario Sá Carneiro – e estes me reencaminharam ao Brasil de Gregório de Matos, Jorge de Lima, João Cabral e Drummond. Como é a sua história com a poesia luso-brasileira? (Tuca Zamagna)
JP - Tuca, curiosa a tua viagem por terras distantes para, por fim, aportares na terra-mãe, hein? Sabes, na escola, e enquanto jovem aprendente, a poesia nunca me seduziu. Preferi sempre a relação com os grandes romancistas, em contexto escolar, porque as narrativas sempre estão mais próximas da vida entendida na sua sucessão de eventos e hiatos. Já a poesia faziam-na autópsia de um corpo que nos era desconhecido: cada poema objeto de comentário, na escola, era esquartejado como um cadáver na mesa fria de mármore, elegendo o todo como a soma de partes, de modo estruturalista, desligado, sem respeito pela essência que a germina: a alma de quem concebeu o poema e, no limite, a sua própria alma. Por isso adorei estudar, nos bancos da escola, O Crime do Padre Amaro, Os Maias, Eurico, o Presbítero, A Sibila, O Judeu…, mas os grandes poetas, na escola, fizeram-se-me [fizeram-nos] sempre mínimos. Foi pela mão de Sophia, em casa e no meu tempo, que descobri a magia da palavra poética. E, daí para diante, tudo se me revelou epifânico. Mais tarde, Pessoa ajudou a reconjugar todos os pedaços inominados nas minhas viagens solitárias, não académicas, pelas marés dos versos.
A propósito, Ruy Cinatti, poeta português, escreveu que no dia em que os seus poemas viessem a ser incluídos numa seleta escolar, ele morreria. Percebo-o perfeitamente, e é justamente por essa razão que, hoje, procuro junto dos meus alunos muito mais as reações afetivas individuais para, numa segunda instância, chegar às transindividuais e só depois, por fim, à ciência do texto [que mais não é do que a conjugação de todas estas dimensões num tecido harmonioso]. Estou convicto de que assim estaremos mais perto de ajudar a gostar de ler [e até fazer] poesia.


RV - Antes de começar a escrever, às vezes leio textos jurídicos e dicionários para... me inspirar! Você tem alguma mania a esse respeito, algum ritual propiciatório? (Tuca Zamagna)
JP - Não, nenhum ritual. Apenas o tempo que, em alguns momentos, se faz demasiado breve para a imensidão da página em branco. Mas, nesses casos, não vale a pena forçar.


RV - A tua poesia tem uma carga imagética impressionante, um poder de amalgamar seres e coisas com impressionante força poética, um canto caleidoscópico impregnado de universalidade. Como você descreveria o ato de criação literário, aliando intuição e racionalidade nesse mister? (Assis Freitas)
JP - É curioso entrares na minha escrita pela imagética, Assis. Mas nem sempre foi assim… Momentos houve em que, pela escrita, procurava alinhar um raciocínio que encaixava nas cápsulas das palavras; aqui, a revisão, entendida como processo recursivo e moderador, foi sempre a primeira conselheira e o texto era eminentemente reflexão.
Noutros momentos, a escrita foi sobretudo pele em eco que rapidamente fugia pela voz encarnada, que bombeava sensações e emoções líquidas. Aqui, a intuição e a espontaneidade foram as marcas inevitáveis.
Mais tarde, a escrita voltou a mudar. Não consigo dizer se para melhor, se para pior, do mesmo modo que não consigo conscientemente explicar porquê. Simplesmente mudou e confesso que corresponde às minhas necessidades atuais, por me permitir saber que cada palavra dita [sentida, pensada, quase sempre vivida] é um espelho não de uma realidade mas de todas as realidades que nela caibam, num exercício onde intuição e razão são os motores de toda a dinâmica criativa e geracional. É inevitável que, por vezes, os espelhos se projetem uns sobre os outros, abrindo galerias de reflexos que podem ser tão mais extensas ou breves, tão mais coloridas ou sombrias quanto mais claras ou escuras forem as íris daqueles que as ousam navegar. Sinto que neste jogo de significações e projeções pela palavra cabem o mundo e todos os seus [meus] mundos.


RV - Jorge, olhando o seu blog, percebi que você publicou em 2011 praticamente a metade de posts do que havia publicado em 2010. Essa redução foi uma opção, uma decisão consciente? (Lelena Camargo)
JP - Lelena, tenho perfeita noção disso. Houve uma fase da minha vida em que todos os meus círculos em chamas apenas se amansavam na escrita. E tornei-me voraz na entrega a este auto-de-fé, razão por que escrevia e publicava no blogue com muito maior frequência do que agora. Descobri, às minhas custas, que existem abismos de vida e morte na raiz do homem que escrita nenhuma preencherá, ainda que consiga agitar e remexer quase todos os silêncios. 
Presentemente, estou envolvido em projetos diversos na minha vida profissional que me compelem a ser mais metódico, disciplinado e até constritivo no que ao ato de escrever diz respeito. O que até parece uma enorme contradição, ou não fosse a poesia o antípoda do que acabo de dizer. Mas, se é verdade que o processo criativo ocorre em cada som crepitante que passa veloz por nós, no dia a dia, não o será menos que o ato criativo, em si mesmo, tem o seu tempo próprio no calendário do meu tempo. Em síntese: decisão consciente, mas por tudo quanto expus, opção determinista, é verdade. 


RV - O que você recupera quando escreve e de que você se desfaz se é que se desfaz de algo??? (Lelena Camargo)
JP - Desde que comecei a escrever que inaugurei uma gaveta dos escritos ou quase-escritos. São papéis sem ordem, sequência ou tempo; apenas depósito do que rasurei, imaginei, previ, adivinhei, destruí. Há momentos [raros] em que passo por lá e sorrio, umas vezes por associar cada letra à interjeição experiencial que o suscitou; outras vezes por nem saber o que querem dizer ou mesmo o que fazem ali. Nunca os recupero, mas não me desfaço deles. Se a poesia é uma obra em permanente reconstrução, conjuntamente com o projeto humano que o enforma, todos os pedaços – até mesmo os proscritos – são peças de encaixe seguro no puzzle máximo a que chamamos vida.


RV - Jorge, a poesia o visita com frequência ou você é que costuma passar na casa dela? Ou será que há algum lugar determinado para encontros furtivos? (Wilden Barreiro)
JP - A poesia, Wilden? Quantas vezes a pedi em casamento? Quantas vezes lhe pedi que morasse comigo? Quantas vezes lhe estendi os braços? Danada, ela ora sorri, ora fecha o rosto; ora abraça, ora abandona; ora coleciona, ora dispersa; ora chega, ora vai… quantas vezes a tenho por estrela mas ela apenas cresce, húmida, na rocha musgada?
Encontros furtivos são o que melhor a define… Ela chama por mim em pequenos nadas do dia, quando lhe apeteça, mas há momentos em que, por razões diversas [muitas delas associadas às exigências quotidianas], apenas replico com um olhar furtivo, um mover de sobrancelhas ou um deitar a palavra à esquina do texto. Ela sabe que eu a espero; ela sabe que não a esqueço, mas só mais tarde, já no controlo do tempo, lhe assobio e a convido entrar. Lamentavelmente, tenho de lhe impor os tempos, reservando-lhe o direito de se fazer, ou não, presente.


RV - Jorge, tua poesia é das melhores que conheço, sempre me faz imensamente bem quando te leio. Nos teus poemas, além da belíssima construção e das imagens que evocas, percebo sempre uma enorme profundidade, mais do que isso, uma densidade que eu poderia dizer característica da tua escrita. Com isto vem a minha pergunta: nestas viagens de luz e sombra como é feita a composição da tua poesia? Onde age a luz e onde as sombras quando tu escreves? Será que viajar pela porção sombra, que todos nós carregamos, alimenta mais a poesia do que a porção luz? Beijos, amigo tão querido. (Andréa Godoy)
JP - Andrea, querida, tenho dificuldade em perceber onde a estrada da poesia começa e acaba, do mesmo modo que quem nos acompanha ao longo da viagem. Escrevo para procurar dizer/esconder o mundo, carregar a espessura das coisas na voz, concentrar as emoções na ponta da pena, ser capaz de dizer o eu, de dizer o outro e todas as emoções que o mundo suscita, dentro e fora de quem as vive. E sempre cavalgando a página com a frágil, titubeante e precária harmonia que as palavras permitem. Mas, mesmo quando o tão almejado equilíbrio poético se torna de difícil consecução, ou mesmo intangível, é também, e ainda com e nas palavras, que a incapacidade é anunciada.
Habituei-me a ver as luzes e as sombras de modo refratário, como se pelo buraco estreito do caleidoscópio, ou não fosse a simetria poética a síntese dos universos assimétricos [tantas vezes imperfeitos, espúrios caóticos…], essa mola que nos trasfega para um lugar melhor [na escrita e na vida].
Remissão ou castigo? Dispersão ou redenção? Pedra ou papel?... Talvez poema.


RV - Só reconhece a luz quem já viajou pelas sombras? (Cris de Souza)
JP - Cris, por ter um carinho especial pela literatura romântica, e por Rousseau em particular, talvez responda que só reconhece as sombras quem já viajou pela luz. Não, não é fatalismo do ser humano este percurso degenerescente que tantas vezes nos faz alimentar de reminiscências; é antes idiossincrasia. Afinal, a criação é um ato quase perfeito.


RV - A poesia transforma a dor em si? (Cris de Souza)
JP - Eu transformo-me com a dor da poesia – até porque mitiga a dor real, a dor vi[vi]da. Mas também renasço nos seus delírios, nos seus compassos, nos seus mundos [im]possíveis. Sinto, em cada sensação, que a poesia se transforma, também. Incluo, aqui, todos os contributos dos que a leem e que se deixam por ela tocar, tocando-a. E o poema reescreve-se a mãos quase infinitas.


RV - O que há nas paredes do seu quarto? (Cris de Souza)
JP - Cal e gesso encobertos pela cor da tinta. Histórias, afinal, estórias de dentro e de fora, de mim comigo e de mim com os outros que são muito mais do que paredes; são ramos entrelaçados na botânica do corpo. E às vezes respiram…


RV - Jorge, qual o vértice possível entre as linhas orientadoras do professor e do poeta? O professor é um poeta da relação humana mais generosa? E um poeta nos ensina a amarmos o quê acima de tudo, se é que ele nos ensina algo? (Marcantonio)
JP - Estou em crer que ensinar/aprender e sentir correspondem a três áreas vitais do ser humano. Somos construções, antes de mais, e a complexificação do raciocínio bem assim como o entendimento dos nossos sentimentos torna-nos mais conscientes do nosso papel neste processo interativo e plural. A prova disso é que antes mesmo de surgirem enquanto instituições sociais, já o homem ensinava e aprendia ao mesmo tempo que exprimia sensações.
Enquanto professor, não ensino; procuro explorar o que os alunos sabem, pensam e sentem para saberem mais, pensarem melhor e perceberem o que sentem. Não será isso a maior poesia?


RV - Você é um poeta que utiliza a blogosfera como veículo de divulgação dos seus escritos. Considerando isso, pergunto o que você acha das redes sociais (como o Facebook, por exemplo) para o mesmo fim? Você é refratário a elas de algum modo? O que pensa disso? (Marcantonio)
JP - Marcantónio, confesso não ser um grande fã das redes sociais. Tive, em tempos, Hi5, mas rapidamente me tornei uma ilha dado que me esquecia de que havia um conjunto de rotinas exigíveis à manutenção dessa ferramenta social: atualizar fotografias, moderar comentários, comentar… Acabou por seguir o destino inevitável: morrer. A verdade é que as redes sociais, apenas como lugar de aproximações e contactos interpessoais superficiais, não me seduzem. Nessa medida, sempre preferi o blogue que, tendo sido por mim criado mais tarde, acabou por corresponder por inteiro àquilo que pretendia: aproximar rostos e sensibilidades por via da palavra. É verdade que o blogue tem um alcance mais restrito; todos sabemos que é, de certa forma, mais limitador na propagação de uma mensagem/ideia/conteúdo; é provável que seja gerador de nichos. Todavia, entendo que quem segue um blogue mantém alguma afinidade com o seu objeto e raramente é um paraquedista acidental.
Sei que, presentemente, quase todos os bloguers articulam esta ferramenta digital com o Facebook ou o Twiteer, mas parece-me que na generalidade dos casos há uma perda expressiva dos blogues para as redes sociais, do ponto de vista da atenção e do cuidado de quem os gere. O que acaba por ser inevitável, dado que o caráter mais abrangente, não apenas do ponto de vista do alcance, mas também dos conteúdos a partilhar, reclama porventura mais tempo e dedicação do que o blogue. Vemos, pois, os Facebook atualizados regularmente e os blogues cada vez mais atolados em passagens esporádicas ou mesmo residuais por parte dos administradores.
No meu caso particular, já fui desafiado várias vezes a abrir uma conta no Facebook. Tenho resistido, porque não pretendo desvirtuar as poucas qualidades que o meu viagens de luz e sombra possa ter, até por ter receio de que jogar em dois tabuleiros me faça perder ambos os jogos. Não, não quero ganhar nada; apenas permanecer ligado àqueles que valorizam a minha escrita e poder fazer-me presente na escrita daqueles que gosto de ler. Mesmo que continue a ser apelidado de jurássico. 


RV - Jorgíssimo, um poema é, geralmente, o exercício solitário de quem "sofre" a poesia, mas você desafia este conceito experimentando parcerias. Como é isto de fazer um poema a quatro mãos com outro poeta? (Roberto Lima)
JP - Robertílimo, a escrita, e em particular a arte poética, é um processo eminentemente individual, ou não combinasse a apropriação de um conjunto de técnicas normativizadas e normalizadas com a intimidade e o crivo pessoal – cabendo aí todos os nomes que aprendemos a dizer, os que esquecemos e aqueles que, mesmo sem o sabermos, nos pré-existem e virão depois de nós. Assim nasce o estilo, a marca, a identidade.
Dito isto, e num primeiro olhar, poderemos pensar que a associação escrita poética/parceria pode ser desproporcionada ou até contranatura; todavia, numa abordagem mais funda, ela faz-me todo o sentido, por simultaneamente abrir e encerrar o desafio último de quem escreve: confrontar-se consigo e com os outros na pluralidade das sensações. O mais? Apenas composição.
Apenas uma nota adjacente: todos os textos que já escrevi em parceria fluíram com a espontaneidade que a poesia exige; nunca, em momento algum, o processo se tornou difícil, trem de rumo indefinido, impossibilidade, tarde sem música ou, mais recentemente, conto sem humor. Há, na origem, admito-o, grande sintonia com as pessoas com quem habitualmente arrisco este tipo de exercícios.


RV - Além de operário dos sentimentos como artesão da poesia, você é também professor. Em tempos de internet, videogames, ipods, telefonias, celulares e tantas outras "jetsonices",  fale-nos de sua luta diária tentando mostrar aos jovens que Camões é tão importante quanto Bill Gates, e que o legado de Saramago é tão grande quanto o de Steve Jobs... Os jovens portugueses de hoje se interessam por literatura? (Roberto Lima)
JP - Hoje temos os videojogos; na segunda metade do século XX foi a televisão; antes disso, a rádio. Mas antes mesmo da Revolução Tecnológica, havia apelos aos jovens, menos sofisticados é certo, mas que, à sua medida e no tempo, poderiam representar uma ameaça ao legado da literatura nas nossas vidas: uma bola de futebol, uma bicicleta, uma boneca de trapos ou um pião. 
Apesar de tudo, a literatura sobrevive e sobreviverá. E porquê? Porque se é verdade que o cérebro precisa de estímulos que lhe apaziguem todas as vertigens que experimenta, não será menos verdade que, cumulativamente e de modo transversal a todas essas experiências e sensações, há uma que não se resolve sem a literatura: a descoberta de si mesmo. E isso está sempre de um lado do silêncio e do outro lado da palavra. Estou em crer que na descoberta de nós mesmos entram todas as coisas, mesmo aquelas que à primeira vista possam parecer-lhe ameaças.
Na escola, e para os meninos, mais do que ser pescador de metáforas ou carpinteiro de sonetos ou ainda estivador de rimas, procuro deixar que cada um toque, à sua medida, o poder da palavra, convidando a sentir esse território quente, húmido, fecundo, “como se o topo da […] cabeça tivesse sido arrancado” [Emily Dickinson]. E se sentem, gostam. E se gostam, leem. E se leem, atrevem-se a escrever e a sentir. E entramos numa espiral mágica que engrandece: à literatura e a quem ousa com ela.

Participaram desta entrevista: Joelma Bittercourt, Dani Delias, Tânia Contreiras, Mirza Souza, Dadqae Amorim, Celso Mendes, Marcelo Novaes, Tuca Zamagna, Assis Freitas, Lelena Camargo,, Wildem Barreiro, Andréa Godoy, Cris de Souza, Marcantonio, Roberto Lima



A roda


Deixo cair um pingo colorido
na folha branca
e este é meu ponto de partida.
Finco neste ponto, exato,
uma estaca e
faço um giro prévio com a corda nova.
Ao redor deste mundo, recém desenhado,
fecho os olhos
para que os pés encontrem as fronteiras.
Eu sou a minha própria mãe
e crio também uma imagem para o pai
que serei
um dia.
Sou agora a deusa dos metais
e vou forjando
no calor intenso
escudo, lança e flechas.
O ventre está seco,
aprendo a sonhar com as guerras.
Retiro os livros que contam histórias
de mulheres quietas
esperando boiarem feijões defeituosos
esperando que o vento
esperando que o sangue
esperando que o homem.

Na hora do parto,
uso a faca afiada e
me separo,
em duas.
E estas, multiplicadas,
até chegarem ao número necessário
de um exército
sem memória
sem choro
sem lamentos
sem bordados imóveis.

Um exército de outras
mulheres
que sou,
até que eu não veja mais o horizonte
coalhado de cópias de mim mesma,
para seguir
em formação militar
em busca dos livros
das cantigas
dos mitos
onde
uma mulher adormece
uma mulher espera
uma mulher grita
uma mulher grita
uma mulher grita.

E eu, e elas todas que sou,
marchamos,
prontas para habitar outra ficção
outro começo
vamos agora
divertidas
querendo ditar mais de dez mandamentos
querendo deixar os cabelos crescerem antes de sermos crucificadas
querendo dividir os mares todos ao meio
querendo dominar a divisão dos quartos das espécies que residirão na arca.

Nossa história,
na língua nova que criaremos,
começará assim:
no início havia uma mulher e seu umbigo,
e ela começou a criar navios
e por isso inventou os mares
e pediu luz para suas navegações.

No início, era escuro.
Mas elas chegaram, armadas.
E gritaram o mundo outra vez.

Rio de Janeiro, madrugada, Eliana Mara Chiossi

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Cem anos

Atis-Lusis, 1951


Vejo mãos que me folheiam

buscando-me a fisionomia —

mas já passei, agora

sou apenas poesia.



Vejo rostos que me amam

tentando saber quem fui —

sou um retrato, miragem

que o tempo dilui.



Vejo braços que me acenam

chamando-me insistentemente —

para que, se a folha que passa

passa tão de repente?


Antonio Brasileiro, pintor e poeta baiano.